de repente dá certo

Este é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês.

Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo.

Eu não preciso ter opinião sobre tudo

Eu sou uma das maiores defensoras da Era Digital e acho realmente incrível o fato de estarmos um clique de distancia de qualquer informação. Mas de onde veio essa ideia de que a gente precisa estar inteirado sobre tudo o tempo todo? Eu tenho medo de não ter uma opinião sobre determinado assunto. E isso é doentio.


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Nesses últimos dias eu me deparei com uma situação muito louca: o fato de eu ter medo de dizer que não tenho opinião sobre determinado assunto. Sempre que eu falo isso, começam a vociferar um bando de frases prontas do tipo “você tem que prestar atenção nisso”, “você tem que se informar mais”, “nossa, mas como você consegue passar os dias sem se questionar sobre isso?”.

Como se todas as pessoas do mundo precisassem saber o que está acontecendo o tempo inteiro e mais, ter uma opinião sobre tudo isso. Eu sou uma das maiores defensoras da Era Digital, quem me lê sabe disso, e eu acho realmente incrível o fato da gente poder estar a um clique de distancia de qualquer informação.

Beleza, mas de onde veio essa ideia de que a gente precisa estar inteirado sobre tudo o tempo todo? E pior, levantando um bandeira por tudo.

Eu já mudei tanto de opinião sobre tantos assuntos que cheguei a duvidar de mim. Será que eu sou tão vulnerável assim? Como se estar aberta para entender os outros lados fosse sinal de fraqueza.

Quanto mais eu vejo as pessoas cheias de certezas, mais eu chego à conclusão de que ninguém sabe de nada, porque não existe certo e errado. No fundo, tudo é uma construção nossa, tudo é uma opinião, um ponto de vista.

São tantas camadas de informações que, até chegarem na gente, já estão todas distorcidas. Quem nunca leu uma história no jornal, mas conheceu um amigo de um amigo que estava lá e disse que foi completamente diferente? Talvez tudo seja realmente relativo e a gente está brigando e julgando o outro simplesmente por estar enxergando as formas de outro angulo.

A única certeza que eu tenho, apesar de tentar desconstruir todas as certezas que eu criei, é que a gente não deve ultrapassar o limite de liberdade do outro. Então, se eu cumprir com esse papel que eu acho justo, ninguém pode me julgar por eu não ter uma opinião ou por não levantar a bandeira de algo que eu não tenho certeza.

Às vezes eu me sinto incompreendida nesse mundo flaXflu entre esquerda e direita. Me criticam por eu ter ideias sociais de esquerda, feminista, puta, socialista. Me criticam por eu defender algumas ideias de direita, capitalista, fria, não pensa nos outros. Você tem que tomar uma posição para votar nas pessoas que vão governar o seu país, você é responsável por essa merda toda que você reclama.

Eu sei, eu sei que é importante. Mas até que ponto esse discurso não é mais da certeza mesquinha de alguém? Até que ponto isso é mais importante do que construir algo que eu realmente acredite, que faça realmente diferença na vida das pessoas, mesmo que em uma escala menor?

Por isso eu parei de ouvir o que eu tenho que fazer, sobre o que que eu tenho que saber, sobre onde eu preciso me informar. A gente lida com tanta informação que acaba virando um bando de informação superficial. Tem gente que consegue, tem tempo e adora se envolver com mil assuntos. Tudo bem. Eu só não acho justo que eu tenha que fazer isso também. Esse negócio de multitarefa não é pra mim. Eu adoro fazer nada, gente. E às vezes eu me julgo por gostar de fazer isso. Olha só que doentio.

E fora o trabalho de 8 horas por dia e minhas 8 horas de sono, sobram 8 horas para eu aprender alguma coisa nova, estudar sobre meu trabalho, ler um livro, conversar com meus amigos que moram longe, me divertir, cuidar do blog, ir pra academia, fazer nada…

Uma decisão sábia é filtrar quais informações você quer que cheguem até você e escolher qual delas você vai se aprofundar, sem tentar participar de tudo de forma superficial, sem ter certeza. E claro, sem julgar o outro por ele não querer se aprofundar nas mesmas coisas que você, só porque você tem certeza que é importante.

Eu tenho feito isso há um tempo e minha ansiedade tem me dado uma trégua. Aceitar não ter uma opinião e não sentir necessidade de estar a par de tudo te dá mais tempo de se aprofundar e pensar em coisas que você realmente quer. É mais produtivo e menos estressante viver assim, pode apostar.


Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo. .
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