de repente dá certo

Este é um mapa de onde minha imaginação foi. Agora, o caminho é de vocês.

Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo.

A arte de abandonar o barco

m texto sobre a importância de abandonar o barco em vários momentos da vida.


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Este é um texto perigoso de ser escrito, então peço que me acompanhem. Algumas afirmações podem parecer radicais e difíceis de serem absorvidas porque a vida não é tão simples assim, eu sei. No fundo nada é certo ou errado, tudo depende de um ponto de vista. E este texto é sobre ligar o foda-se.

Eu tenho muita facilidade em ligar o foda-se. Isso me atrapalha em diversas coisas na vida onde eu deveria ter disciplina. Não se chega a lugar nenhum sem disciplina. Mas, na maior parte dos casos, apertar esse botãozinho mental me traz uma grande paz. Difícil é ponderar qual é o momento certo de fazer isso. Mas eu tento colocar tudo em uma balança e geralmente fico com o lado do meu bem estar. Isso tem funcionado.

Em coisas que estão totalmente fora do nosso controle, por exemplo, não temos outra opção senão ligar o foda-se. Porque se não tem nada que você possa fazer, ficar martelando a sua cabeça com preocupação é só uma forma de autoflagelação.

Em outros milhões de casos classificados em “obrigação social” como pagar boletos, trabalhar ou escovar os dentes, todos sabemos que é melhor cumpri-los, porque mesmo na balança do bem estar momentâneo, isso pode te causar problemas futuros.

Bem estar momentâneo x Bem estar prolongado

Para organizar as ações do foda-se, o bem estar deve ser colocado em uma balança. Qual lado vai pesar mais? Em alguns momentos, até mesmo as obrigações sociais podem ser deixadas de lado, mas apenas se você tem plena consciência de que o bem estar momentâneo vai valer mais a pena do que o prolongado.

Eu sou mestre em escolher o bem estar momentâneo para dieta, por exemplo. E aqui está um ponto importante. A partir do momento que você decidir entre um e outro, não pode gastar nenhum segundo reclamando depois. A única coisa que você pode fazer é não repetir o erro, mas se culpar por algo que você já decidiu, acaba virando, como eu disse ali em cima, uma auto flagelação (me contem se conseguirem fazer isso, viu? kkk).

Ok. Estamos entendidos com essa balança então. É difícil, mas é um treino mental. Você vai ter mais tempo para pensar em outras coisas se não se afogar em culpa por coisas pequenas que você não pode mudar. Se você achou que a conta a se pagar pela sua ação foi alta, peça desculpas a si mesmo e não faça mais. Assim como você faria com qualquer pessoa que você gosta.

Quando abandonar projetos longos

Se a balança de coisas pequenas já nos faz perder noites de sono, imagina de grandes projetos como relacionamentos, trabalhos, ideias, cursos e sonhos. E esse é o ponto crucial do meu texto, onde as minhas afirmativas podem ser perigosas.

O foda-se nesse caso é delicado, porque precisamos de constância para construir qualquer coisa. E nesse caminho, muitas vezes, dá vontade de desistir porque é chato e difícil em muitos momentos. Precisamos ter resiliência. E desistir de tudo simplesmente porque está difícil no momento pode ser sinônimo de fracasso. Você não aguentou e desistiu e agora não tem mais caminho nenhum, senão o da autoflagelação e arrependimento.

Mas a realidade é que você pode sim ligar o foda-se se, na balança, o sofrimento pesar mais do que a realização. Tudo bem se não der certo. Tudo bem mudar de ideia. A gente ouve tanto que tem que sofrer para as coisas darem certo, mas é mentira. Dá muito trabalho e é necessário ralar muito, mas sofrer não. Sofrer faz parte do processo, mas não é o processo inteiro.

Se seu projeto te faz sofrer mais do que te faz feliz, cai fora.

É bem provável que você se afogue caso decida abandonar o barco no meio do atlântico sem saber pra onde ir. Por isso, o foda-se deve ter uma estratégia.

É preciso saber a hora certa de pular fora. Faça os cálculos e veja se há alguma terra à vista. Talvez você tenha que nadar alguns quilômetros até chegar, mas quando você chegar você vai gritar “Eu sou muito corajoso”. Se você quiser, também pode esperar um bote passar, mas é preciso estar atento. É muito ruim continuar em projetos longos que você não acredita e não fazem mais sentido. Ou pior, em projetos que realmente te fazem sofrer.

Quantas vezes você começou algo empolgado e no meio do caminho se desmotivou e viu que não era isso? Pode pular do barco ou voltar três casas, porque a vida é uma grande incerteza e a única coisa que importa, sinceramente é você estar em paz com suas escolhas.

O que eu vejo, muitas vezes, são pessoas loucas para abandonar o barco, mas com medo de descer. A viagem passa a ser um grande tormento e de repente elas se veem desembarcando em lugar onde elas nem queriam estar mais, ou pior, ficarão em um barco desgovernado vagando pelo oceano. Tem uma frase que eu gosto muito que é “você sempre pode retornar seu barco, mesmo no escuro”.

E pode mesmo. Não tem problema nenhum desistir, tentar outra coisa, voltar atrás, viver de outra forma. O grande barato da vida é destruir certezas que construímos e ver que absolutamente nada é definitivo. Existem milhares de embarcações prontas para zarpar e outras mil ilhas pra você curtir. Acho que a única coisa que não vale a pena é ficar parado.

O maior e mais importante projeto que você vai construir é sua vida e, cá pra nós, desse não dá pra pular fora, então é bom que a viagem seja agradável. E quem pilota esse barco é você.


Marcela Picanço

Autora do site De Repente dá Certo, atriz e jornalista. É fissurada por arte e futurismo e acredita que o presente é sempre a melhor época para se estar vivo. .
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