Carolina Carettin

Jornalista e bailarina. Já quis ser muita coisa. Aí decidiu deixar acontecer.

Spotlight e o jornalismo investigativo

Ainda há espaço para o jornalismo investigativo? Veículos como a Ponte Jornalismo e a Agência Pública mostram que sim.


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O jornalismo está em crise. Essa foi a primeira frase que ouvi dos professores da faculdade quando comecei o curso. O modelo tradicional da imprensa vem bambeando - principalmente se pensarmos no jornalismo impresso*.

Nesse contexto, reportagens investigativas - como a retratada em Spotlight - Segredos Revelados - são raras. Faltam espaço, quase sempre tomado por enormes propagandas, e tempo. As redações prezam pelo "ao vivo", pelo imediatismo mais do que tudo em tempos em que qualquer pessoa pode fazer um registro e jogar nas redes sociais. Assim, muitos erros também acontecem: matérias compartilhadas sem apuração, boatos etc, etc.

Em Spotlight - indicado na categoria de melhor filme no Oscar -, conhecemos a reportagem publicada pelo Boston Globe no início dos anos 2000 sobre cerca de 70 padres (inicialmente) acusados de pedofilia e que foram acobertados pela Igreja Católica e por seus advogados. A reportagem recebeu o Prêmio Pulitzer na época em que foi publicada. “O grande poder da imprensa, algo que eu, como um 'civil', não seria capaz de fazer, é questionar as pessoas sobre como elas foram abusadas, como aconteceu... Se é importante, tem que ser dito", afirma o diretor do longa Thomas McCarthy, em entrevista.

3801-816x460.jpgO filme ganhou o SAG Awards de melhor elenco no último dia 30.

Porém, se na mídia chamada tradicional fica difícil encontrar reportagens mais aprofundadas, as mídias alternativas mostram que o leitor está interessado nesse tipo de material e, inclusive, o financia. A Agência Pública, por exemplo, aposta no jornalismo sem fins lucrativos o que, segundo o portal, mantém a independência editorial do projeto. "Nossa missão é produzir reportagens de fôlego pautadas pelo interesse público, sobre as grandes questões do país do ponto de vista da população – visando ao fortalecimento do direito à informação, à qualificação do debate democrático e à promoção dos direitos humanos. Funcionamos como uma agência: todas as nossas reportagens são livremente reproduzidas por uma rede de mais de 60 veículos, sob a licença creative commons", segundo o site. A Pública, além de aprofundamento, oferece reportagens em novos formatos. Um exemplo é a reportagem Meninas em Jogo, publicada em HQ, que trata da rede de exploração sexual de meninas montada no Ceará para a Copa do Mundo.

A Ponte Jornalismo, fundada com apoio institucional da Agência Pública, tem como três principais segmentos segurança pública, justiça e direitos humanos. Os jornalistas que colaboram com o projeto formam um coletivo, também livre de interesses econômicos e políticos que acabariam por prendê-los a determinada abordagem. Duas reportagens recentes produzidas pela Ponte chamam a atenção: "Após três anos, chacina do Jardim Rosana vira símbolo da impunidade da PM de SP" e "As veias abertas da Faculdade de Medicina da USP".

vitor-flyn-usp-laranja-mecanica.jpgIlustração: Vitor Flynn/Revista Adusp

Na primeira, o repórter André Caramante revive a história de um atentado ocorrido em 2013 no Jardim Rosana, em SP, e como nove dos dez policiais militares acusados acabaram escapando da condenação. Já na segunda reportagem, Luiza Sansão aprofunda o debate sobre casos de estupro, violência sexual e psicológica ocorridos com alunos do curso de medicina da Universidade de São Paulo (USP). Dois grupos de veteranos, o Show Medicina e a Atlética, são acusados de praticarem trotes violentos e humilhantes, além de perpetuarem discursos machistas, homofóbicos e racistas.

Essas iniciativas (e várias outras não citadas, como o Jornalistas Livres) não buscam somente o aprofundamento e a produção de reportagens de cunho investigativo, mas também uma nova forma de financiar o fazer jornalístico. Assim, o jornalismo se transforma e se adapta aos novos anseios e demandas do público que pede por caminhos, rostos e vozes diferentes.

* Vale a leitura de "A crise do jornalismo investigativo nos EUA".


Carolina Carettin

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