de água e vinho

só que o vinho embriaga, bem.

Fran Lipinski

não se deve procurar a moral em tudo.
não se deve

Felicidade (1998)

Felicidade, sexo e auto-imagem. O existencial grotesco de Todd Solondz tem seu espaço no melhor do cinema dos anos 90.


Happiness (1998)

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Ganhador do Prêmio Internacional da Crítica em Cannes, Happiness é um filme quase, e propositadamente, intragável.

A família Jordan ocupa o centro do microcosmo explosivo onde se inserem os conturbados personagens de Solondz. Joy (Jane Adams) é a irmã sonhadora - música, sensível, ingênua - e fracassada na carreira e no amor, incapaz de se impor; Helen (Lara Flynn Boyle), a irmã frustrada com o sucesso que atingiu escrevendo poemas em que não acredita - arrogante e sexualmente ativa pela mesma razão -; Trish (Cynthia Stevenson), a irmã que vive em sua cabeça a mãe/esposa no sonho americano e cuja “frigidez” não é de fato dela. Mal suspeita Trish que, casada com Bill Maplewood (Dylan Baker), acontece ser a mulher de um psicólogo pedófilo e estuprador, o qual, todavia, sabe lidar muito bem com a descoberta da sexualidade do filho, Billy (Rufus Read), ainda que seguramente o traumatize ao fim. Em “paralelo” corre o drama de um dos pacientes de Bill, Allen (Philip Seymour Hoffman), provavelmente o admirador secreto mais repulsivo do cinema, funcionário de escritório que liga para mulheres desconhecidas para ter uma sex talk unilateral e vizinho da bela Helen. E também de Kristina (Camryn Manheim), que, tão gorda e patética quanto, é apaixonada por ele e protagoniza a história mais surpreendente, envolvendo o porteiro. O núcleo dispensável cabe aos pais das irmãs, Mona (Louise Lasser) e Lenny (Bem Gazzara), em processo de separação por causa dele, que, com a ajuda de Diane Freed (Elisabeth Ashley) confirma ter se tornado, além de incapaz de paixão, incapaz de tesão. Jon Lovitz faz uma ponta interessante fazendo o que ele faz melhor (tendo uma baixa auto-estima sombria, vide Friends s09e14), assim como Jared Harris, que vive Vlad, o malandro russo que encanta Joy (atenção para a ironia do nome) para logo desencantá-la e escancara o desamor de Solondz pelos americanos (Vlad, russo e aproveitador, mas porque pode: os americanos são idiotas). Ufa.

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Definitivamente, não é a qualidade técnica que faz desse um bom filme. A direção de arte e a edição cometem erros primários (note a cabeça flutuante de Laura Flynn Boyle logo abaixo) e tem-se a impressão de que a montagem poderia ter sido simplesmente outra, a favor de um roteiro que talvez não fosse a favor de si mesmo. ENTRETANTO, e aqui o caps lock é pertinente, num filme onde apenas o humor é sutil - também ácido e negro -, tudo isso contribui para a sensação pungente de incômodo, asco e indignação que perpassa o longa, construindo a crítica do diretor à sociedade hipócrita em que vive como um todo homogêneo, cru na palavra, no som e na imagem (por vontade ou pelo baixo orçamento, não importa, pontinhos para o Todd). Uma das melhores cenas, ao mesmo tempo cômica - um dos poucos respiros do espectador - e feroz, com uma atualidade a princípio óbvia para nós que v(iv)emos a era do homicídio em massa nos EUA, mas que torna a crítica à classe média estadunidense universal é o sonho de Bill, em que ele mata as famílias felizes ao passear pelo parque e do qual ele acorda feliz. A pergunta ao fim: “Quem não?”.

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É evidente o juízo de valor (extremamente depreciativo) que Solondz faz de seus personagens. Lanço mão de Bill mais uma vez, porque mostra não só isso como a virtuosidade do diretor servindo a esse propósito: na cena em que admira com segundas intenções um dos coleguinhas de seu filho - Johnny Grasso (Evan Silverbeg), que também faz parte de uma pequena discussão sobre homofobia que o diretor levanta -, Bill é enquadrado “atrás das grades”.

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Aqui, um adendo interessante: Billy, filho de Bill. Johnny, filho de Joe. Solondz, com isso, talvez aponte sua (des)crença no que é o ser humano, na reprodutibilidade dos vícios, preconceitos, perversões, hipocrisias próprios de uma natureza que é, também, vil.

A universalidade que a obra indubitavelmente tem deriva menos do fato de lidar com a questão da eterna busca da felicidade do que relacioná-la à imagem do indivíduo (para si e para, e pelo, outro), à sexualidade e, finalmente, ao sexo. Olhando com não tanta atenção assim, vemos que a felicidade para todos os personagens está intimamente ligada à realização sexual. Joy, artista/ativista, demonstra isso claramente na manhã seguinte ao one-night stand com Vlad e mesmo Billy, a criança da história, frustra-se com o fato de não conseguir, ao contrário do coleguinha exibido, gozar quando se masturba, tendo sua virilidade ameaçada. Contudo (viva a diversidade das conjunções adversativas), considero essa visão restrita demais, ponderando que tudo se passa sob um título tão genérico e, por isso mesmo, pretensioso. Será que a felicidade se “resume” a isso? Ou melhor, resume-se a algo?

Por último, e reconhecendo a eficácia e ciente de que era a intenção, questiono-me se o retrato caricato, quase absurdo, que Todd Solondz faz da realidade, com situações e diálogos grotescos, recebidos como socos no estômago, não impedem uma identificação real com o seu cinema. Parece-me uma abordagem por demasiado hostil/brutal para o espectador, um exagero gratuito que não o afasta do que vê para trabalhar seu senso crítico mais do que simplesmente o afasta por desconforto, numa espécie de superficialidade às avessas. Desse modo, o diálogo à mesa da família Jordan, quando Helen comenta do crime cometido por Kristina (o qual me recuso a contar, a história dela é realmente brilhante e eu a estragaria), faz para mim todo o sentido e tem ares de autocrítica, não necessariamente negativa, do diretor:

Helen Jordan: Então, a polícia entrou e olhou no freezer dela e encontrou saquinhos plásticos com as genitais do porteiro. Mona: Eu uso saquinhos plásticos. Joy Jordan: Eu também. Helen Jordan: Todo mundo usa saquinhos plásticos, é por isso que todos nós podemos nos relacionar com esse crime.

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Enfim, é fácil entender a repercussão da obra, que conta com atuações impecáveis e muitos momentos memoráveis, como o encontro entre Helen e Allen, os diálogos entre Bill e Billy, a ida de Joy à casa de Vlad, a sobremesa de Kristina na lanchonete, entre outros. Vale a pena ver e rever.

O POSTER

Há dois aspectos do cartaz que não podem deixar de ser considerados. Primeiramente, a escolha de se representar os personagens por meio de uma ilustração, o que acaba por destacar o caráter caricatural do filme. Em segundo lugar, a dispersão destes no espaço, a qual mostra que não dividem igualmente o tempo de tela e, sobretudo, que, apesar de suas vidas estarem conectadas, são desconhecidos uns para os outros: o recorte de uma multidão (no caso, a classe média americana) em que cada um olha para uma direção retrata isso perfeitamente. Apenas Trish, incapaz de encontrar defeitos na própria vida, olha para um outro, porém é um olhar de pena e superioridade cujo alvo é a irmã que toma por fracassada.

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Fran Lipinski

não se deve procurar a moral em tudo. não se deve.
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