de repente dá certo

Este é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês.

Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo.

Hoje eu peguei um trem pro passado

Hoje eu tive um sonho muito doido que eu pegava um trem de metrô pro passado e cada estação que a gente parava era uma fase da minha vida, como se eu tivesse revisitando quem eu era, pra construir quem eu quero ser daqui pra frente.


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Hoje eu tive um sonho muito doido que eu pegava um trem de metrô pro passado e cada estação que a gente parava era uma fase da minha vida, como se eu tivesse revisitando quem eu era, pra construir quem eu quero ser daqui pra frente.

Você segurava a minha mão e eu sentia uma vontade quase incontrolável de te beijar, mas de alguma forma eu sabia que não era você quem eu esperava na estação final. Eu sabia que tinha alguém me esperando lá, mas eu não conseguia lembrar quem era. Quem me esperava era um borrão na memória, como se eu não lembrasse ou ainda não conhecesse e estivesse inventando.

E havia várias garrafas de vinho branco espalhadas pelo metrô, como se a gente tivesse bebido todas e entrasse num estado de psicodelismo. Você ia me contando histórias com tom de poesia entre uma estação e outra. Você dizia que eu era uma avalanche, que eu entrei pela porta e te desestabilizei, não a ponto de te deixar inseguro, mas de me querer mais. E eu sabia que você enxergava através de mim, só como os bons poetas fazem. Nem músicos, nem artistas plásticos, nem atores. Apenas escritores têm essa capacidade de ver por dentro das pessoas.

Eu queria me jogar em você, te levar pro meu passado e te esconder lá em alguma estação que eu pudesse revisitar. Sentir o que você sentia por mim era reconfortante de alguma forma e eu sabia que existia uma linha invisível que segurava nossas cabeças. Se soltasse talvez eu caísse em mim e podia ceder minha vontade de te beijar. Alguma coisa muito interna me dizia que não era o certo, que isso ia ter consequências no futuro, mas eu não podia ver agora, já que revisitava meu passado.

Eu não sei por que era você, eu não sei como a gente se encontrou no metrô, mas a vida tem caminhos tortos que nos levam ao encontro de pessoas que nos tiram o chão e ao mesmo tempo nos mostram o céu. Você era meu guia pro passado e por mais que quisesse estar comigo, você dizia que a única coisa importante agora era o futuro e o que me esperava na última estação.

Eu morria de medo, porque era uma estação toda escura e eu tinha que descer sozinha. E você dizia, pode ficar se quiser, mas em algum momento você precisa descer aqui, nem que seja pra voltar pra casa.


Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo. .
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