da palavra ao fotograma

Reflexões entre a 6ª e a 7ª arte

Roberto Guerra

Acima de tudo é um delirante (mas sem perder a lucidez), em consequência disso é um escritor e um apreciador de artes em geral.

Masculinidade no Cinema Atual

Uma lista de alguns filmes desse século voltados ao mundo masculino: Da paternidade e a amizade ao amor e a perda.


Não se fala muito do universo masculino recentemente. Pelos portais de cultura ou mesmo em “rodas de discussão” informais, nota-se que o mundo sob a perspectiva do homem foi um pouco deixado de lado. Não procurei indagar os motivos disso, mas passei a me lembrar de filmes atuais que possam (propositalmente ou não) transmitir mensagens sobre essa ótica, fornecendo sugestões para problemas comuns entre os homens. É aí que surge a pequena lista desse artigo.

5. Taken (Busca Implacável)

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Bryan Mills, um agente da CIA aposentado, se vê obrigado a resgatar sua própria filha, raptada durante uma viagem à Paris, das mãos de traficantes de mulheres.

Apesar de que muitos possam achar "absurdo" querer encontrar ensinamentos em um filme de ação, cujas cenas consistem majoritariamente em tiroteios e porrada, "Busca Implacável" traz valorosas lições sobre paternidade.

A primeira é a importância da compreensão no papel de pai. Bryan mostra-nos que, no trato com a família, existe uma alternativa entre o machão mal educado e o pau-mandado. Ao invés de partir por um dos extremos de se impor grosseiramente ou aceitar tudo calado, Bryan tenta mostrar sua desaprovação com a viagem de forma solene e calma, tentando apresentar argumentos para que ambas (sua ex-esposa e filha) desistam da má ideia.

Confrontado com a insistência (e certa chantagem emocional), o agente aposentado abre mão pelo bem da harmonia, sem deixar de impor suas condições para, ao menos, tornar essa viagem menos perigosa. Já a segunda lição pode ser observada quando o já mencionado sequestro ocorre. Mesmo provando que era uma má ideia e tendo em vista que sua ex-esposa incentivou a própria filha ao erro, Bryan ignora o impulso de "jogar tudo na cara" de sua ex-mulher e apenas declara que irá fazer o que tem que ser feito, irá salvar Kim. Desse modo, a dica é simples: Faça o que tem que ser feito. As vezes temos a tendência de jogar a culpa de nossas tragédias e problemas pessoais em fatores externos, sejam em pessoas específicas ou na sociedade em geral, quando na realidade deveríamos concentrar nossos esforços e pensamentos em tentar resolvê-los, independente se a culpa é realmente de terceiros ou não. No final das contas, quando Kim está salva, pouco interessa como tudo aquilo começou.

4. Mud (Amor Bandido)

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Ellis e Neckbone, dois garotos de 14 anos de uma pequena cidadezinha do Arkansas, decidem explorar uma ilha no Rio Missisipi. Durante a exploração encontram Mud, um homem foragido da polícia após ter matado o marido agressor de Juniper, a mulher que ele ama desde a infância. Os garotos decidem então ajudar Mud a se reunir com Juniper, consertar seu barco estragado que é mantido entre duas árvores da ilha e fugir para o golfo do México. Tudo isso enquanto os pais de Ellis passam por um processo de divórcio, sua mãe ameaça se mudar para a cidade grande com ele e a casa flutuante de seu pai (que ele utiliza como moradia e para seu trabalho de pescador ao mesmo tempo) está para ser confiscada pelo governo.

"Amor Bandido" traz uma visão sobre a perda, mas de um ponto de vista menos trágico que nos primeiros filmes do Alejandro González Iñárritu e mais voltado especificamente para o universo masculino. A mensagem desse filme é a de que não devemos deixar nossas paixões e apegos nos destruírem e nos mantermos fortes quando elas passam a deixar nossas vidas.

Mud é um homem que, como muitos outros, acaba idealizando sua amada e esquece que ela é tão humana quanto ele e não uma espécie de "deusa" ou "anjo salvador". Mud partilha uma ideia quem vem desde a época do romantismo, a ideia de que nenhum martírio é em vão se for pelo amor. Por causa disso, ele estragou sua própria vida: está vivendo miseravelmente em uma ilha, dependendo da ajuda de seus novos amigos (Ellis e Neckbone) para se alimentar e não possui liberdade, pois está sendo caçado tanto pela polícia quanto pela família de criminosos do qual o marido assassinado de Juniper fazia parte. Somente quando uma grande desilusão ocorre e Mud percebe que talvez Juniper nunca tenha o amado tão fielmente quanto ele amou é que ele finalmente se sente livre para fugir sozinho e tentar consertar a vida que ele próprio deixou ser destruída por seu apego.

Ellis também é preso por apegos, o que é mais comum (e mais doloroso) em um rapaz no início da adolescência como ele. Ellis é um autodeclarado "garoto do campo" e a ideia de ter que ir com a mãe para a cidade grande soa terrível para ele. Porém Senior, seu pai, insiste que ele precisa ir com a mãe e fazer companhia a ela, pois em breve a família perderá seu sustento quando as autoridades vierem desmontar a casa flutuante e será uma situação difícil para todos. Ellis, que também tenta aproximar Mud de seu amor para se purgar da separação de seus pais, logo será obrigado a encarar tais perdas e a se manter forte.

Em fim, "Amor Bandido" trás a ideia de que o homem precisa estar sempre disposto a encarar as adversidades que podem ocorrer em relação ao amor, à família e ao seu modo de vida. O que não significa perder ou ignorar a sensibilidade, apenas não deixar a mesma intervir nos momentos necessários. Afinal, para mim, não houve cena mais comovente no filme do que ao final, quando o rude Senior deixa Ellis na porta de sua nova casa na cidade grande e diz "Eu te amo, filho", provando que ser firme e ser frio não são sinônimos.

3. Gran Torino

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Walt Kowalski, ex-veterano da guerra da coreia e recém-viúvo, é um velho rabugento e preconceituoso que não se dá bem com os imigrantes Hmong que estão "tomando conta" da vizinhança onde mora. Um dia, o jovem tímido e submisso Thao, por pressão de seu primo, líder de uma gangue de delinquentes, tenta roubar o carro de Walt, um clássico Gran Torino. Thao é pego durante o roubo e a mãe do mesmo convence Walt (que de início se mostra relutante) a aceitar o rapaz para ser seu assistente nos afazeres doméstico, como forma de compensação. Nessa aproximação inusitada, Walt acaba fazendo amizade com Thao, superando seus preconceitos enquanto o jovem aprende lições fundamentais para sair do ponto de estagnação em que sua vida se encontra.

Assim como "Amor Bandido", "Gran Torino" também trás uma lição sobre ser forte, porém de um modo diferente. Além de nos mostrar que podemos sempre aprender com as gerações passadas (ao invés de só considerar os erros delas) e assim encontrarmos o apoio necessário para seguir em frente quando nossas vidas ficam estagnadas. Antes de conhecer Walt, Thao era tímido e passivo, facilmente influenciável por seu primo criminoso e não sabia como expressar sua atração por uma garota de seu bairro. Em fim, socialmente fracassado. Após ser forçado a ajudar Walt, o mesmo consegue transpor a carapaça ranzinza e preconceituosa do velho homem e enxerga seu lado mais humano, que através de uma amizade inicialmente velada, encontra um mentor e uma figura paterna que o arruma um emprego, o ensina a se comportar e até lhe dá uma dica ou outra sobre mulheres. Walt chega até mesmo a oferecer o seu Gran Torino para que Thao leva a garota de quem ele gosta em um encontro, ignorando o fato dele ter tentando rouba-lo no início do filme.

Uma das cenas mais engraçadas do filme ocorre quando Walt e seu barbeiro tentam ensinar Thao a falar como homem, o que envolve "insultar amigavelmente" (com Walt chamando seu barbeiro de "crazy italian prick" e o mesmo retribuindo com "old polack son of a bitch"), falar mal do emprego ou então do próprio chefe ou dos mecânicos que consertaram seu carro (quando estes não estiverem por perto) e reclamar dos problemas com a namorada (mesmo Thao não tendo uma namorada, um carro ou um emprego naquele momento). A cena pode até ser politicamente incorreta, mas qualquer um que já tenha tido a oportunidade de ouvir as vozes que vem de uma mesa de bar exclusivamente masculina pode perceber a veracidade disso e como é importante conhecer esses ensinamentos para lidar com outros homens sem maiores ressentimentos. O mundo masculino pode ser superficialmente grosseiro para quem vê de fora e/ou tem pouco contato.

Portanto, além de ensinar a ser forte, Gran Torino demonstra vários tipos de forças necessárias: A força para vencer o orgulho e tentar aprender com os mais velhos (o que os filhos e netos do próprio Walt desprezam, como visto nas chocantes primeiras cenas). A força para seguir os caminhos necessários para conseguir não só o que se quer, mas o que se PRECISA para uma vida melhor. A força para encarar o hostil (a princípio) mundo masculino com suas "ofensas amistosas" e zoações, o que pode ser meio complicado para os "thaos da vida", jovens que são tímidos e tiveram pouco contato masculino na família. Em fim, as forças que são necessárias para transição de menino para homem.

2. Boy A

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Eric (rebatizado por si mesmo com o nome de Jack) é liberado da prisão após ter sido condenado por um crime hediondo que cometeu quando criança e com o auxílio de Terry, um assistente social, tenta levar uma nova vida e esquecer seu passado.

"Boy A" é uma drama sobre o contato de um homem com outros seres humanos. Do fator beneficente do amor e das amizades até as tragédias causadas por negligências familiares, principalmente entre pai e filho.

Terry arruma um emprego para Jack como carregador em uma empresa e após anos de clausura, Jack irá descobrir a amizade de seus colegas Dave e Chris e o amor de Michelle, secretária da empresa. É aí que podemos perceber o fator de socialização das amizades masculinas e o fato de cura de um relacionamento amoroso sadio (jamais compulsivo como em "Amor Bandido"). Com Dave e Chris, Jack finalmente consegue sair de uma introversão e aprender a se conectar de forma saudável com outras pessoas, sendo Chris, inclusive, quem encoraja Jack a convidar Michelle para sair. Já com Michelle, Jack encontra alguém com quem ele pode purgar todos os traumas internos de seu passado, através da confiança e do carinho que ela dedica a ele. O ensinamento desses relacionamentos é o de se manter aberto às pessoas certas, com mentes saudáveis, que podem nos ajudar a sair do inferno psicológico que vivemos. Jack (ou Eric) só cometeu um crime em sua infância pois se envolveu com a pessoa errada, de mente tão devastada quanto a dele.

O lado trágico ocorre quando testemunhamos a infância de Eric/Jack e também o relacionamento atual entre Terry e seu filho (que foi criado pela mãe a vida inteira e só voltou a viver com ele após o início da vida adulta), ambos marcados pela ausência familiar. No caso de Eric/Jack, isso culmina no seu envolvimento com Phillip, um delinquente juvenil (que também teve uma infância destruída) e depois no crime hediondo no qual ele é condenado junto com o outro garoto. No caso de Terry, que ignora e crítica seu filho, pelo fato dele ainda ser desempregado, não ter amigos e não fazer nada de útil na vida, comparando-o com o progresso de Erci/Jack, também culminará em uma tragédia bem no clímax do filme. O significado de tudo diz respeito a ideia de que a presença de um pai ou figura paterna é essencial para o desenvolvimento de um garoto, inclusive no que diz respeito à uma adaptação às regras sociais e relações interpessoais.

Se os pais de Eric/Jack tivessem lhe dado atenção, ele talvez não ficasse desinteressado pela escola, não começasse a matar a aula e não se envolveria com Phillip naquele caminho sem volta. Se o filho de Terry tivesse tido mais contato com o pai, talvez soubesse exercer melhor o seu papel masculino na sociedade, ter um desenvolvimento pessoal descente e não tivesse feito o terrível ato que fez ao final do filme. Assim como em "Gran Torino", as mentes masculinas de diferentes gerações precisam de umas às outras para que saibam se guiar num mundo sob suas perspectivas. Eric/Jack só consegue melhorar e progredir com a ajuda de Terry, que evidentemente age como se ele fosse um pai para aquele rapaz "renascido".

Em fim, Boy A é um filme comovente sobre como o contato ou a distância de diferentes tipos de relacionamento podem tanto salvar como destruir a vida de um homem.

1. Intouchables (Intocáveis)

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Philippe, um aristocrata tetraplégico, procura por um assistente para ajudá-lo a lidar com as limitações de sua deficiência recém-adquirida após um acidente de parapente. Surpreendentemente, o escolhido acaba sendo Driss, um imigrante senegalês que, com modos rudes, impacientemente comparece na entrevista para o cargo apenas para que a secretária de Philippe assine os papéis que garantem que ele está procurando por emprego e assim possa receber uma espécie de "seguro desemprego" do governo. Os dois, mesmo vivendo realidades tão diferentes, acabam desenvolvendo uma inesperada amizade.

Arrisco a dizer que, a princípio, o que se aprende em "Intocáveis" é similar com o que é aprendido em "Gran Torino", porém ao invés do mentor e o aprendiz se diferenciarem pela experiência, eles se diferenciam agora pela visão de mundo. Driss pelo seu modo mais tranquilo e inconsequente de encarar a vida, enquanto Philippe por seus modos mais comedidos. E, apesar de ser Driss quem ajuda Philippe a sair da estagnação de sua vida, o segundo também tem um papel importante para mudar a vida do primeiro.

Philippe sente-se mal por ser tratado como "um coitado" por ser paraplégico, mantém um romance a distância com uma correspondente por cartas na qual ele não sabe como é sua aparência e também jamais quis enviar-lhe uma foto, pois tem vergonha que ela saiba de suas condições físicas. Os candidatos que lhe aparecem para o cargo demonstram tratá-lo com se ele possuísse uma fragilidade extrema, que o afasta da igualdade entre seres humanos. Somente quando Driss surge é que, mesmo apesar da falta de modos, Philippe sente-se trato como qualquer outro homem, independente de sua deficiência.

Driss é quem auxilia Philippe ao que chamamos popularmente de "sair da concha", de deixar a zona de conforto. Suas limitações físicas o amarguram e para que Philippe pare de torná-las suas limitações de vida como um todo, Driss recorre a certos métodos para que seu amigo volta a se focar em coisas boas da vida, através de experiências um tanto questionáveis como oferecer-lhe maconha, contratar uma prostitua para fazer-lhe massagem na cabeça ou leva-lo para experimentar uma "voltinha" de carro acima dos limites de velocidade. Apesar de soar irresponsável, é através disso tudo que Philippe toma gosto pela vida novamente e percebe que suas limitações não o impedem de viver como qualquer outro homem.

O que quero dizer com o paragrafo é o poder de confiar nos amigos e deixar que eles nos tirem da solidão de nossas monotonias e nos mostrem os caminhos para aproveitar a vida, mesmo que superficialmente eles não nos pareçam corretos de se seguir. "Intocáveis" nos mostra como uma amizade pode mudar um homem e transformá-lo em um ser humano melhor, nada mais que isso. Um amigo é fundamental para nos dar um soco na cara e, com isso, nos tirar da estagnação.

E assim é encerada a lista. Como bônus, também posso sugerir o seriado Wilfred (a versão americana, não conheço a versão australiana), que também fala sobre diversos valores relacionados à ótica masculina, mas é muito extenso para ser analisado aqui.


Roberto Guerra

Acima de tudo é um delirante (mas sem perder a lucidez), em consequência disso é um escritor e um apreciador de artes em geral..
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