Jocê Rodrigues

Escritor, jornalista musical e poeta (autor do livro As Máquinas de Deus, ed. Multifoco); criador e editor-chefe da revista Vermelho!, atua como crítico para diversos sites e publicações.

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George Orwell - 1984

Produção Simbólica Inteligente Em Duas Campanhas Dignas de Nota

As campanhas comerciais são grandes disparadores sígnicos e em meio a tanta informação é sempre reconfortante quando nos deparamos com criações inteligentes, que sejam capazes de nos mover em um nível estético, para além do funcional.



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O filósofo alemão Ernst Cassirer defendia uma visão do homem como animal essencialmente simbólico, o único capaz de construir sentido para todas as suas ações, o que quer dizer que relacionamo-nos com tudo e com todos através de símbolos.

Por isso, não é à toa que nos dias de hoje as propagandas estão cada vez mais criativas, com signos cada vez mais potentes e efetivos.

Diariamente somos bombardeados por toneladas de informação – seja pelo rádio, jornal, TV ou internet –, enquanto o tempo disponível para a absorção de um volume tão grande é escasso e dificilmente essas informações transformam-se em conhecimento. No meio de tanto ruído, sobressai quem consegue ser original sem ser prolixo ou “cabeçudo” demais (importante frisar que o foco desse texto está na produção simbólica em propagandas publicitárias).

banner-originalidade-web2.jpg ₢ Café com Deus

Um ótimo exemplo disso é o comercial “The Man Who Walked Around The World” (grande inspiração para o formato das propagandas da Nextel), da Johnnie Walker, que conta a história da marca de maneira leve e bastante criativa, convidando o espectador a uma viagem no tempo de maneira não convencional e em um único take, conseguindo transformar algo que facilmente soaria desinteressante por seu conteúdo institucional em uma experiência de aprendizado e motivação.

Atualmente duas campanhas me chamaram a atenção. São elas as da coleção outono inverno das marcas Jigsaw e Suitsupply, ambas com foco no vestuário masculino.

Enquanto a primeira aposta em uma proposta mais minimalista e concêntrica, a segunda vai por um caminho menos estreito e mais colorido.

Jigsaw: virilidade, elegância, e um tantinho assim de Folk Music Jigsaw-04-GQ_11Sep13_b_813x494.jpg

A nova campanha da marca traz o ator inglês Noah Huntley em atividades que esbanjam masculinidade e atitude ao som de um folk moderninho. No vídeo Noah caminha por florestas, dirige um carro antigo, interage com cavalos e pratica falcoaria: uma verdadeira exaltação à imagem do homem rústico e viril.

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Jigsaw-07-GQ_11Sep13_b_813x494.jpg A mensagem é clara: seja um homem, conecte-se com seu lado selvagem sem perder a compostura e elegância.

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Com as tradicionais cores frias, a coleção ganha em sobriedade e charme. A seriedade aparece também como elemento fundante da campanha, sustentada pela atmosfera solitária que cerca o ator.

Suitsupply: apelo Cult na medida certa SS-campagne13419_schilderij.jpg

Já a nova coleção da Suitsupply aposta na sofisticação, com apenas algumas peças mais casuais. A grande sacada da campanha está mesmo em seu styling, onde se contrastam as cores dos looks com pinturas do século XVIII como plano de fundo. A atmosfera Cult e intelectualizada trazida pelas obras de arte são um atrativo de peso no quesito bom gosto, ao mesmo tempo em que demonstra sofisticação e leveza. Sem pregar um intelectualismo exacerbado, a campanha faz uso do equilíbrio, cuidando para que as peças consigam dialogar e se destacarem frente a obras de grandes mestres da pintura.

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SS-campagne12735_schilderij.jpg Ousadia? Talvez. Presunção? Pera lá.

Não vamos nos esquecer de que tudo depende do ponto de vista do observador, e este não precisa ser um connoisseur em arte ou moda (leia-se tendências) para saber se o que está ali lhe agrada ou não.

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Também não podemos nos esquecer do perspicaz esclarecimento que Ernst Gombrich faz sobre a famosa questão “gosto não se discute”: “pode até ser”, ele diz, “mas não significa que ele não seja passível de desenvolvimento”.

Jocê Rodrigues

Escritor, jornalista musical e poeta (autor do livro As Máquinas de Deus, ed. Multifoco); criador e editor-chefe da revista Vermelho!, atua como crítico para diversos sites e publicações..
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