Carolina Carettin

Jornalista e bailarina. Já quis ser muita coisa. Aí decidiu deixar acontecer.

Vou-me embora pra Macondo

"Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias. Houve épocas de chuvisco em que todo mundo pôs a sua roupa de domingo e compôs uma cara de convalescente para festejar a estiagem, mas logo se acostumaram a interpretar as pausas como anúncios de recrudescimento."


1.jpgIlustrações do argentino Carybé

Do autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão é uma história intrigante e fantástica.

O romance conta como o vilarejo de Macondo foi fundado pelos Buendía e por outras famílias. José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán são patriarca e matriarca da família. Eles têm filhos, que terão filhos e a história se desenrola em torno desses personagens, todos ligados por sangue.

Por ser considerado do gênero Realismo Fantástico, há elementos fantásticos, porém sutis, que funcionam como alegorias para o conformismo ou o modo de percepção do tempo daquela população. Todos esses momentos fantásticos são vistos com banalidade pelos personagens, o que faz com que pareçam mais verossímeis. (O site Latino Americano faz comentários interessantes sobre isso, vale a pena ler depois da leitura do romance).

O tempo também é questão importante do romance. Ele é cíclico, mítico, fora do tempo e do espaço dos homens. Úrsula diz em certa parte que:

“Ao dizê-lo, teve consciência de estar dando a mesma resposta que recebera do Coronel Aureliano Buendía na sua cela de sentenciado e mais uma vez estremeceu com a comprovação de que o tempo não passava, como ela acabava de admitir, mas girava em círculo.”

É o mito do eterno retorno, o labirinto de Minotauro. Uma geração sai de um determinado lugar e a próxima geração chegará a esse mesmo ponto.

Algo que contribui para que o leitor perceba essas voltas do tempo são os nomes dos personagens. Algumas árvores genealógicas dos Buendía podem ser encontradas na Internet. Eu fiz a minha, mas você deve deixar-se perder entre os personagens, consultando-a em poucos momentos. Sinto que enganei um pouco o autor. Desculpe-me, Gabo.

amorcarybé.jpg Ilustração "Amor", de Carybé

Cheio de acontecimentos inusitados ou nem tanto, Cem Anos de Solidão também pode ser interpretado como uma metáfora do isolamento da América Latina. Pode-se perceber semelhanças com o período de colonização da América Latina ou até períodos mais recentes da História, como as ditaduras militares do Brasil e Chile, por exemplo.

A cidade de Macondo foi inspirada em Arataca, local onde nasceu García Márquez. Seus personagens foram baseados em pessoas que lá viveram. Em certo ponto do livro, uma companhia estrangeira, a Companhia Bananeira, chega a Macondo. A empresa é protagonista de uma das passagens mais fortes do livro, também baseada em um fato real. Se você quer saber mais, leia aqui.

Outro ponto que chama a atenção é a impotência dos homens e a força que García Márquez dá a suas personagens femininas. Úrsula é quem resolve os problemas, enquanto o marido se encanta com as invenções que os ciganos trazem à cidade, por exemplo.

“(…) nenhum dos seus descendentes herdara a sua fortaleza.”

Em artigo da Revista Bula, lê-se que “Macondo muito se assemelha com sua cidade natal, Aracataca. Os Buendía têm muito a ver com os Márquez.” E “(…) é verdade que coisas muito parecidas com essas foram contadas por seus avós. E elas rechearam a imaginação de García Márquez e se fizeram presentes no retrato da genealogia da família Buendía(…).”

Gabriel García Márquez conseguiu transformar uma história de seu microcosmo, tornando-a universal. Um livro sobre solidão de um, de uma família, de muitos, de um continente e de um mundo inteiro.

Resenha publicada originalmente no Beco Literário.


Carolina Carettin

Jornalista e bailarina. Já quis ser muita coisa. Aí decidiu deixar acontecer..
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