Jocê Rodrigues

Escritor e editor.

Brasil Esquema Novo: Antonio Loureiro

Conheça Antonio Loureiro, um nome que com certeza vai ficar na sua cabeça após entrar em contato com a força de sua música, que dilui as fronteiras entre música instrumental e canção e não faz distinção entre popular e erudito.


toin.jpg Foto por Caio Palazzo

Antonio Loureiro é um jovem multi-instrumentista e arranjador dotado de um talento raro. Faz parte de uma incrível safra da música mineira (apesar de ter nascido em São Paulo, passou a maior parte da sua vida em Belo Horizonte) e fez parte do grupo Ramo, junto com outros grandes nomes da música contemporânea. "Só" é o seu segundo álbum, lançado em 2012 pela Borandá, e com ele alcança o patamar de um dos grandes instrumentistas de nossa época, mesmo sendo tão jovem.

A partir do nome do disco é possível prever que se trata de algo mais pessoal que o primeiro, lançado em 2010 e que teve inúmeros colaboradores. Em "Só", Antonio Loureiro da livre curso à criação de texturas sonoras que se aproximam bastante do abstracionismo de Kandinsky, um grande aficcionado pela aproximação da música com as artes plásticas. Kandinsky escreveu em 1925 em uma de suas aulas da Bauhaus, disponível ao leitor brasileiro na ótima edição do livro Curso da Bauhaus, da editora Martins Fontes:

Caminho de aproximação em novas bases. “Novo” com base nas relações internas. Essa base consiste no emprego das propriedades formais tendo em vista um valor interno. Olhar por cima do muro e tentar tirar proveito das artes vizinhas. “Colorismo” em música e “ritmos” em pintura. Debussy, Hodler. Renascimento da dança. Duncan, Dalcroze, Sakharov, Laban, M. Wigman, Palucca. Música e pintura – procedimento paralelo, partitura – Scriabin, Prometeu. A transposição já subentende a aceitação da identidade dos meios. Duncan dança a música, Hodler pinta. Debussy traduz a pintura em música. Compreender as diferenças = fazer a síntese. Interesse pela teoria da música e da pintura, artes aparentadas (Helmholtz).

Pensando por esse ângulo, Antonio Loureiro é um grande músico colorista, resposável por aproximações improváveis e de muita maturidade.

A síntese proposta por Antonio é também tradução de um discurso biomórfico presente na atmosfera de músicas como Reza, Parto e lindeza, enquanto Luz da Terra e Pelas Águas surgem como proposições de um sincretismo na música brasileira que ultrapassa o campo das religiões e dos totens, atigindo o resultado tão raro da criação de uma instância outra. As letras também são repletas de luzes e de cores, provocando em nós a sensação de existenciar uma ópera, com elementos cênicos meyerholdianos sendo elevados a potências impensáveis em terras nacionais. Não há uma tensão entre popular e erudito. O quase completo esquecimento de gêneros direciona a um fazer autoral que é indiferente à oposição entre música instrumental e canção.

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O clima do álbum é envolvente. Todo ele é de uma virtuose muito bem aplicada. Nos momentos certos surgem andamentos tão belos, com paisagens sonoras tão delicadas e ricas, que é possível experienciar o espaço-tempo de forma singular. O improviso como ponte para chegar ao inominado, a pulsões que não cabem em palavra alguma, forçando os limites de nossa linguagem a um exercício de hibridação.

Ricas em pluralidade, as músicas não estacionam somente em uma brasilidade, atuam como a música, enquanto obra de arte, deve atuar. Através de uma linguagem universal que cabe em todo canto de toda gente de toda terra, independentemente de etnias, crença, língua ou posição política. São elos improváveis, impossíveis quase. Forças desencadeadas em poemas sonoros de forma precisa na união da voz suave de Antonio com a doce imensidão de seus arranjos, que não foram formalmente escritos e onde, na maioria das gravações, o próprio músico assumiu todos os instrumentos.

"Só" é repleto de convidados especiais, entre eles estão: Rafael Martini (acordeon e vozes); Sérgio Krakowski (pandeiro); Tatiana Parra (voz); Alexandre Andrés (flautas) e os argentinos Santiago Segret (bandoneon) e Andrés Beeuwsaert (piano). Também tem as colaborações de Thiago Amud, Siba e Makely Ka nas canções.

Ouça 7 das 10 faixas de "Só":


Jocê Rodrigues

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