Carolina Carettin

Jornalista e bailarina. Já quis ser muita coisa. Aí decidiu deixar acontecer.

O irmão de Chico

Em novembro a Companhia das Letras lançou "O Irmão Alemão", de Chico Buarque. Uma história real que se confunde com a ficção criada pelo autor.


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Resenha publicada no Beco Literário.

O oitavo romance de Chico Buarque – se não contarmos as peças de teatro – chegou às livrarias em novembro de 2014. Em “O Irmão Alemão” (Companhia das Letras, 240 páginas), Chico conta a descoberta de um meio-irmão germânico. Uma história real misturada com ficção, característica que encanta, mas pode confundir o leitor.

Explico o porquê. O autor parte da existência real de um filho alemão de Sérgio Buarque de Holanda, seu pai, fruto de um romance com Anne Ernst na década de 30. O protagonista, Francisco de Hollander ou Ciccio, descobre uma carta de Anne esquecida – ou escondida – dentro de um livro da coleção de seu pai e passa a fantasiar sobre o destino de seu meio-irmão. Muitas vezes, a história real de Buarque e a inventada de Ciccio se confundem. A narrativa em primeira pessoa acompanha o fluxo de pensamento de Ciccio, que mistura cenários do passado, presente e futuro.

Enquanto Francisco tenta achar o paradeiro do irmão alemão e enfrenta o regime militar brasileiro, lida com seu pai, recluso colecionador de livro, e com as amantes de seu irmão brasileiro.

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"Calma, Ciccio, disse minha mãe, quando já crescido lhe perguntei por que meu pai não escrevia um livro, uma vez que gostava tanto deles. Ele vai escrever o melhor libro del mondo, disse arregalando os olhos, ma prima tem que ler todos os outros."

Para Carolina Araújo Pinho, do site Cheiro de Livro, a rapidez com que Chico transita entre uma situação e outra é, ao mesmo tempo, o melhor e o pior do livro. Concordo. O pior porque, muitas vezes, nos envolvemos de tal forma com a narrativa que, quando o corte acontece, a história torna-se confusa. É preciso parar a leitura para distinguir realidade de pensamento. E o melhor por tornar a história fácil de ser lida e cativante. Não se sentem as páginas, elas fluem, assim como a trama.

Porém, a possível confusão que pode acontecer durante a leitura não vence a interessante história apresentada por Chico. Até porque, enquanto presente, pensamos no futuro, fazemos planos e vivemos o que nem sabemos se acontecerá.

“Chico quis inventar-se ao ficcionar a vida. Não é sobre a vida do Chico, trata-se apenas de uma aproximação, a vida inventada que todos nós experimentamos(…).” – Raimundo Neto, para a São Paulo Review.


Carolina Carettin

Jornalista e bailarina. Já quis ser muita coisa. Aí decidiu deixar acontecer..
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