Jocê Rodrigues

Escritor e editor

O Grito Ancestral de Matana Roberts

Existem limites para a criatividade e para a liberdade musical? Matana Roberts prova que não. Ao misturar fato e ficção a musicista questiona posicionamentos do passado e do presente de um modo a evidenciar trajetos e possibilidades para um remapeamento dos afetos e da cultura norte-americana.


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Nascida em Chicago, a saxofonista Matana Roberts é hoje uma figura destacada no cenário jazzístico. Dona de um estilo forte, que vai de encontro com a proposta estética que carrega não apenas uma grande carga emocional pessoal, mas também um grito de origem da música que faz – profundamente enraizada na história do povo afro-americano e na construção da América por essa perspectiva, o que dá aos seus trabalhos um forte tom político –, a jovem musicista ganha o mundo com um projeto coeso e belíssimo.

Em 2011, depois de quatro álbuns lançados, Matana começou um projeto sobre a história do negro na América com o disco “Coin Coin Chapter One: Gens de Couleur Libres”, primeiro de uma série prevista para 12 capítulos, no qual reconta de maneira única e vibrante o passado de um povo, com minúcias e cuidados que causam espanto pela força que desencadeiam, unindo poesia, elementos teatrais e experimentações sonoras e visuais. A teia de referências é vasta e complexa e de difícil enquadramento objetivo. Ao misturar fato e ficção a musicista questiona posicionamentos do passado e do presente de um modo a evidenciar trajetos e possibilidades para um remapeamento dos afetos e da cultura norte-americana.

Em 2013 foi a vez de “Coin Coin Chapter Two: Mississippi Moonchile” nascer. Como no capítulo anterior, a espiritualidade se mistura à sonoridade de uma densa narrativa de memórias que possuem corpos diferenciados, cada uma com suas próprias marcas e gritos, dores e alegrias que resultam em um projeto arquitetural de estranha beleza ancestral, caótica e exuberante. Nele, a voz é um elemento mais presente, criando ambientações que remontam às tradições folclóricas, as mesmas que eram expressas e passadas adiante pelos spirituals e field holler.

A expressão Coin Coin, segundo a própria Matana, refere-se a duas coisas: primeiro, a uma composição de linguagem e som a qual ela se dedica desde 2005 chamada Panoramic Sound Quilting (que nas palavras da mesma: “usa a notação musical ocidental e trechos de idéias visuais, tudo reunido para representar um som ‘acolchoado’, coeso, que me intrigue e desafie como compositora e musicista, assim como ao ouvinte.”); segundo, faz referência a uma escrava liberta que fundou uma comunidade na Louisiana do século XVIII onde outros negros libertos tinham oportunidades de crescimento. O nome verdadeiro dessa mulher era Marie Therésè Metoyer, mas atendia pelo apelido de Coin Coin. Segundo revelou em uma já antológica entrevista à revista britânica The Wire, Marie Therésè foi um grande ícone na sua família, pois quando criança costumava ouvir histórias sobre essa figura totêmica da cultura afro-americana.

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Enquanto Gens de Couleur Libres foi gravado com 15 músicos, Mississippi Moonchile contou com apenas 5, o que lhe confere um aspecto mais enxuto mas não menos potente. O fato é que a proposta estética do trabalho é rica como a própria memória, que junto com a imaginação e ancestralidade forma o tema central do mesmo. No primeiro capítulo dessa espécie de novela musical estão presentes forças espirituais e místicas que relembram alguns dos trabalhos finais de John Coltrane, onde cicatrizes e esperanças são expostas com a mesma intensidade, sem um lugar claramente definido no tempo. Para o segundo capítulo Matana Roberts entrevistou a sua avó, que viveu no tempo da grande depressão e passou pela Segunda Guerra Mundial, e intercala suas memórias com versos bíblicos, construindo cenas emocionalmente envolventes e poderosas. O disco é sobre isso? Não, ele é também sobre isso.

Uma descrição do tipo pão = pão, queijo = queijo não vai servir para demonstrar de maneira completa a força do trabalho dessa saxofonista de mente brilhante e técnica apurada. Ela precisa ser ouvida (suas entrevistas exibem um pouco da complexidade e intensidade de sua música) e sentida.

Mississippi Moonchile pode ser ouvido na íntegra no site da The Wire.


Jocê Rodrigues

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