Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Brasil Esquema Novo: Bruna Moraes

Conheça o trabalho de Bruna Moraes, uma jovem cantora e compositora que vem conquistando cada vez mais ouvintes com a beleza de sua música.


Bruna-por-rodrigo-ramos.jpg Foto por Rodrigo Ramos

Encher os olhos de água e sal é o menor dos males (ou dos bens, pois isso sempre dependerá do ponto de vista do observador) que pode te acometer quando ouvir a música de Bruna Moraes. A compositora paulistana conquista pela força arrebatadora da sua voz e da sua interpretação, levando corações para longe, sequestrando-os pelos ouvidos – esse canal de ligação com eu profundo de cada um. Sua linguagem musical é tão deslumbrante que causa aquele sorriso de canto de boca. Pronto. Perfeito. Sua música é como o sorriso da Mona Lisa. Não. Ainda não é isso. A música de Bruna Moraes é a razão do sorriso da Mona Lisa. Agora sim, acho que cheguei perto.

Seu disco de estreia, “Olho de Dentro”, foi lançado no ano passado pela gravadora Kuarup e traz o absurdo para o campo do real. Se poesia é tudo aquilo que habita entre o céu o e a terra, mantendo-se como uma zona crepuscular, então seu disco é também poesia. Clarão do raio que rasga o ar e desvela a montanha; aguaceiro que descortina nuvens no céu; o mistério do olhar encantado de mundo, que mergulha direto no mar-de-dentro da gente. Ele não precisa se justificar à luz de nada. Ele é. Sua essência faz arvorar o espírito, nota a nota, folha a folha. O amor conduz sua forma. Sim, o amor, essa coisa que todo mundo tenta dizer que acabou ou que está blasé, mas que continua fazendo cócegas no pé do ouvido até da pessoa mais cética.

Sua íntima relação com a Umbanda produz letras sensíveis e ligadas a temas como natureza e espiritualidade. Na sua voz, a força de quem caminha no mundo como quem dança. Suas interpretações são enérgicas, algumas cheias de vigor e outras delicadas e de grande sensibilidade. Sua trajetória até aqui (vale lembrar que estamos falando de uma jovem mulher de 18 anos) expõe-nos a uma “querência de brotar no acaso” – um paradoxo misterioso e luminescente tecido na mente do fenômeno poético que era Ericson Pires. Com uma postura de quem não se apequena diante das gigantescas especulações sobre a decadência ou falência múltipla dos órgãos do um mercado fonográfico, Bruna Moraes segue se importando apenas em semear música, sulcando a terra com seu violão e plantando nela a sua voz.

Em seu repertório cabe não apenas as suas composições (sete das onze faixas de “Olho de Dentro” são suas, algumas em parceria com outros compositores) ou as de gente como Chico Buarque e Taiguara. Nele, cabe todo um microcosmos, pequenos gestos que de tão significativos acabam se tornando parte imprescindível do espetáculo.

Não é com olhos de raios-X que se desvenda os mistérios do mundo. Os mistérios profundos dormem pacificamente entre o piscar das pálpebras. Moram silenciosos nos sons que só ouvidos pensantes podem captar. Os mistérios profundos, aqueles que não se dilatam em grafias ou fonemas, só podem ser observados com os olhos de dentro e talvez seja por desmedida bondade e empatia que Bruna Moraes nos empresta os seus.


Jocê Rodrigues

Escritor e editor .
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