de água e vinho

só que o vinho embriaga, bem.

Fran Lipinski

não se deve procurar a moral em tudo.
não se deve

INQUIETOS (2011)

Gus Van Sant pode não ter concebido um clássico, mas Restless alcança patamares altos, dividindo opiniões e aflorando sensações diversas, como deveria toda obra.


Restless (2011)

restless - trajetória enoch.jpg

Ainda que Annabel roube a cena (Mia Wasikovska é das atrizes com o quê a mais, um tanto incapazes de inocuidade), é a história de Enoch (Henry Hopper, mais galante que o requisitado) que nos é contada. O garoto adquire o estranho hábito de frequentar velórios de desconhecidos depois da morte dos pais num acidente de carro; trata-se de um reflexo da sua carência – ele não saiu ileso e, em coma, não pôde dizer um adeus apropriado à família - e vazio, preenchido por Hiroshi (Ryo Kase), um amigo não tão imaginário assim. É num desses velórios que Enoch conhece Annabel, que com charme e graça inconvenientes vence a relutância do jovem marginalizado de ar sofredor anti-social e entra em sua vida. O único problema é que ela é paciente de câncer em fase terminal e, assim, o romance vem com um fim iminente e ganha o seu título: “Inquietos”. Diria que inquietude é o que mais se aproxima do que sinto em relação à morte e talvez seja por isso que esse filme tenha ganhado a minha atenção.

Como se comportar face ao fim? A um fim, a qualquer fim, à despedida. Eis a grande pergunta que Van Sant, com humildade - e sabedoria - não responde. Quanto mais imprevisto, mais indesejado, mais injusto, mais cedo se parece, menos estamos prontos. E impotência, insegurança, perda, põe-nos inquietos. Podemos ser clichês quando inquietos e nos entregar ao amor, a uma alteridade: mora aí a sutileza do filme, sua sensibilidade e bem vinda despretensão. Annabel e Enoch não vivem um grande amor e não fazem dos três meses que lhes restam os “melhores de suas vidas”, tiram da vida o melhor como se pode: vivendo-a, trocando-a entre si. Ambos despreparados. A inexperiência da juventude, aliás, completa o quadro, justificando o casting, independente de o diretor ter suas preferências por certa faixa etária ou não, e também pondo de forma natural na tela o desconforto inicial de Henry e Mia, enquanto atores, que interpretam dois apaixonados, sim, mas que são sobretudo desconhecidos um para o outro. Descobrir o outro é mais interessante que se autocompadecer, razão pela qual a cena em que Annabel dá a Enoch uma lanterna que lhe mostrará o que ele mais quer é tão linda e tanto significa.

restless - com gus van sant.jpg

Não é uma obra que imerge o espectador com tanta facilidade e a estética “indie” que Van Sant vem desenvolvendo (vide Elephant, Last Days e outros) - imbutida no corte de cabelo dos atores, na trilha, no figurino... - com uma proposta um tanto frágil de retrato da juventude pós 11 de setembro, está sob o risco de já a priori não agradar; porém, bem ou mal, estamos falando de um grande cineasta, que enquadra o clichê (campos de trigo e tudo o mais) sob ângulos únicos e em recortes singulares. Van Sant põe em relevo a beleza e as entrelinhas de imagens com as quais poderíamos estar já acostumados. Restless é autoral, montado por um alguém “cheio de dedos” que não tinha a intenção de passar mensagens, o que o diferencia de um Sweet November, por exemplo.

restless - campos de trigo.jpg

É delicado.

O POSTER

Um agrado à parte. Leve - o quase beijo - como o romance entre os dois jovens de uma cidade n’importe quelle, capta a essência da obra, com o cachecol dela evidenciando duas coisas. A primeira: ela é quem dá cor (o vermelho contrasta com o azul do fundo) à vida de Enoch; a segunda: a direção do vento, que sopra no sentido de afastá-la dele (o romance nasce com um prazo final estabelecido).

restless - poster.jpg


Fran Lipinski

não se deve procurar a moral em tudo. não se deve.
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