Leandro Côrte

Nunca no mesmo lugar. Acordo de um jeito para dormir de outro e sigo os meus dias não sabendo quem eu sou. Não sou matéria bruta, mas sou material em construção

Esqueça as estruturas

A existência humana se faz em um processo de construção: organizamos sociedades inteiras ao redor de mitos, teorias e especializações. Temos um próprio sistema de funcionamento, com leis gravitacionais mantidas de maneira autônoma da natureza. Aprendemos, erramos, construímos ou destruímos relações baseados em princípios e valores. Somos construtores que precisam de uma mudança.


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Quando somos crianças, muitos de nós se habituam a construir, independente do material e das ferramentas utilizadas, desde cartas até brinquedos complexos que precisam de manuais extensos para a montagem. Entretanto, sempre sofremos com uma das variáveis do próprio construir: a destruição. Basta alguém tirar uma peça, remover uma carta ou desorganizar um cosmos aparentemente ordenado para que a estrutura retorne para a sua fase primitiva, sejam peças ou cartas.

Com isso, ficamos acostumados com os maniqueísmos, até pela facilidade de absorção desse modelo no processo educacional, o que é discutível. Seguindo essa linha de pensamento, é muito mais fácil achar um culpado. Afinal, se nós construímos uma estrutura, quem destruiu? Se nós somos os benfeitores, quem são os malvados? Precisamos de um culpado. O tempo passa e nós crescemos, aprendendo a construir castelos ainda maiores e muito mais sólidos. As nossas opiniões, as nossas verdades e os nossos preconceitos. Fechamos as portas, construímos fossos e ficamos muito mais intolerantes.

Esse talvez seja o maior paradoxo. Acabamos construindo estruturas que somos incapazes de compreender, não por causa da nossa capacidade intelectual, mas pela nossa capacidade de visão. Essas estruturas incompreensíveis se instalam além do individual e muito além da linha do horizonte, pela nossa incapacidade de ser onipotente e onipresente. Enquanto isso, insistimos que tudo é óbvio e está bem na frente dos nossos olhos. O raciocínio é simples: se X tem olhos que viram a rotina de uma zona de guerra e Y tem olhos que viram as transações do mercado financeiro, X e Y não podem pensar do mesmo jeito, até mesmo, pelas suas diferentes experiências de vida.

Partindo desse princípio, o universal é impossível, porque o todo é feito de partes e, assim como as partes não existem sem o todo, o todo não existe sem as partes, como uma vez nos mostrou o poeta Gregório de Matos. As partes podem formar diferentes todos, o que pode representar uma nova perspectiva da realidade. Entretanto, mantemos visões clássicas e acreditamos que só exista um todo, sem partes que possam fazer algo diferente, ou sair do padrão.

Enquanto não nos permitimos ressignificar as nossas estruturas, construindo e destruindo continuamente, não conseguiremos enxergar. Olhe fixamente para a parede mais sólida da sua casa, você consegue olhar através? Por que achamos que seria diferente com as nossas ideias? É inevitável ser criança, assim como é necessário crescer. Apesar de ser necessário, muitos de nós escolhemos permanecer na infância. Tudo é muito mais fácil, os blocos são muito mais táteis. Escolhemos pouco, porque tem quem escolha por nós.

Será essa uma crise de identidade que vivemos, achando que tudo está se dissolvendo, ou será um ponto de mudança, como vários que a humanidade já passou? A questão é que não temos como continuar olhando pra isso com ingenuidade e ignorando a complexidade. O desconforto faz parte do nosso crescimento. A ordem, inevitavelmente, se transforma em caos. O medo e a insegurança fazem parte do processo, mas não podemos deixar que eles se transformem no nosso cimento.

Precisamos de mais pontes e menos paredes, mais convivência e menos regras, mais discussão e menos auto-ajuda. Ressignificar. Talvez, essa palavra possa dizer muito mais do que ela aparenta. Crescer. Talvez, precisaremos fazer isso pra poder ver. A única certeza que temos é que vamos morrer e, mesmo essa suposta certeza, é passível de discussão. Esqueça as estruturas.


Leandro Côrte

Nunca no mesmo lugar. Acordo de um jeito para dormir de outro e sigo os meus dias não sabendo quem eu sou. Não sou matéria bruta, mas sou material em construção.
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