Carolina Carettin

É jornalista, interessada em cultura. Tira algumas fotos de vez em quando.

Vanguart canta o amor

Uma conversa com Hélio Flanders e Reginaldo Lincoln, do Vanguart.


vanguart2.pngFoto: Carolina Carettin

Hélio e Reginaldo me esperavam no hall do camarim para a entrevista. Os outros integrantes do Vanguart ainda se preparavam pro show que aconteceria em 20 minutos. Logo percebi que o amor cantado em "Muito Mais que o Amor", o terceiro disco da banda, estava no ar e fazia parte do grupo, quase como um sétimo integrante.

O Vanguart foi formado no início dos anos 2000 na cidade de Cuiabá, Mato Grosso, por Hélio Flanders (voz/violão/trompete/gaita), Reginaldo Lincoln (voz/baixo/bandolim), Luiz Lazzarotto (teclado/piano), David Dafré (guitarra) e Douglas Godoy (bateria). Mais tarde, a violinista Fernanda Kostchak se juntaria ao grupo.

Toda a banda é de Cuiabá?

Reginaldo Lincoln: Na verdade, só eu nasci lá. Mas a banda se encontrou em Cuiabá.

Hélio Flanders: Alguns se mudaram pra lá com dez anos, doze anos. Então todo mundo cresceu lá.

Vanguart-8.jpgFoto: Gustavo Pulz

E como foi vir para São Paulo? Vocês tinham um plano ou foi mais no improviso?

RL: Plano nenhum [risos].

HF: A gente já estava tocando em alguns festivais pelo Brasil e veio pra São Paulo para fazer um show. E a repercussão foi incrível. Depois disso, a gente foi ficando em São Paulo meio sem querer.

Em 2006, "Semáforo", o primeiro single de vocês, estourou. Por que vocês acham que a música deu tão certo?

HF: Porque é uma música diferente, né? Não sei se a música é boa, isso é uma questão de opinião. Mas ela é uma música diferente, até um pouco provocativa. E foi numa época que tava faltando alguma coisa assim. A galera tava mais no rock garagem.

RL: Ela tem uma personalidade forte, né? Foi a primeira música que o Hélio fez em português, foi a primeira que a gente gravou em português. Da mesma forma que, na minha opinião, as outras músicas tinham bons arranjos, "Semáforo" também tem. As pessoas às vezes perguntam: "Vocês não cansam de tocar 'Semáforo'?". Na verdade não! Ela é tão diferente, inclusive das outras músicas, tá todo mundo tão entregue que não tem como você se cansar.

HF: Mas eu acho que o nosso primeiro álbum ("Vanguart", 2007) tinha essa característica. Era uma diferente da outra, era tudo muito esquizofrênico. Porque a gente vinha há muito tempo tocando um folk estilo Bob Dylan, Neil Young, e chegou uma hora esquecemos esse precedente e começamos a fazer música. Era muito plural, tanto que tinha três idiomas, tinha mil andamentos, estilos, sabe? Eu lembro de amigos jornalistas que falavam: 'Não, não lança esse disco. Não tem nada a ver com nada.' Mas a gente era tão louco na época, em todos os sentidos, que a gente era aquilo. A gente era esquizofrênico, retardado, louco, sem padrões de composição de ser. A gente sempre foi meio... estranho. [risos] E esse disco é isso, é um disco estranho, mas com muito vigor.

Vanguart-6.jpgFoto: Gustavo Pulz

Vocês acham que misturar influências gringas com um som genuinamente brasileiro é o diferencial do Vanguart?

RL: A gente ouve muita coisa em inglês, muita música de fora. Quando você compõe em português, você acaba se transformando e, no fundo, é a tentativa de ser aqueles caras que a gente gosta.

HF: Eu não quero ser ninguém, não. [risos] Eu queria ser o Morrisey (The Smiths), mas não dá.

RL: Quando você transpõe isso é sem pensar, é inconsciente. A canção acaba tendo uma força brasileira pelo fato de nós sermos brasileiros.

HF: É curioso, porque quando a gente compunha em inglês, a gente era mais uma banda tocando aquele estilo de música. Quando começamos a compor em português, viramos o Vanguart, sabe? O português foi necessário pra gente ter a nossa cara mesmo. A gente era uma banda de blues e folk, com o português nos tornamos uma coisa diferente. E eu acho isso que o Reginaldo falou muito interessante, porque eu escrevo letra de música e poesia em português, hoje. Mas eu quase não leio poetas brasileiros, eu leio em inglês, espanhol. Porque aí não tem como você emular um Manuel Bandeira, você tem que criar alguma coisa. Com a música é igual.

Vanguart-5.jpgFoto: Gustavo Pulz

"Boa Parte de Mim Vai Embora" é mais melancólico, mais pesado. Já "Muito Mais que o Amor" tem uma outra cara. De onde veio essa mudança?

HF: A gente tava melhor na vida mesmo. É bem autobiográfico. O "Boa Parte de Mim" tinha toda uma pressão de segundo álbum, a pressão nossa mesmo de não saber se éramos capazes de fazer um disco bom. A gente ficou anos fazendo o Boa Parte e coincidiu de a gente estar na pior na época, sofrendo por amor e tal. O "Muito Mais que o Amor" já foi o contrário, sem o peso. A gente não queria morrer mais [risos], a gente queria tentar viver, pelo menos. No outro, a gente já tinha desistido. Já nesse último disco, estamos mais apaixonados pelas pessoas, pela vida... aí foi assim. O próximo eu não sei. [risos]

RL: É uma vontade de viver também no sentido de trazer a banda para fazer parte de algo maior. Que a banda continue fazendo shows e discos. É você tocar a música no palco e pensar: 'Essa é uma música boa pra levar ao longo dos anos'. Você não acaba pensando nisso quando tá fazendo o álbum, exatamente. Mas é legal ver qual caminho é bom pra se seguir. E é um "casamentão" de seis pessoas, então se for ficar sempre pesado, fica muito difícil.

HF: É, os shows do "Boa Parte de Mim Vai Embora" eram bem tristes. Tinha uma energia boa, mas a gente cantava dor a noite inteira, sabe? Agora a gente sai mais leve do palco.

RL: Nesse show só ficaram algumas do "Boa Parte". Agora o próximo eu também não sei. As músicas que eu tenho lá estão entre uma coisa e outra.

HF: Ah, eu tô na depressão de novo. [risos]

RL: Só que não. [risos]

Vanguart.jpgFoto: Gustavo Pulz

E DVD novo? Quando sai?

HF: Uma hora sai. Acho que pro ano que vem a gente grava um DVD dessa turnê e aí já começa a fazer disco novo, né? O Reginaldo tá querendo fazer disco novo já, mas eu não quero não. [risos]

Alguns minutos depois, o Vanguart se apresentava no Teatro Estadual de Araras, no interior de São Paulo, fazendo a plateia se levantar das poltronas e ir dançar e cantar bem perto do palco. O show mescla músicas dos três discos e oferece uma experiência cheia de poesia. Uma celebração à boa música e ao amor. Vamos celebrar o Vanguart!

vanguart1.pngFoto: Carolina Carettin


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