Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Tatiana Blass - A Construção das Cores (ou A Teoria das Horas)

Um texto sobre a obra da artista paulistana Tatiana Blass, vencedora do prêmio PIPA de 2011, que integra o livro As Máquinas de Deus (Ed. Multifoco, 2012)


12_Tatiana Blass - 2011_Rafael Adorjan.jpg Tatiana Blass por Rafael Adorjan

Instalações metalinguísticas que problematizam conceitos caros ao homem com seu desejo-espetáculo. Sua marca é a desconstrução física e simbólica de noções premeditadas e de construções subjetivas em uma busca pela materialização de ausências e silêncios. A poética construtora de presenças-limite vigora na cor e na forma, extrapolando limites pré-determinados (refuga do corpo decorativo e dos órgãos: manutenção do sujeito através da experiência estética). Meditar a negação dos poderes normativos da arte e da cultura, expondo os resultados táteis dessas meditações: eis o mudra de Tatiana Blass.

A desaceleração do homem, do desejo e do tempo – desconstrução do sujeito e de seu espaço –, que envolve e critica os verbos ver, ouvir e sentir. Com a instabilidade assimilada através da manipulação e transformação de um objeto prático (um tear, um instrumento musical) em um catalisador ontológico, resultado da radicalidade do ato criativo e composicional que soam como escalas cromáticas de uma sinfonia de cores e formas estruturantes.

vaga.jpg Tatiana Blass/Vaga/Mazda e fulget/150 x 300 x 500 cm/2012/Foto: Everton Ballardin

Insinuar presenças em espaços vazios, sons no vácuo e movimentos no que é inerte é um dos grandes talentos de Tatiana Blass, que joga com os sentidos e com as formas de representação/interpretação do humano, propondo um redirecionamento espacial e ontológico das hierarquias sensoriais ou sua extinção. A materialização do oculto não configura uma novidade para a arte moderna ou pós-moderna, sendo até uma de suas prerrogativas (vide kandinsky e seus tratados, por exemplo), no entanto, sua poética dá piruetas nos palcos do convencional e vai além das premissas estéticas da beleza viciada (ou do vício de beleza) e da neurose política, entrelaçando o vertical e o horizontal da relação obra/receptor.

pareo.jpg Tatiana Blass/Páreo/Mármore espírito santo/85 x 50 x 150 cm/2006/Foto: Everton Ballardin

Chega da irritante interpretação dicotômica (concreto/abstrato) da arte: parece assim gritar algumas de suas composições. Limitar a experiência estética a esses conceitos é o mesmo que enxergar o mundo de uma maneira monocromática, estúpida valoração do visível. Tudo se transforma; tudo se distorce quando queima o combustível da alma e se aciona o reator da fábrica ontológica que consome toda a energia da coisa (das ding); em seguida ela, a coisa (o estranho), ressurge subjétil e se firma numa nova ordem das coisas no mundo. Assim deve ser a arte: superação das neuroses da estabilidade e da política. Blass beira a iconoclastia e vai aos extremos da experimentação linguística afirmando a instabilidade dos signos quando nos induz à confusão entre morte e vida, som e silêncio, cegueira e visão; extenua e exaure as possibilidades da criação e vai muito além de movimentos como dadaísmo e surrealismo: seu movimento não é escola, é potência que refuga os meios convencionais e sintomáticos de neuroses criativas. Ajuda-nos não só a lembrar da existência das coisas, mas também de sua finitude, de sua efemeridade. Coisas que se desmancham, que se desfazem e definham na nossa frente ou que fingem deixar de ser para reincidirem em nosso imaginário como práticas de uma psicanálise lacaniana, que ao invés de visar o apaziguamento do sujeito, causa um estranhamento mais desafiador que as visões e interpretações normatizadas, comportamental e psicologicamente, da realidade “vulgar”.

metade da fala no chão - piano surdo1.jpg Tatiana Blass/Metade da fala no chão – Piano surdo/performance/instalação, piano de cauda, cera microcristalina, vaselina, pianista e vídeo/aprox. 500 X 500 X 200 cm/2010

metade da fala no chão - piano surdo2.jpg Tatiana Blass/Metade da fala no chão – Piano surdo/performance/instalação, piano de cauda, cera microcristalina, vaselina, pianista e vídeo/aprox. 500 X 500 X 200 cm/2010

metade da fala no chão - piano surdo3.jpg Tatiana Blass/Metade da fala no chão – Piano surdo/performance/instalação, piano de cauda, cera microcristalina, vaselina, pianista e vídeo/aprox. 500 X 500 X 200 cm/2010

Criar sistemas de interpretações (não expandir os que já existem) é tarefa urgente. O mundo tem sido interpretado de diversas maneiras ao longo da existência humana, substituindo-se um sistema de interpretação por outro em períodos de tempo diversos e também com sistemas dominantes coexistentes no macro (Oriente X Ocidente). Existe hoje uma crença na impossibilidade da criação de sistemas originais de interpretar ou habitar a realidade. Trata-se de uma inverdade que vem sendo cada vez mais aceita pela sociedade. Que ela seja aceita pela economia, pela política ou por algumas ciências acadêmicas de senso comum não configura problema tão grave, mas me parece inconcebível que ela se estenda às artes e tenha aceitação nelas. A transformação do artista em simples artesão é algo que não consigo aceitar (a redução da criação de realidades e linguagens inteiramente novas a simples interpretações do real) e que empobrece e desfigura o corpo de possibilidades (potência-gênesis) da arte, interditando assim physis da criação fenixológica.

Penélope.jpg Tatiana Blass/Penélope/Tapete, Tear, Fios de lã e Chenille/Capela do Morumbi/2011/Foto: Everton Ballardin

Se as obras de Tatiana Blass não constituem um exemplo perfeito de Fenixologia, ao menos indicam um sólido caminho para se conseguir chegar a ela, não só ressignificando objetos, espaços e acontecimentos, mas indo além das convenções – principalmente das convenções radicais – e aprofundando-se no sujeito e nas suas subjetivações para poder inquirir sobre as bases que (historicamente, filosoficamente, biologicamente, antropologicamente – tendo o direito até mesmo de descartar tais premissas se assim achar mais efetivo) hoje formam o mundo sensível.

afogados2.jpg Tatiana Blass/Afogados#2/Acrílica e verniz sobre tela/200x300 cm/2010/11

coxia.jpg Tatiana Blass/Coxia/Acrília sobre tela/80x120 cm/2009

As horas podem deixar de ser ferramentas mensuradoras de vida para tornarem-se cores na paleta não só de um artista habilidoso mas também de um cidadão comum.


Jocê Rodrigues

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