da palavra ao fotograma

Reflexões entre a 6ª e a 7ª arte

Roberto Guerra

Acima de tudo é um delirante (mas sem perder a lucidez), em consequência disso é um escritor e um apreciador de artes em geral.

A Intencionalidade do Humor

O ataque ao Jornal Satírico Charlie Hebdo no início do ano retomou aquela velha pergunta sobre o limite do humor. Qual seria ele? É o mesmo da arte em geral, apenas sua intenção.


Streaking.jpg Qual seria o motivo do humor nessa situação?

Imagine que você esteja na rua com seus amigos e de repente um sujeito completamente nu passe andando perto de vocês. Qual seria a sua reação e dos seus amigos? É provável que seja a do riso, da hilaridade. Mas, por quê? O que há de engraçado na nudez? Acredito que vejamos a nossa própria nudez constantemente, principalmente na hora do banho. O humor vem do contexto: Não é normal uma pessoa andar nua no meio da rua, lugar onde todos deveriam estar vestidos. Se o sujeito estivesse andando nu em um vestiário ou em uma praia de nudismo, não haveria humor.

A realidade é que o sujeito nu em local inapropriado nos perturba, nos soa como um absurdo. "Por que é que ele está andando nu em um lugar onde todos estão vestidos? O que há de errado com ele?" e, para que essa perturbação não nos afete, reagimos rindo. O psiquiatra americano George Erman Valliant classificou o humor como um mecanismo de defesa, uma ação psicológica que visa amenizar situações que colocam o nosso ego em perigo, situações perturbadoras com as quais não sabemos como lidar. O Humor, segundo Valliant, é um mecanismo de defesa comum em adultos emocionalmente saudáveis e que visa amenizar emoções e pensamentos conflitantes.

Nisso, podemos tirar a seguinte conclusão de que todo humor é fruto de um absurdo, de uma situação anômala, que não se encaixa em contextos convencionais. Uma situação que portanto, de algum modo, nos incomoda. O humor chulo incomoda por mostrar comportamentos socialmente inadequados, o humor nonsense incomoda por não seguir a lógica, o humor negro incomoda por brincar com tragédias e por aí vai. É aí que surge o fator potencialmente ofensivo. É impossível ativar o mecanismo de defesa do humor sem provocar uma situação absurda e é improvável provocar tal situação sem correr um risco (mesmo que remoto) de ofender de alguma forma algum grupo de pessoas, em menor ou maior grau. Afinal, se algo nos incomoda é por que, em alguma instância não nos agrada. O sujeito nu pode ser ofensivo para as pessoas mais pudicas.

srbarriga_chaves.jpg Mesmo o humor despretensioso de Chaves pode vir a ser ofensivo

Para mostrar mais claramente que a possibilidade de ofensa é inerente ao humor, usaremos como exemplo o seriado "Chaves" (El Chavo del Ocho). Chaves é sempre definido como um humor puro, inocente, despretensioso. Não faltam imagens motivacionais pelo Facebook, envolvendo todo o elenco da série e a legenda "nunca precisamos mostrar nudez ou falar palavrão para fazer humor". O que poucos imaginam é que as piadas de Chaves também carregam a possibilidade de que alguém saia ofendido, apesar de que dificilmente ouvimos falar de alguém que se ofendeu com o seriado de Roberto Bolaños. (O único caso de meu conhecimento foi em relação à fala fanha de uma das personagens.)

Vejamos quais os principais temas das piadas da série: ignorância, aparência e pobreza. Em relação à pobreza, lembramos do Seu Madruga e suas dívidas, do momento em que ele disse para o Seu Barriga que eles teriam que tomar café nos pires, já que ele não tem xícaras. Ou do próprio Chaves e sua fome constantemente (devido a pobreza), que resulta em piadas como ele comendo todos os churros da barraca do Seu Madruga quando o mesmo o deixou tomando conta ou do Quico negando-lhe comida. Nessas situações pensamos "Como eles podem estar em uma situação tão miserável assim?" e nos vem o humor para amenizar essa perturbação. Mas, essas piadas não podem ser ofensivas para quem passa ou passou por situações de miséria similares?

Em relação à aparência, há várias piadas: Chaves chamando Seu Madruga de "chimpanzé reumático", Seu Madruga confundindo Dona Florinda com uma vassoura, Chiquinha dizendo que Quico tem "bochechas de buldogue velho" ou todo o elenco zombando da velhice de Seu Madruga e Dona Clotilde, dentre vários outros exemplos. Alguém, com determinada característica física de um dos personagens e preocupado demais com a aparência poderia sair ofendido, não? O incomodo que surge é "como podem zombar tão descaradamente da aparência dele?"

Mas, onde se quer chegar com tudo isso? Devemos proibir todo e qualquer humor já que o mesmo carrega o risco de ser ofensivo? Ou devemos aceitar que toda e qualquer escrotidão humorística não pode ser criticada? Não, nenhum dos dois extremos. Acredito que, mesmo o humor carregar a possibilidade inerente de ofensa, exista um limite bem tênue para o mesmo: a intencionalidade.

Falaremos agora de As Aventuras de Huckelberry Finn, de Mark Twain. Não se pode negar que essa romance de Twain é bastante humorístico, mas ao mesmo tempo polêmico, fato que pode ser notado pelas diversas tentativas de censurá-lo. Escrito em uma época onde a escravidão era bastante comum no sul dos Estados Unidos, há diversas passagens cômicas mas, ao mesmo tempo, que denotam o racismo em algumas personagens. Como em um diálogo entre Huckelberry Finn e Sally Phelps:

huckleberry-finn-16x9.jpg The Adventures of Huckelberry Finn: um humor potencialmente ofensivo, mas com a intencionalidade correta

"– Não foi a gente ter encalhado... isso só nos atrasou um pouco. Estourou uma cabeça de cilindro.

– Santo Deus! Alguém ficou ferido?

– Não, madame. Só matou um negro.

– Bem, foi sorte, porque às vezes as pessoas ficam feridas."

(TWAIN, Mark, As Aventuras de Huckelberry Finn, Pág. 149)

Mas, teria Mark Twain feito uma piada dessas para alimentar o preconceito? O contexto do livro aponta o contrário. Huckelberry Finn tem o seu senso comum sempre entrando em conflito e questiona, em diversos momentos, a sociedade escravagista que trata seres humanos como mera mercadoria. O escravo fugido Jim é sempre demonstrado como um ser humano e um grande amigo para Huck e não como mera mercadoria. Portanto, é provável que Twain provocou o incomodo de tal diálogo-piada não por racismo, mas para fazer com que o leitor questione o status quo, "Por que Sally não considerou que o negro que morreu era também uma pessoa? Qual o problema dela?". Chespirito, ao usar a fome do personagem Chaves e a pobreza dos moradores da vila como humor, mas de forma leve e mostrando que, apesar de tudo, elas são pessoas boas e de várias qualidades, também se supõe que teve uma boa intenção: somente expor as situações que os seres humanos, tão humanos quanto os que estão nas classe sociais mais altas, mais pobres vivenciam.

Desse modo, concluí-se que Twain usou uma piada potencialmente ofensiva, mas para sustentar uma sátira social, não por preconceito. Ele ironizou o pensamento de pessoas racistas e não a situação dos negros, o que é bem diferente de fazer uma piada ligada à algum grupo racial com propósitos de descriminação, que aí já seria de péssimo gosto e má intenção. O limite de humor diz respeito apenas ao que o humorista pretende demonstrar.

Em outras palavras, podemos também dizer que o limite do humor é o mesmo que da arte (afinal, humor pode ser arte, não?), a intenção de retratar a natureza humana e o mundo ao seu redor, mesmo em relação à tabus e temas mais pesados. Para melhor ilustrar a intencionalidade da arte em si, não só o humor, falaremos de uma obra não-humorística: "Lolita", o polêmico romance de Vladimir Nabokov, que retrata a obsessão de Humbert Humbert, um professor de literatura pedófilo, por uma garota de doze anos. No romance, Nabokov nos faz entrar na mente do protagonistas e nos obriga a encarar as nuances mais perturbadoras de seu desejo por meninas pré-púberes, além das justificativas para tentar convencer o leitor de que sua tara é perfeitamente normal (o que inclui diversos argumentos com falácias de apelo à antiguidade, o que ao meu ver também tem certo caráter humorístico).

Nabokov não fez esse livro por ser um apologista da pedofilia, mas porque o mesmo sabe que existem homens como Humbert Humbert (inclusive, muitos deles "se revelaram" após o lançamento do livro) e a intenção do mesmo foi expor essa mentalidade para a humanidade, assim como faz uma reportagem ou um artigo científico, tanto que o pensamento do protagonista são extremamente detalhados e denotam esclarecem tal fim. Portanto, acredito que um humorista poderia também fazer uma piada sobre um tema sério como a pedofilia, mas se orientar pelos mesmos propósitos de Nabokov: a intenção de retratar essa realidade. O que, mais uma vez, seria bem diferente de trazer tal tema à tona para polemizar atoa.

lolita1997.jpg Lolita, mesmo não se enquadrando como humor, nos ajuda a entender a intencionalidade para o humor e a arte. (Foto: Versão cinematográfica de 1997)

Há alguns que poderiam lembrar do lema "atacar o opressor, não o oprimido" (considerando a ambígua palavra "atacar" como criticar ou satirizar), mas ele não me soa razoável, já que essa raciocínio abre a possibilidade de várias falhas. A maior dessas falhas seriam as brechas para a generalização e o maniqueísmo. Digamos que você queira fazer humor para satirizar o elitismo, o que é válido, porém digamos que você também siga tal lema. Primeiro, como você concordou em atacar só o grupo opressor (os ricos preconceituosos) e não tocar no grupo oprimido (os pobres), hora ou outra você será forçado ao exagero para os dois lados: o exagero dos defeitos para os ricos e uma pureza de virtudes irreal para os pobres. Inicialmente, pode não parecer tão problemático, até o espectador de seu humor se sentir tentando a acreditar que todos os ricos são elitistas e maus e todos os pobres são bons, semi-deuses. Você estaria longe de retratar a realidade humana.

Outro problema desse lema é o fato de não são em todas as situações há como definir claramente quem é o opressor. Em uma situação de preconceito, esses papéis são claros, mas e em uma situação de pobreza, como em Chaves? Há quem culpe os ricos pela pobreza, mas também há quem discorde, talvez o próprio Roberto Bolaños, já que não fez questão de atacar o Sr. Barriga (o personagem burguês) e retratou virtudes no mesmo. E, ainda sobre a pobreza, há quem culpe o governo, há quem culpe a economia e quem culpe a própria natureza humana, o opressor pode divergir de acordo com determinados pontos de vista e ideologias.

Em fim, qualquer humor que ouse usar seu potencial ofensivo apenas pelo fato do mesmo ofender, é um humor ruim. assim como a arte que incomoda por incomodar. Só nos resta nos afastarmos desse humor de más intenções e boicota-lo em casos mais extremos. Além de, é claro, ter o cuidado de tentar reconhecer os que possuem boas intenções e entender como aquele potencial ofensivo contribui para retratar a realidade.

Como recomendação, sugiro uma obra de humor que é de alto potencial ofensivo, mas ao mesmo tempo com uma intencionalidade correta, que podemos ter como referencial é a série de animação South Park que, apesar de tocar em temas delicados como religião e sexualidade, sempre possui um argumento por trás de sua escatologia e piadas sujas. Vale a pena assistir os episódios de South Park para perceber suas intenções em relação às ideias expostas neste artigo.


Roberto Guerra

Acima de tudo é um delirante (mas sem perder a lucidez), em consequência disso é um escritor e um apreciador de artes em geral..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Roberto Guerra