dadaísta

um blog sobre arte e desordem

Cátia Andressa da Silva

Fala muitos palavrões, os amigos dizem que é indecente, mas também a chamam de feminista, de nerd, dizem que é inteligente e essas coisas todas e tal… Estudou história e ciências sociais e já fez cursos de culinária e maquiagem de circo. Trabalha blogando e com o que chamam por aí de Social Media. Rouba canetas e coleciona afetos.

A morte representada entre letras, imagens e melodias: a morte nossa de cada dia

Em representações que passam pelo meio de toda a história da humanidade, a morte está para os artistas, ironicamente, como seu próprio fôlego de vida. Com pretensões absolutamente pessoais, fui buscar os (não)lugares onde ela dotou-se de beleza e virou arte.


Há cinco anos, perdi meu irmão. Já havia perdido o pai dez anos antes, assim como passei pela perda de avós, tios, conhecidos e amigos próximos. A morte sempre foi uma passagem serena. Mas essa morte foi uma pancada na alma. Um corte daqueles incuráveis.

Nesse transcurso pós-morte, passei pelo Kübler-Ross, pelas sessões de terapia, as substâncias psicoativas, os amigos, as orações e a arte. A ARTE. Na dor representada pelo outro, sob olhos e almas de artistas, encontrei sentimentos, beleza e conforto. E aprendizado. E foi cicatrizando.

Vinte gotas de literatura

Lembro de me debruçar sobre qualquer texto que a resenha falasse no tema, como se ao ler sobre a dor do outro, ainda que fictícia, a minha se tornasse mais tolerável. Nesse momento, a autoajuda se misturava aos clássicos na minha mesa de cabeceira, sem conflitos. Havia ali uma implícita solidariedade.

No canto XVIII da Ilíada, de Homero, Aquiles se arma de braveza ao perder seu companheiro, Pátroclo, que havia morrido em seu lugar, vestido com a sua armadura. A nova armadura de Aquiles vem carregada de coragem e dor. E o fim da narrativa muda com ela. A perda transformadora.

Em A Divina Comédia, a morte é o paradigma de Dante, Beatriz e Virgílio, aquela que leva o homem ao inferno, ao purgatório ou ao paraíso, representados em cada uma das partes do poema. A morte é o delimitador, uma metarrepresentação do imaginário judaico imperante no Velho Testamento.

Camões, Shakespeare, Walter Benjamim, Victor Hugo e Bram Stocker são também representantes de uma literatura, seja ela clássica, catedrática ou popular, que traz a morte à cena, como fator social, ponto de ruptura ou renascimento. Suas obras transitam nas diferentes interpretações filosóficas do fenômeno.

Uma cápsula de música, três vezes ao dia

Já falei em alguns textos sobre a profunda ligação que tenho com as músicas tristes. Ainda que não seja melancólica, os sentimentos provocados por ela sempre alcançaram minha mais fina sensibilidade. Música como refúgio e fuga, ao mesmo tempo.

Você já ouviu o Canto para minha morte, do Raul? O artista se pergunta, numa prosa poético-dramática, como será esse encontro, que espera e rejeita o tempo inteiro. A expectativa da morte provoca o frenesi que dá ritmo à música.

Em Never Without You, Ringo Starr diz a George Harrison que ele nunca será esquecido, que se despedem, mas que sua presença, sua loucura, juventude e sua música permanecerão.

A letra-protesto de Jeremy, do Pearl Jam, representa uma apropriação social da morte precoce, do suicídio de jovens e da falta de esperança. Eddie Vedder falou, inúmeras vezes, como forma de expiação, que a música pretendia tirar dessas mortes a capa de invisibilidade.

Tears in Heaven foi usada por Eric Clapton como seu agente de cura para a morte de um filho. Com essa alma, a música foi alçada ao posto de hino.

Gosto de O último dia, do Paulinho Moska. De forma leve, ele provoca aquela reflexão cotidiana da finitude do mundo e das pessoas.

Doses homeopáticas de cinema

Uma vez escrevi aqui sobre a esquizofrenia representada. Assim como ela, a morte é explorada ao limite na sétima arte, como ponto de partida ou ponto de chegada. Presente.

dragonfly_xlg.jpg

Em Dragonfly, a personagem principal busca sinais da presença de sua falecida esposa enquanto tenta assimilar sua perda e sua culpa. O filme questiona evidências materiais e defende, tenazmente, a presença de sinais, característica uníssona da dor do luto.

dancer-in-the-dark 1.jpg

Dançando no Escuro é meu filme favorito, o mais triste do mundo. Nele, Selma, vivida por Björk, usa a música como recurso de fuga da realidade, até o último instante, até a morte. Suas cenas à espera da morte são impecáveis.

Dizem que é a última canção. Mas eles não nos conhecem. Só será a última canção se deixarmos que seja.

Artes plásticas na veia

Entre telas, em representações com uma força motriz social ou pessoal, a morte se apresenta confortável e natural, ainda que repleta de dor, de ruptura e inconformismo. Dentre todas as artes, entre todas as cores, ela é cenário frequente.

guernica2.jpg Guernica

David-Marat.jpg A Morte de Marat

Ao passar pelos caminhos da morte, fui encontrando de novo algum fôlego, saindo daquele turbilhão desconcertante e cicatrizando. Em representações que passam pelo meio de toda a história da humanidade, a morte está para os artistas, ironicamente, como seu próprio fôlego de vida.

Ainda dói, mas sobre a ferida agora repousa uma vulnerável pele.

Fontes de apoio:

  • Representações da morte na literatura grega
  • Reflexões sobre a morte como tema em Benjamim
  • Como artistas vêem a morte

  • Cátia Andressa da Silva

    Fala muitos palavrões, os amigos dizem que é indecente, mas também a chamam de feminista, de nerd, dizem que é inteligente e essas coisas todas e tal… Estudou história e ciências sociais e já fez cursos de culinária e maquiagem de circo. Trabalha blogando e com o que chamam por aí de Social Media. Rouba canetas e coleciona afetos..
    Saiba como escrever na obvious.
    version 5/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Cátia Andressa da Silva