Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Thiago Amud: De Ponta a Ponta Tudo é Praia-Palma

Existem coisas que parecem não participar da esfera da realidade, expandindo nossa percepção para além do reconhecível e nos desafiando a caminhar por paisagens onde tudo está em estado de devir. Assim é “De Ponta a Ponta Tudo é Praia-Palma”, segundo disco do cantor e compositor carioca Thiago Amud.


Thumbnail image for Thumbnail image for 1400x1400_9009710.jpg

A poesia é a força gigante que faz morada nas coisas pequenas, presente da mesma forma nos ladrilhos da cozinha e na vastidão do céu noturno, e é ela que rege o segundo disco de Thiago Amud, lançado em 2013 (o anterior foi “Sacradança”, de 2010, ambos lançados pelo selo Delira Música). Do início ao fim, o que temos é uma experiência singular de narrativa musical onde cada palavra funciona como um estímulo para uma redescoberta não só do Brasil, mas do mundo inteiro através da língua.

Se o nome do disco faz referência à carta de Pero Vaz de Caminha, enviada ao rei de Portugal, onde são descritas as primeiras impressões que o primeiro teve ao desembarcar aqui, Thiago Amud trabalha em um retrato inclassificável e plural de nossa identidade com um lirismo, diga-se de passagem, raríssimo. O espanto com as cores e com a formosura de cada pedaço de terra e chão é narrado com um vigor quase oracular. Inclassificável também é o gênero do disco, ou melhor, inominado, pois é repleto de signos que volteiam o seu centro sem nunca chegar a uma “decisão” final.

Normalmente, por preguiça, alguns jornalistas tendem a taxar qualquer disco que lhes fuja da “fácil” (leia-se preguiçosa e cômoda) compreensão de “hermético” ou “verborrágico” e não aconteceu de maneira diferente com “De Ponta a Ponta...”. Para fruir de uma obra de arte é preciso, no mínimo, um exercício que afine retina e espírito, fazendo-os vibrar na mesma frequência. Sem isso, olhar um Rothko vai ser como estar de frente com uma parede vermelha ou negra, nada mais. Os mais acalorados defensores das facilidades intelectuais e artísticas dirão que me equivoco ao comparar qualquer obra de arte com um álbum ou canção, ao que serei obrigado a responder: acaso não percebem que a música, assim como o teatro ou as artes plásticas, habita também o campo da arte? Se isso não estiver claro como água para o leitor, sugiro que pare de ler imediatamente o que escrevo (o que para muitos representará um verdadeiro alívio).

1571436.jpg De Ponta a Ponta Tudo é Praia-Palma, Capa

Os arranjos intrincados – belamente tecidos como são as tapeçarias orientais que o produtor e guitarrista JR Tolstoi faz questão de pendurar nas paredes sonoras do álbum – soam como uma segunda voz que contraponteia a de Amud, dando uma organicidade que está além da polifonia entre letras e línguas, entre palavras e poemas e que torna cada música um habitat natural para uma dezena de sensações que confluem em um ponto oriental do horizonte.

Não se pode dizer com certeza se o que vemos diante de nós é ilha, arquipélago ou continente. Mesmo após longa caminhada ou observação panorâmica, a impressão que fica é de que não importa a certeza da dimensão exata desse lugar, mas sim a maneira como percorremos ou abrimos caminhos nele. Na séria brincadeira de defletir o real, Thiago Amud é sem dúvidas um gigante, alguém capaz de renovar a forma com que o ouvinte percebe o que está ao seu redor usando a linguagem como ponto de mutação. A partir disso, uma casa não será somente uma casa, tampouco uma papoula será somente papoula.

Bravo! Mil vezes, bravo!

Ouça o disco na íntegra:


Jocê Rodrigues

Escritor e editor .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Jocê Rodrigues