da palavra ao fotograma

Reflexões entre a 6ª e a 7ª arte

Roberto Guerra

Acima de tudo é um delirante (mas sem perder a lucidez), em consequência disso é um escritor e um apreciador de artes em geral.

Camus, Maugham e o Suicídio

Sobre o suicídio e o absurdismo: uma relação pouco conhecida nas obras do filósofo francês Albert Camus e do escritor britânico W. Somerset Maugham


Camus.jpg Albert Camus

Publicado em 1942, o livro Le Mythe de Sisyph (O Mito de Sísifo) de Albert Camus é um ensaio filosófico que busca detalhar o que o próprio filósofo chamada de "o absurdo", que nada mais é do que o dilema humano em acreditar e procurar pelo sentido da vida e a inabilidade de encontrá-lo. Em analogia há um personagem da mitologia grega, Sísifo (que dá título ao livro), um exemplo desse absurdo: Por chantagear, desrespeitar e enganar aos deuses, o Rei Sísifo foi condenado por Hades a rolar uma pedra de mármore até o topo de uma montanha apenas para vê-la rolar montanha abaixo novamente, repetindo essa tarefa sem sentido num looping infinito. Sísifo foi condenado a se esforçar pelo nada e, para Camus, essa condenação funciona como metáfora para a vida à qual todos os seres humanos estão presos.

Curiosamente, 27 anos antes o escritor britânico W. Somerset Maugham publicou Of Human Bondage (Servidão Humana), um extenso romance que narra a vida desnorteada de Philip Carrey e em certo momento, revela que seu tema principal também é a busca pelo sentido da vida. Obras que apesar de afastadas por quase três décadas e de estilos distintos, podem ser entrelaçadas em certos pontos.

No início do primeiro capítulo de O Mito de Sísifo, Camus explicita que o único problema realmente sério da filosofia é o suicídio e, principalmente, suas motivações. Todos os outros questionamentos vêm depois. O autor tenta traçar os caminhos que levam até essas motivações e logo a princípio percebe um paradoxo: Primeiro, há quem decida pelo suicídio ao não encontrar nenhum motivo para viver. Segundo, há quem decida pelo suicídio ao não conseguir lidar com seu motivo para viver. Como escreveu Camus: "O que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer".

sisyphus.jpg O castigo de Sísifo, na mitologia grega, é a metáfora perfeita para o absurdo de Camus.

No romance de Maugham, o protagonista Philip se mostra bastante confuso com o rumo em que irá seguir na vida. Órfão de pai e mãe, seu tio deseja que ele vá para Oxford e siga os seus passos como vigário na pequena cidadezinha de Blackstable, no interior da Inglaterra vitoriana. Indo contra, Philip tenta a vida de artista e opta por estudar pintura em Paris. É nesse contexto que conhecemos a personagem Fanny Price, uma estudante de pintura sem amigos e sem talento (esse último, evidenciado por reclamações do professor e por pensamentos de Philip que dizem o quão ruins são seus quadros). Seu único contato relativamente afetuoso é o de Philip, apesar dela também mostrar-se fria diante dele em diversas vezes. Fanny tem seu maior destaque no romance durante uma das aulas onde o professor, cansado da incompetência dela, a humilha e grita para todos os presentes que ela deve desistir de ser pintora. Após isso, Fanny desaparece por alguns dias até descobrirem que ela se enforcou em seu quarto alugado.

Esse suicídio foi por uma razão de viver que se tornou razão de morrer. Por algum motivo, Fanny tinha o seu sonho de ser pintora como seu único referencial na existência. Não se importava com amizades (sempre ausente nas reuniões entre Philip e outros colegas) ou mesmo com ela própria (interpretado através de um pensamento de Philip narrado após o suicídio dela, tentando entender o porque o fato dela usar roupas esfarrapadas e cuidar tão mal da aparência. A pobreza não justificava, todos lá eram pobres, mas também eram asseados segundo Philip). Desse modo, ela se matou por não ter mais motivos para viver ou por acreditar não poder ir adiante com seu motivo de viver?

Camus enxerga o suicídio como um fenômeno individual mais do que social, fruto de um pensar dolorido e também defende que por mais que existam diversas motivações para um suicídio, o mesmo muitas vezes se dá não pela amargura acumulada, mas por uma situação ruim, às vezes banal (como um amigo que te ignora), que acaba se tornando uma situação limite. A atitude banal pode fazer toda a amargura vir à tona e leva à reflexão, que por sua vez leva ao suicídio. No romance, podemos fazer inferências sobre todos esses elementos: A amargura de Fanny, a situação limite (a bronca do professor) e a reflexão ao suicídio (é citado que Fanny desapareceu por dias e, ao entrarem no quarto da mesma junto ao irmão dela, Philip repara em uma folha de papel com seu nome escrito inúmeras vezes. Elemento que denota a reflexão, pois ela pensou em Philip, seu único amigo, nervosamente antes do suicídio. Talvez tentando encontrar nele a razão para não fazer isso.)

somerset-maugham_1472023c.jpg W. Somerset Maugham

O suicídio é uma confissão, o suicida confessa que não encontra mais justificativas para continuar vivendo, que é incapaz de encontrar um sentido para sua vida. O suicídio, portanto, é uma das situações onde se percebe e se tenta fugir do absurdo. Camus reforça que só há duas escolhas em relação a vida: a de vivê-la e a de não vivê-la. Porém, tais escolhas nem sempre são tão claras e se confundem constantemente numa imensa dúvida. Quem vive, muitas vezes considera deixar de viver. Quem decide deixar de viver, muitas vezes considera uma justificativa para continuar vivendo no último momento.

É bem possível que o corpo se apegue a vida enquanto a mente queira morrer. Na vida real, o segundo conceito pode ser observado em Kevin Hines, um sobrevivente de um dos vários suicídios na Golden Gate em San Francisco, que ao se jogar da ponte percebeu que não queria morrer. Na ficção de Maugham, há uma passagem envolvendo tal conceito: Uma personagem pouco significante (uma enfermeira que só é mencionada em um único capítulo) fala algo memorável com uma pitada de humor negro:

" "...Eles são muito engraçados, suicídios. Eu me lembro de um homem que não pôde conseguir nenhum emprego e sua mulher morreu, então ele vendeu suas roupas e comprou um revólver, mas nisso ele fez uma bagunça, o tiro só lhe arrancou um olho e ele ficou bem. E então, com um olho faltando e metade da cara estourada, ele chegou a conclusão que o mundo não era tão ruim assim e ele viveu feliz depois disso. Uma coisa que eu sempre noto: as pessoas não cometem suicídio por amor, como você imagina, isso é coisa de escritores, elas cometem suicídio por que não tem nenhum dinheiro. Eu imagino o porquê."

"Eu acho que é por que o dinheiro é mais importante que o amor", sugeriu Phillip."

(Of Human Bondage, MAUGHAM, W. Somerset, Pág. 562, Tradução Livre)

Of-Human-Bondage.jpg Of Human Bondage, versão cinematográfica de 1932, Philip e Mildred.

Philip também considera, em diversos momentos, a ideia de cometer suicídio, especialmente quando ele é acometido pela pobreza e tem seu amor pela garçonete Mildred desprezado. Philip, porém, nunca chega a praticá-lo. Quando se vê forçado a trabalhar em uma loja de decorações, após só ter conseguido um emprego com a ajuda de Athelny, um ex-paciente e amigo (que é redator publicitário da loja em questão) para não passar fome, Philip até mesmo passa alguns minutos pensando qual veneno causaria uma morte menos dolorosa. Uma resistência do corpo à morte? Mas, também, o outro modo de escapar do absurdo: a esperança. Ter esperança, segundo Camus, é a outra alternativa, a alternativa de viver por uma ideia. Alternativa, porém, que leva ao desespero quando a ideia já não é mais possível.

"A escapada mortal que constitui o terceiro tema deste ensaio é a esperança. A esperança de uma outra vida que é preciso "merecer” ou a trapaça dos que vivem não para a própria vida mas para alguma grande ideia que a ultrapassa ou a sublima, lhe dá um sentido e a atraiçoa."

(CAMUS, Albert. Pág. 11)

Philip vive pela ideia de ser pintor e pela de ser médico, quando a pobreza lhe afasta dessa última; ele contempla o pedaço de tapete persa que um poeta chamado Cronshaw lhe deu em Paris (do qual ele disse esconder o segredo do sentido da vida) e chega a conclusão de aqui a vida é como uma obra de arte: O tapete foi tecido com suas tramas e nós percorrendo diferentes caminhos para, no final, apenas formar figuras, que não servem para nada mais além da contemplação. A confecção trabalhosa do tapete terminou em algo agradável ao olhar, mas sem o menor significado além disso. Desse modo, o sentido da vida é o fato dela possivelmente não possuir sentido (assim como defende Albert Camus), mas mesmo assim pode ser apreciada. Aceitando a falta de sentido da vida, Philip se sente livre para continuar fugindo do aprisionamento do absurdo, sem o pensamento sobre suicídio e sem se deixar dominar por esperanças vagas que levam ao desespero quando são impedidas. Talvez, o único modo de deixar de ser mais um Sísifo.


Roberto Guerra

Acima de tudo é um delirante (mas sem perder a lucidez), em consequência disso é um escritor e um apreciador de artes em geral..
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