Carolina Carettin

Jornalista e bailarina. Já quis ser muita coisa. Aí decidiu deixar acontecer.

"A Espuma dos Dias" - a poesia de Michel Gondry

Novo longa-metragem de Michel Gondry, "A Espuma dos Dias", uma história de amor e tristeza, leva o romance do escritor Boris Vian aos cinemas com uma produção cheia de poesia e surrealismo.


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Michel Gondry está de volta com o longa “A Espuma dos Dias” (L’écume des Jours, 2013,), baseado no romance homônimo do também francês, Boris Vian. O romance conta a história de Colin (Romain Duris) e Chloé (Audrey Tautou) desde o momento em que se conhecem até a hora em que são obrigados a encarar a morte.

Gondry, como em Sonhando Acordado (“La Science dês Rêves”, 2006), abusa do surrealismo, dando vida à história de Vian. Um piano que serve coquetéis, pessoas que envelhecem (literalmente) dez anos em uma semana, uma corrida para realizar um casamento são algumas idéias que Gondry torna real no filme através do stop-motion e da back-projection.

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Além da direção de Gondry, os atores principais também se revelam impecáveis. Audrey Tautou – a eterna Amélie Poulain – e Romain Duris dão vida ao casal com uma sintonia incrível, numa trama que esbanja poesia até o momento em que se deparam com a tristeza. Colin decide sair para se apaixonar, depois de perceber que de seus amigos, somente ele continua sozinho. Nicolas (Omar Sy), seu amigo/criado/cozinheiro, e o ratinho com quem vive observam a paixão que Colin nutre por Chloé. Na lua-de-mel, ela adoece. Uma doença pulmonar a ataca: uma flor de lótus cresce em seu pulmão e consome toda a energia vital dela e de tudo a seu redor.

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O longa é cheio de simbologias, que aparecem no fanatismo de Chick (Gad Emaleh), amigo de Colin, pelo filósofo Jean-Sol Partre (obviamente em referência a Jean-Paul Sartre), no colar de besouro da amiga Alise (Aïssa Maïga); que remete ao símbolo egípcio da morte. Tais referências não aparecem à toa: estão ali para guiar o espectador ao fim trágico da trama.

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A fotografia de Christophe Beaucarne e a trilha sonora acompanham o desenrolar da história. Se antes os dias ensolarados e as cores tomavam conta da tela, com a chegada da doença de Chloé, ervas daninhas nascem em volta da casa e a escuridão torna-se peça chave nas cenas. A transição entre os dois momentos se dá na tomada em que o casal e seu amigo, Nicolas, procuram abrigo em um hotel: a tela se divide em duas: em um lado chove e no outro faz sol. Se for sensível, o espectador perceberá que algo mudará em breve na trama.

Já no momento da morte de Chloé, o filme se torna preto e branco e segue desta forma até o fim, como se a presença da personagem de Tautou levasse vida à trama. Outras mortes acontecem quase que simultaneamente a de Chloé e contribuem para a criação de uma atmosfera mórbida.

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A Espuma dos Dias não agrada a todos e nem pretende. Não será considerado pela crítica como transgressor como foi “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e segue uma outra linha estética. É um filme para ser apreciado por sua singularidade e poesia, que traz a essência do trabalho de Gondry.


Carolina Carettin

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