Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Célia Euvaldo - Silêncio e Verbo em um Não-Lugar

“A sabedoria que provém do desencantamento não é um clima que favoreça o florescimento da arte: ao que parece, a arte prospera na inocência”
David Sylvester


célia0.jpgMuseu de Arte de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, Brasil, 1999

A obra de Célia Euvaldo carrega silêncios potencializados, que vibram na tinta preta como em nenhuma outra obra que pude ver até hoje. Suas telas são intensidades que transitam na tela através de uma técnica que causa tanto um estriamento como um alisamento de signos; são adensamentos pictóricos que preenchem a tela como pulsões que reverberam em pontos de fugas transitivos, um procedimento de acoplamentos de desejos (ligações que acontecem de maneiras diversas, de acordo com as pulsões do desejo).

O silêncio grita na espessura da tinta e parece querer transformar-se em discurso no cognitivo do receptor, algo que parece querer movê-lo, tirá-lo de seu centro gravitacional vulgar, a harmonia está na tensão e não há um acontecimento final na obra, pelo contrário, há sim uma abertura singular para interpretações que vão além do cultural, proporcionando uma experiência verdadeiramente estética.

th_77263062132a31fd9676f0a8bbbc7fbe_9203.jpgContracanto 3, óleo sobre tela, 2008, 40x50 cm

Não só o branco do fundo de suas telas são silêncios, mas também o preto da tinta a óleo que as recobre. Não há em suas linhas um silêncio de aceitação, tácito, conformado, mas um que é vácuo do qual emergem signos que não possuem significantes aparentes ou conhecidos da cultura do receptor, causando um impacto ontológico, existencial. Célia Euvaldo trabalha na linha tênue entre ser e ser quase. Pode-se dizer que a corporificação de instabilidades é o ser-aí da sua obra (possível somente pela participação ontológica do receptor).

célia2.jpgSem título, óleo sobre tela, 2009, 200 x 170 cm

Seus quadros se movimentam movidos por pulsões indecidíveis que preferem ser forças moventes e não significados. A estática do preto sobre o branco e seu modus operandi servem de pulsões que desencadeiam ali, na penumbra de contornos, possibilidades que passeiam nas telas. É como presenciar o caos dos gregos antigos, de onde tudo nasce, onde tudo está contido. Não fosse a técnica de controle que Célia emprega (o rodo, a vassoura e a raspagem) suas obras se apresentariam como incontroláveis titãs, diferentemente do resultado que é visto pelo receptor: telas que nos convidam a um aprofundamento, um mergulho nesse mar de signos em busca de um lugar-silêncio que fica logo atrás da tensão da forma.

célia4.jpgSem título, óleo sobre tela, 2009, 170 x 230 cm

Assim como seus quadros pretos e brancos, os quadros brancos nos falam de densidades e de multiplicidades instáveis que agora se manifestam não mais na contraposição do preto e branco, mas da intensa aplicação de tinta branca trabalhada com o rodo e com a vassoura de maneira a despertar o corpo para uma experienciação controversa: um branco que queima significações – que apenas pelo fato de se apresentarem em uma única cor, não podem ser confundidas como unívocas – e recorta o espaço da tela em uma dupla operação de povoamento/silenciamento que instaura um verbo estético improvável e impraticável fora da esfera da experiência existencial.

célia3.jpgBranca 44, 2008, óleo sobre tela, 140 x 180 cm

Lorenzo Mammi comparou o trabalho de Célia Euvaldo com o jardim zen, devido a suas inspirações contemplativas. Me inclino a aproximar seu trabalho, pelo mesmo motivo de Lorenzo, ao exercício de caligrafia zen, que visa um trabalho que une mente e corpo em busca do vazio, de um não-lugar.

célia5.jpgSem título, 1997, óleo sobre tela, 150 x 210 cm


Jocê Rodrigues

Escritor e editor .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/Afetos e Provocações// @destaque, @obvious //Jocê Rodrigues