da janela das eumênides

...cada amanhecer traz a razão para recomeçar...

Maria Brockerhoff

As Eumênides acreditam, piamente, na sorte do trevo de quatro folhas… regado com suor, garra, técnica e insônia!

Doris Lessing

Todo o bom escritor, conforme Graham Greene, tem uma lasca de gelo no coração. A grande Lessing demonstra essa verdade nos livros e na própria vida.


DL1.jpgFoto: Lefteris PitarakisNobel de literatura em 2007, Doris Lessing nasceu na antiga Pérsia em 1919. Os pais ingleses mudaram-se para a Rodésia do Sul — hoje Zimbabwe — em busca das promissoras fazendas de milho. A esperança se desfez sob as condições precárias naquelas colônias britânicas no início do Século XX.

Uma escola-convento era o lugar para a educação das donzelas. A menina Doris, lá, se insurgiu contra os rígidos conceitos religiosos, principalmente os de danação eterna e as severas regras de comportamento feminino.

Foi, então, estudar em Salisbury — a atual capital Harare. Doris, aos 13 anos, já sentindo a força mutiladora do ajustamento à sociedade, abandonou a instrução regular e tornou-se, como vimos, uma bem-sucedida autodidata.

Seus mestres foram, dentre outros, Dickens, Stendhal, Tolstoi, Dostoiévski. Absorveu filosofia, psicanálise, sufismo, budismo, história e política! Daí, certamente, a fonte da insuperável e diversificada produção literária desta bonita, determinada e inteligente mulher.

Essa escritora vai além de qualquer limitação ou gênero. Suas obras foram fundo no céu e inferno da condição humana.

Casou-se em 1938, muito cedo, como reconheceu mais tarde, tendo dois filhos John e Jean. Do segundo casamento, em 1944, veio o filho Peter. A experiência da maternidade foi-lhe um “Himalayas of tedium”, segundo suas corajosas e lúcidas palavras. Assim, levantou questões sobre a maternidade, a subserviência feminina e o direito de contrariar o status quo, a tribo, a moda.

Aliás, isto Doris Lessing o fez sempre; ou melhor, viveu sem pertencer a qualquer classe, categoria ou hierarquia. Foi a voz altiva contra a crueldade da colonização, do racismo e dos privilégios dos europeus. Essa independência trouxe-lhe a pecha de persona non grata em 1956, sendo proibida de visitar a filha residente na África do Sul. 40 anos depois, as portas foram-lhe abertas com justiça.

Recebeu inumeráveis prêmios, culminando com o Nobel; a atitude de Lessing perante a glória foi sempre a mesma: um chiste bem-humorado e a surpresa com as entrevistas. Declinou da condecoração de Dama do Império Britânico, sob o fundamento de não existir tal império!

DL2.jpgA obra de Doris Lessing é inesgotável. Assim, o objetivo aqui é curtir os livros: “Os Sabores do Exílio” (“The Sun Between Their Feet”) de 1973, e “As Avós” (“The Grandmothers”) de 2003.

O primeiro é uma coletânea de contos em que Doris se revela uma observadora densa, sensível e perspicaz. Está justificada a alcunha de “arqueóloga das relações humanas”.

A edição esgotada de “Os Sabores do Exílio” — esta preciosidade deve estar em bons “sebos” — reune histórias preferidas da autora, relatam traços autobiográficos com momentos incríveis e revelações surpreendentes. Só há um jeito de saber…

As Avós” é um livro incompreendido! Para começar, a autora insistiu e manteve o título quando os escolados editores sugeriram um outro mais chamativo e/ou comercial — mas, do assunto “avós” passa longe.

O conteúdo é, claro, impensável para os padrões atuais, para a hipocrisia vigente e para os habituados aos dogmas. Por isto mesmo, algumas resenhas são descorteses ao bisbilhotar — quase sempre — uma das questões fundamentais do livro; tais resenhas cortam o processo delicioso da leitura de, aos poucos e cada um por si mesmo, desvelar todo o mistério das relações profundas entre os personagens.

O livro descreve um invejável estado de felicidade e a solução — nada convencional — de conflitos amorosos e familiares. Mostra, com maestria, o emaranhado das relações humanas, assim como quem não quer nada… sem lições… sem propósitos… Lessing se dá ao luxo de, às vezes, deixar no ar frases do diálogo!

A cada leitura um novo ângulo, um outro lado do personagem, uma faceta não apreendida…

Quem já aprendeu a ler subtextos enxerga a interpretação que Lessing dá ao esquecido adágio “os incomodados que se retirem”: nos triângulos desamorosos, quando a pessoa tem a sensacão de não pertencer ao mundo do parceiro, bate em retirada se tiver boa auto-estima! Logo, irá buscar o seu lugar afetivo longe dali, sem exigências, sem “indenizações”. Se, ao contrário, for ressentida e invejosa tentará destruir o parceiro, o grupo, os filhos… não importam as feridas, os golpes, ainda que na própria pele. Lessing demonstra, com lucidez, estas duas escolhas.

Este é apenas um dos insights que o livro provoca… há muitos outros… descubra-os!


Maria Brockerhoff

As Eumênides acreditam, piamente, na sorte do trevo de quatro folhas… regado com suor, garra, técnica e insônia!.
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