Carolina Carettin

É jornalista, interessada em cultura. Tira algumas fotos de vez em quando.

Kevin, falaremos sobre você

Para Kevin não havia nenhum propósito e este era seu propósito.


Kevin 3.jpg Atenção: se você ainda não assistiu ao filme, esse post contém spoilers.

A janela aberta com a cortina esvoaçante na primeira cena e o corte para a tela branca nos convida a entrar na vida de Eva (Tilda Swinton) e Kevin Khatchadourian (Ezra Miller), mãe e filho. Baseado no romance de Lionel Shriver, “Precisamos Falar sobre o Kevin” foi lançado em 2011 sob direção de Lynne Ramsay. Narrado sob a perspectiva de Eva, o filme relembra os passos de Kevin até o dia do “incidente” ao mesmo tempo que mostra Eva se afogando em culpa. O longa recebeu o título de melhor filme no Festival de Cinema de Londres de 2011.

A relação entre Kevin e sua mãe nunca foi das melhores. Desde pequeno o garoto apresentava problemas: a demora para começar a falar, seu cinismo precoce, a relação diferente que tinha com o pai, atos como jogar o prato de comida na parede e usar fraldas até idade avançada. Em certo momento, Eva afirma que antes do nascimento de Kevin, era feliz e que agora acorda todos os dias desejando estar na França. Apesar da relação conturbada, percebe-se certa cumplicidade como quando a mãe se irrita com Kevin e o joga no chão, quebrando seu braço, e o garoto a encobre, dizendo que caíra da trocadora.

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Um dos aspectos mais marcantes da fotografia do filme é a presença constante da cor vermelha. Logo depois da tela branca do início, nos deparamos com pessoas se lambuzando em uma Guerra de Tomates. Mais adiante, o vermelho aparece nas latas de sopa, nas cadeiras do escritório, na tinta que jogam na casa e no carro de Eva, nas luzes do carro, na lichia que o garoto descasca e, no final, no sangue que marca a roupa da mãe de Kevin. O vermelho simboliza a carnificina que virá, anunciando a catástrofe que vem surgindo à prestação, a partir de cada lembrança de Eva.

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O mais chocante é ver Eva sendo culpada pela tragédia por todas as outras mães e envolvidos. Somente pelo filme não fica claro se ela tentou livrar Kevin da condenação ou algo do tipo.Pelos atos do filho, sua casa e carro recebem um banho de tinta, e é hostilizada no trabalho e nas ruas. Ao mesmo tempo em que vemos Eva se banhando em vermelho nos tomates, assistimos seu esforço para lavar seu passado de violência. Mas Kevin também tinha pai, muito condizente com seu comportamento agressivo, por sinal; que concordava com tudo e fechava os olhos para o que acontecia.

Mas, além de tratar da relação de mãe e filho, o filme traz um assunto muito atual: os ataques a escolas que, frequentemente, acontecem nos Estados Unidos e que acabam com o assassino morto. Por isso, precisamos, sim, falar sobre Kevin. Às vezes os sinais não são claros, mas há possibilidade de perceber quando há alguma coisa errada com uma criança. Tanto cinismo e sarcasmo precoce e diferentes comportamentos mostravam à Eva que havia algo de errado. E, mesmo não sendo culpada, acaba sendo condenada a viver com a culpa e com os olhares hostis de uma sociedade que condena os progenitores de um assassino.

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E esse comportamento que muda de pessoa para pessoa nos leva à pergunta: por que Kevin poupa a mãe da morte? Depois que sabemos o que o adolescente fez com seus colegas de escola, descobrimos que, ao passar por aquela mesma janela da primeira cena, Kevin também matou seu pai e irmã. Sim, o pai que concordava com tudo e o incentivava a treinar arco e flecha. Seria um caso de complexo de Édipo, onde Kevin precisa de sua mãe? Para mim, isso fica claro no olhar que ele lança a ela no abraço que dão no final, onde ele, na prisão, diz não ter certeza sobre os motivos que o levaram a cometer o crime.

Precisamos falar, debater, discutir, ler e assistir sobre o Kevin.

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LIVRO: PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN O romance que serviu de base para o filme de Ramsay é estruturado na forma de cartas que a mãe de Kevin escreve ao marido. AUTOR: Lionel Shriver EDITORA: Intrínseca (2012, 464 págs., R$ 34,90)


Carolina Carettin

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