Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Sound Art: Tecnologia e Interação

A partir da segunda metade do século XX tem-se assistido a um rápido movimento de expansão artística, tudo isso graças à evolução tecnológica e a experimentos que fundiam música e artes visuais, dando origem a formas distintas de produzir e de sentir arte.


Acusma.jpeg "Acusma" do coletivo Chelpa Ferro

Imagine só: tornar o som visível, dar a ele cores e formas táteis, fazer com que ele interaja com a tinta de maneira a lhe dar formas inusitadas ou criar ambientes com fortes texturas sonoras, capazes de proporcionar outras formas de habitar determinado espaço. Dá-se o nome de Esculturas sonoras (ou artes sonoras) a essas experiências artísticas que envolvem a criação de formas e ambientações através do som.

A tecnologia é a principal aliada dessa forma de arte e é através dela – de seus motores elétricos, câmeras super potentes, projeções ou programações digitais – que vibrações sonoras ganham cores e formas no tempo e espaço. As esculturas sonoras do artista americano Bill Fontana e as instalações do coletivo Chelpa Ferro são exemplos de como as tecnologias eletrônicas e digitais servem de mediadoras para tais propostas estéticas.

Podemos situar a emergência das experiências mais sérias nessa área da arte nas décadas de 60 e 70, graças a nomes como Nam June Paik, Norman Mclaren, Oskar Fischinger, Xenakis, entre outros.

O diálogo entre música e arquitetura é também um diálogo entre tempo e espaço, as concepções de soundscapes, soundesigns, soundsculptures e instalações sonoras partem das tensões existentes entre os diversos campos da cultura e do conhecimento, tornando-se uma tentativa de estabelecer diálogos entre campos e conceitos complexos como som, espaço, arte e tempo.

O som torna-se então uma ferramenta de lapidação do espaço, uma ferramenta que pode emanar de uma construção em si mesma acabada fisicamente, como é o caso de peças e esculturas que produzem sons. Esse tipo de experienciação torna-se interessante no sentido de ser trifásico: o som ecoa por uma estrutura já finalizada; cria texturas que envolvem e criam paisagens sensoriais; e em seguida retorna ao objeto do qual ecoa na forma de um complemento conceitual gerado pelo proprioceptor.

Orts.jpg instalação sonora de José Antonio Orts

Muitas dessas obras necessitam da interação do público para criar imagens ou modelos através da captação de movimentos ou voz, o que é também uma grande jogada de marketing da arte, pois dizer que o corpo do outro é necessário causa um efeito de utilidade, de pertença e isso talvez tenha feito com que esses espaços tenham se tornado também um grande sanatório de neuroses: neles todos nós podemos ter a impressão de que somos úteis.

Podemos arriscar também o palpite de que a proposta da escultura sonora venha da inveja, comumente apontada por kandinsky, que os artistas plásticos sentem dos músicos. Nesse caso, pensar a inveja como fonte de criação é uma ideia que me agrada por corresponder à nossa natureza humana, afinal, ninguém compõe uma grande peça ou escreve um livro com o intuito de guardá-los pra si: é sempre o desejo que move a produção da arte.


Jocê Rodrigues

Escritor e editor .
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