Carolina Carettin

É jornalista, interessada em cultura. Tira algumas fotos de vez em quando.

Legítima defesa coletiva

Após um ano de protestos no Brasil, 2014 chega como o ano da eleição presidencial, da Copa do Mundo e da onda de violência que coloca a classe média contra a população carente


edital_direitos_humanos_gettyimages.jpgReprodução/Catraca Livre

Este artigo é uma tradução do texto da jornalista brasileira Nicole Froio* publicado no portal do jornal inglês The Guardian no sábado, dia 8, com algumas alterações e complementações. Leia o texto original aqui.

No Brasil, há uma frase muito popular que diz: “Bandido bom é bandido morto”. Essas palavras nunca foram tão relevantes como no panorama brasileiro atual onde o preconceito, a violência e o racismo correm livres.

As últimas semanas foram marcadas por atos violentos no Rio de Janeiro. Mais uma vez, policiais e manifestantes se enfrentaram durante um protesto no centro da cidade. Alguns dias antes, um menor de idade foi espancado, teve suas roupas retiradas e ficou preso a um poste por uma trava de bicicleta por um grupo de “justiceiros”. O adolescente estaria cometendo assaltos na região.

Um vídeo de um homem branco acusando um negro, jovem e mal vestido de cometer assaltos tornou-se viral na rede. Todos os brasileiros, negros e brancos, ricos e pobres estão aterrorizados pela onda de violência. Os confrontos não são mais povo versus autoridades, se tornaram povo versus povo.

Yvonne Bezerra de MelloArquivo pessoal.jpgJovem que foi preso no Rio de Janeiro. Foto: Yvonne Bezerra de Mello/Arquivo Pessoal

Algumas figuras influentes da mídia brasileira têm apoiado que a população faça “justiça com as próprias mãos”. Na semana passada, a âncora do telejornal SBT Brasil, Rachel Sheherazade, disse que essas ações são “compreensíveis” já que o país sofre de “violência endêmica” e que os que lutam pelos direitos humanos deveriam “fazer um favor ao Brasil e adotar um bandido”. As declarações foram feitas em rede nacional e o vídeo pode ser visto aqui.

Porém, o mesmo pensamento da jornalista é compartilhado por muitas pessoas, normalmente, por aqueles pertencentes à classe média. São aqueles que Rachel chama de “cidadãos de bem” que devem contra-atacar e responder à violência presente nas grandes metrópoles na mesma moeda: com mais violência. A jornalista chama de “legítima defesa coletiva”. Rachel fere o Código de Ética dos Jornalistas que não admite o "usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime".

Rachel-Sheherazade.jpgA jornalista do SBT, Rachel Sheherazade. Foto: Reprodução

Entretanto, para muitos, inclusive para a jornalista, as estatísticas justificam a onda de violência: entre 2007 e 2013 mais de 33 mil pessoas foram assassinadas no Rio, 1.070 durante assaltos. Mais assustador, 5.412 morreram em conflitos com a polícia. Dessas quantas seriam moradores do Flamengo, onde o adolescente negro foi atacado, e quantas pertenciam a favelas?

No último domingo, o jornal Folha de S. Paulo divulgou em seu programa semanal TV Folha, que vai ao ar pela TV Cultura, cenas em que policiais militares atiram em presos do complexo penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão. No vídeo, os agressores riem dos detentos que estão desarmados, nus e encurralados, e ameaçam: “Eu vou atirar na sua bunda, nojento”. Nesse mesmo presídio, 63 presos morreram em uma série de rebeliões que aconteceram em 2013.

pedrinhas - reprodução tv folha.jpegReprodução/TV Folha

Em ano de eleição presidencial, o governo volta sua atenção para a Copa do Mundo, agradando a comunidade internacional, o que negligencia o povo mais do que o habitual. O Brasil é o quarto país com mais desigualdade social da América Latina, segundo as Nações Unidas. As ondas de crimes são um resultado direto da raiva da população que explodiu no último mês de junho. A tentativa do governo do Rio de aumentar as tarifas de ônibus foram um lembrete à população de que, desde as primeiras manifestações, a situação só piorou.

Talvez a população percebeu que os protestos não levaram o país a lugar algum, exceto por algumas promessas em curto prazo. O governo está enviando uma clara mensagem: faremos o que desejarmos e nenhum protesto vai nos parar. Essa mensagem se torna perigosa, pois a população agora se sente no direito de roubar, usar a violência e torturar qualquer pessoa que a polícia falhe em punir. E aí sempre inocentes sofrem. Na última quinta-feira, 6, o cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, foi atingido por um rojão durante um protesto no Rio de Janeiro. O profissional faleceu na última segunda-feira, dia 10.

agência globo afp - domingos peixoto.jpgO cinegrafista foi atingido na última quinta-feira e não resistiu. Foto: Agência Globo - AFP/Domingos Peixoto

A guerra agora é alta renda versus baixa renda. Enquanto a população carente é levada para o crime por falta de oportunidades, a classe alta e média se torna cada vez mais assustada e preocupada com sua segurança e vai se fechando em seu mundo de grades e cercas elétricas. A revolta contra o governo está se transformando em raiva da população contra ela mesma e, apesar do sol glorioso no Rio de Janeiro, a atmosfera é de medo e tristeza.

Em última análise, mesmo que o apoio à tortura e à violência seja horrível, os problemas sociais do Brasil são muito mais profundos que “justiceiros” fazendo o que acham ser o correto. Não é a questão de matar um criminoso por ele ser mau: anos de opressão, racismo e governo negligente não serão camuflados por uma simples decisão de não aumentar as tarifas de ônibus.

*Nicole Froio é jornalista freelancer e escreve sobre política brasileira. Graduada pela Universidade de Sheffield em jornalismo, escreve sobre política, feminismo, direitos humanos e cultura pop. Conheça seu blog wordsbynicolefroio.com


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