de repente dá certo

Este é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês.

Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo.

Mudar de cidade é um tiro no escuro

Uma história real sobre como eu me mudei para o Rio de Janeiro.


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Há 4 anos, cheguei na esperança de me encontrar ou encontrar um novo caminho pra minha vida sem rumo. Como se a vida de alguém tivesse algum rumo aos 20 anos. Ainda bem que não, senão tudo seria muito chato. Cheguei com mochila e mala gigante, onde eu trouxe tudo que não soube desapegar. O resto, deixei em Brasília. Coloquei meus livros preferidos na mala, na parte de baixo. Sabia que eles me fariam companhia quando tudo parecesse distante. E fizeram, porque eu tenho mania de assistir filmes e ler livros repetidos. Eu crio um vínculo com os personagens. Os livros pesaram mais do que as roupas e eu tive que pagar excesso. Mas mãe, to de mudança pra outra cidade, quebra um galho, vai?

Juntei dinheiro pra viver por 6 meses sem passar sufoco, mas agrana durou só 3. Entrei em desespero. Pela primeira vez quis desistir de tudo e voltar pra casa da minha mãe com o rabinho entre as pernas, mas pelo menos não ia sentir esse vazio enorme que me assombrou durante os primeiros dias na cidade nova. Acontece que a cidade nova era o Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, a cidade onde eu já tinha passado um mês fazendo curso de teatro e jurei que minha felicidade dependia da minha coragem de morar aqui. Em um mês vivi histórias que não vivi em um ano e desejei pra sempre levar essa vida mansa de teatro, amigos novos, paixonites agudas, amigos coloridos, praia, sol, calor e cerveja. Eu não precisava de mais nada.

Acontece que, quando eu cheguei aqui pra ficar de vez, era um dia cinzento e frio e parecia um lugar totalmente diferente daquele que eu fazia questão de ir durante todas as férias ou qualquer oportunidade de feriadinho. Eu conhecia gente aqui, então sempre tinha onde ficar. Cheguei sem ter onde morar, sem saber de nada. Fui direto pra casa da Duda, que me garantiu que eu podia ficar lá até eu encontrar um apartamento. Liguei pra minha mãe pra avisar que cheguei bem e quis chorar. Queria voltar no primeiro dia. Ou queria encontrar uma casa logo pra eu poder chorar sozinha vendo filme, abrir uma garrafa de vinho, tirar as roupas da mala e me instalar.

Era incrível a ideia de ter uma casa onde eu pudesse chamar quem eu quisesse, a hora que eu quisesse. Por isso, tive frio na barriga quando me sugeriram ir morar num pensionato, que era mais barato, mas só tinha meninas e meia-noite o portão fechava. Do que adianta sair de casa pra encontrar liberdade e ficar mais presa do que antes? Preferia dividir meu quarto com 5 pessoas do que viver num cubículo com regras e biscoito de água e sal pela manhã. Mas eu não tinha condição de escolher. Ou eu corria atrás de algum lugar e encontrava, com muita sorte, gente bacana pra morar ou eu ia pro pensionato. Tive sorte, muita sorte. Coisa que eu só fui perceber muito tempo depois.

Uma semana antes de me mudar, fui pra um bar em Brasília e acabei encontrando um monte de gente conhecida. Aquele clima de despedida já se instaurava em tudo. Falei que ainda não tinha lugar pra morar, que eu estava procurando um quarto pra morar e eis que aparece a Ludmila, uma menina da minha altura, cabelo preto e sorriso sincero. Ela, coincidentemente também estava se mudando pro Rio e tinha um monte de amigo em comum comigo. Falamos “vamos morar juntas!”, como se aquela noite tivesse salvado nossas vidas pra sempre. E salvou.

Assim que eu cheguei no Rio, ela me ligou e já fomos procurar apartamento. Ela me avisou que tinha outra menina vindo de Brasília que queria dividir apartamento, a Bela. Topei, claro. As contas seriam divididas por três e isso significava gastar menos dinheiro. Passamos o dia olhando apartamentos caros e cheios de defeitos, até que nos aparece uma oportunidade.

Uma conhecida da Bela estava alugando um apartamento todo mobiliado, no Leme, e faria um preço mais camarada pra nós. O valor do aluguel era cravado o que eu podia gastar com algum aluguel por mês, mas era mais caro do que eu esperava. Eu tinha que arranjar um emprego logo. Mas isso era fácil, eu já tinha trabalho em três lugares em Brasília, tava terminando a faculdade e sou s-u-p-e-r comunicativa. Não tinha como ficar sem emprego. Falei que topava pagar o preço pra me garantir. Muito mais por medo de ficar sem ter onde morar do que pela certeza. Vambora. Ninguém podia escolher por mim dessa vez.

A escolha dos quartos foi fácil. Cada uma tinha o seu preferido. Peguei o que entrava mais luz, com a vista que acalmava minha ansiedade e minha vontade de viver aquilo tudo até a último dia. Eu morava ali agora. E eu poderia acordar todos os dias com aquela vista, o que facilitava bastante meu estado emocional completamente abalado e perdido.

No primeiro dia da casa nova, parecia que eu tava num hotel. Não tirei nada da mala, tomei um banho e me vesti pra sair com a Duda. Era incrível, mas era estranho. Nada era meu ali. O chuveiro do banheiro tinha cortina e eu sempre odiei tomar banho em chuveiro com cortina, porque molhava tudo. Aquela decoração de casa de veraneio era linda, mas não tinha nada a ver comigo.

Na primeira semana, resolvi deixar meu quarto com a minha cara. Coloquei meus livros, minhas fotos e meus colares e pronto. No meu quarto eu me sentia em casa. Eu me sentia segura. Mas eu ainda morava com duas pessoas desconhecidas. Tinha que seguir toda aquela burocracia social de não parecer muito louca ou muito bagunceira, mas foi fácil me adaptar a elas. Tirando a parte de que eu sou muito bagunceira e elas não. Mas isso só foi dar problema alguns meses depois, quando a gente já tinha intimidade o suficiente pra se xingar e depois fazer as pazes no mesmo dia.

Cheguei uma semana antes das aulas começarem e tava achando incrível ter vida de universitária no Rio. Eu já fazia faculdade em Brasília e faltava UM PERÍODO pra me formar. Ou seja, eu já tinha até o projeto do TCC pronto. Eu podia ter esperado pra me formar, sim. Mas eu não queria. Eu sou impulsiva e sabia que se não fosse aquela hora, não seria nunca mais (bem dramática mesmo, mas é verdade). Imagina chegar aqui formada, sem ter experiência de trabalho? A ideia era fazer contatos nesse tempo que eu ficasse “extra” na faculdade. E foi o que eu fiz.

Comecei a mandar currículo pra todos os lugares que pareciam legais e que não pagavam uma micharia. Não tinha resposta de nada, nunca. Eu me sentia um ser invisível nessa cidade. Procurei milhares de cursos de teatro, porque, afinal, não sei se eu me lembro, mas eu vim pra porque tinha mais chances profissionais para quem é ator. Aqui no Rio eu faria contatos, ia emagrecer e ia fazer novela, o que nunca foi o que eu queria, mas era o que dava dinheiro e só assim dava pra viver de teatro. Mas pra isso acontecer, eu precisava me inserir no meio artístico do Rio de Janeiro.

Na época, eu tive que me distanciar do teatro. Eu tinha que trabalhar e ainda me formar. Depois de dois meses sem arranjar emprego, comecei a me desesperar. Comecei então a mandar currículo pra lojas. Fui chamada pra uma entrevista numa loja de roupa famosinha. Oba, lojinha descolada. Me arrumei toda e cheguei com a certeza de que a vaga era minha. Sentei na mesa e uma mulher de bico fino e blusa de seda começou com um “nossa, como você é novinha”.

Todo mundo adora ouvir isso, mas não existe nada no mundo que me deixe mais revoltada do que ouvir em uma situação profissional. Eu nunca me importei com isso, mas dessa vez eu senti que ela queria dizer que eu não era boa o suficiente. Ela falou na minha cara que eu não ia dar conta de ficar 8 horas em pé ouvindo desaforo dos clientes e eu falei com a voz trémula que ia sim.

Ela pareceu nem ligar quando eu disse tinha me mudado sozinha e eu quis dizer que se eu tive coragem de fazer isso, eu aguentaria qualquer desaforo. Mas era mentira, porque não aguentei nem o desaforo dela. Hoje em dia eu teria ido embora no meio da conversa e teria deixado ela falando sozinha. Mas aquilo foi como um soco no estômago. Saí chorando, peguei o ônibus de volta pra casa e quando eu cheguei lá não tinha ninguém.

Quer continuar lendo a história? Vem aqui: Mudar de cidade é um tiro no escuro – Parte II


Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo. .
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