Jocê Rodrigues

Escritor e editor

A Elegância e Finesse de Paolo Fresu

O trompetista italiano que vem conquistando cada vez mais sucesso de crítica e de público nos últimos anos.


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Que Chet Baker foi o galã por excelência no mundo do jazz ninguém duvida, mesmo com as gravações de qualidade duvidosa da década de 60, com todos os problemas com a justiça e mesmo quando a heroína levou muito da sua beleza angelical do início de carreira, seu estilo cool e postura impecável o mantinham em tal inabalável posição. De lá pra cá não houve ninguém que fosse capaz de chegar a esse patamar e talvez não haja nunca. Mas um nome chama a atenção no cenário jazzístico atual por seu estilo contido e performances sensíveis e elegantes: Paolo Fresu.

Nascido em Sardinia, na Itália, o trompetista traz um forte sotaque do mediterrâneo em sua música (sabe daqueles que arrancam suspiros de moças e rapazes logo nas primeiras notas? Pois é), principalmente quando o empunha o flugelhorn, instrumento que parece ter sido feito na medida pra ele por conta da sua sonoridade mais suave e macia. Mesmo em momentos mais agitados, a exemplo de “Desertico”, seu mais recente disco com seu Devil Quartet, que lembra a sonoridade da fase elétrica de Miles Davis, seu estilo único se sobressai ao mesmo tempo em que atrai a atenção para a sua figura centrada e com o charme habitual que só quem consegue fazer pose sem parecer que está fazendo pose tem. Não sei dizer se é realmente natural, mas que parece natural parece. Além de boa pinta e exímio instrumentista, o moço também é boa praça e articula/participa de trabalhos de outros grandes nomes da música atual, incluindo Omar Sosa (com quem gravou o ótimo “Alma”, lançado em 2012), Richard Galliano, Uri Cane e Ralph Towner, só pra citar alguns.

Seja tocando standards ou composições originais, sua singularidade interpretativa é sempre o grande diferencial: “eu acredito que a coisa mais importante não é o material – o material é apenas um pretexto para adentrar a música. O mais importante é nossa atitude para com a música”, argumenta. Junto a uma paleta de texturas e cores vívidas e ao som claro e livre de irritantes vibratos do seu trompete, está também uma gama de efeitos eletrônicos, mesclando tradição e tecnologia com sobriedade e sofisticação.

Outro elemento de grande importância para o músico é o silêncio. Basta ouvir discos como “Mare Nostrum” (gravado em conjunto com Richard Galliano e Jan Lundgren) e “Chiaroscuro” (com Ralph Towner) para perceber o fino trato estético dado a ele.

Em uma época onde extravagância, excentricidade e “ostentação” reinam ululantes, é sempre um bálsamo poder embarcar em uma viagem sonora de qualidade impecável e original. Indo além do blasé e já com uma gigantesca discografia, Paolo Fresu continua a impressionar em performances e projetos cada vez mais envolventes e tocantes, aliando maestria e domínio técnico à sua finese natural.


Jocê Rodrigues

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