Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Luiza Brina e a Poética do seu violão

No ano do centenário de Dorival Caymmi, que tinha como principais características a sua paixão pelo mar e o balanço único do seu violão, nada mais justo do que prestar homenagem à outra virtuose do instrumento: a talentosa Luiza Brina.


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A cantautora, arranjadora e multi-instrumentista mineira Luiza Brina lançou em 2011 o seu primeiro disco “A Toada Vem é Pelo Vento” e atualmente integra a banda Graveola e o Lixo Polifônico, que reúne em sua formação nomes importantes da novíssima música de Minas Gerais. Dona de voz e estilo marcantes, ela carrega consigo outro grande talento: o de fazer o seu violão soar de maneira única.

Certa vez eu conversava com o compositor, cantor e guitarrista Luiz Gabriel Lopes, que é amigo e parceiro de Luiza no Graveola, sobre identidade musical e ele me contou de quando uma vez, em uma viagem à praia com os amigos, ele vinha caminhando pela areia e notou que Luiza se dedicava a cantar e tocar uma música ao violão. Pensou se tratar de uma canção nova dela e se surpreendeu quando soube que ao invés disso era uma música muito conhecida (não consigo me lembrar o nome da canção), que ao ser interpretada por Luiza adquiriu seu sotaque e trejeitos. “A Lu tem a capacidade de transformar qualquer coisa que ela toque em algo só dela”, foi o que ele me disse.

Mesmo sendo nascida e criada em um Estado desprovido de praias, o mar parece ecoar em cada nota do seu violão, que tem sotaque de sal, como quem insiste em dizer que o encanto do mar está onde o coração quiser. Sua maneira singular de cantar é par perfeito para o seu jeito também único de tocar o instrumento que conduz a harmonia, pois quando une os dois parece ter o poder de encantar feito canto de sereia ou como ondas quebrando na enseada da canção.

Não se trata de sofisticada técnica acadêmica, tão fundamental para muitas pessoas na escolha dos melhores violonistas, sua virtuose vem de uma pulsação natural, coisa de interação e intimidade entre instrumento e corpo. Há uma originalidade evidente no modo peculiar com que veste suas músicas ao empunhar o violão, tornando-as vistosas em arranjos de uma beleza ímpar.

Assim como sua companheira, o violão poeta de Luiza Brina é cancioneiro e popular – do mesmo modo que era o seu ancestral baiano – e canta com voz própria a pluralidade do mundo vista pela sensível retina dessa moça que reúne terra e mar em suas seis cordas.


Jocê Rodrigues

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