Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Brasil Esquema Novo: Kristoff Silva

Em 2013 o cantor e compositor Kristoff Silva lançou "Deriva", um disco emblemático, com experimentações sonoras de altíssimo nível. Uma aproximação arriscada e real entre Björk, Thom Yorke e canção popular.


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E tudo é imensidão, profundo abismo de texturas sonoras que estendem seus tentáculos para além de um porto que ficou para trás. Momentos antes do mergulho, era a espera que traçava a existência, resumindo a vida em um olhar para o horizonte. Penélope à espera de Odisseu. Libertar-se é fazer de uma coisa outra, desenvolver potências que habitem o mundo e permaneçam ali até a chegada do inexorável fim. Após o salto há o momento de suspensão e, por instantes, tudo é eterno, pois não existe mais a forma precisa e determinada de conhecimento no instante do mergulho (submersão do ser-eu-mundo em algo maior, que não cabe nos jogos de sentidos convencionais).

O segundo disco de Kristoff Silva é um exercício de iminência das poéticas (como o projeto estrutural que Luis Pérez-Oramas trouxe para a trigésima Bienal de São Paulo, a qual, aliás, teve uma das quatro zonas de curadoria nomeada de Derivas. “A iminência representa o que está a ponto de acontecer, a palavra na ponta da língua, o silêncio imprevisto que antecede a decisão de falar ou de não falar, a arte como estratégia discursiva e a poética em sua pluralidade e multiplicidade”, define o curador), um entrelaçamento de ideias e discursos intuitivos capaz de dar forma a uma constelação de sensações.

O título do CD é como uma faca de dois gumes, podendo significar estar a esmo e também derivações, deixando então uma indefinição que funciona como afirmação de que a incerteza é necessária, já que através dela podemos ter a liberdade de locomoção e de escolha.

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Partindo de experimentos mais ousados e de flertes com a música de artistas como Björk, Dirty Projectors e Thom Yorke, Kristoff Silva chega a uma canção híbrida, que carrega um forte lirismo popular em meio a um intenso trânsito de programações eletrônicas quase orgânicas, agora bem mais evidentes que em seu primeiro disco. Ora concreto, ora abstrato, “Deriva” possui também um pensamento espacial, o mesmo tipo de pensamento que autores como Helsinger e Hunt atribuíam ao crítico de arte inglês, John Ruskin. Esse pensamento se caracteriza pela justaposição de assuntos, por sua abertura para a associação entre temas distantes e pelo uso de metáforas. De fato, há alguma simultaneidade nas onze canções do álbum, ricas e alargadas em umas, escassas ou inexistentes em outras, mas ao fim está a coerência construída pela potência, lâmpada de maior radiação e intensidade no disco. Seus padrões fluídicos e cores tornam sua música um espaço-tempo onde o onírico caminha lado a lado com o real. A rigidez do studium de algumas estruturas não desvirtua o punctum. O corte na carne é imediato. As paisagens sonoras de “Deriva” exigem outro tipo de percepção e participação do ouvinte, principalmente aquelas soundscapes que possuem seu ponto forte nas programações de Pedro Durães e do próprio Kristoff. São densas e vivas as suas formas e, sendo assim, necessitam de quem as escute como organismo, não como algo estático e sem vida.

A potência do intérprete é também mostrada em um nível bastante elevado. Kristoff Silva não é autor de nenhuma letra de Deriva (todas são frutos de parcerias com os compositores Mauro Aguiar, Bernardo Maranhão, Makely Ka e Luiz Tatit, nas quais foi responsável “somente” pelas músicas, além do cover de Acrylic on Canvas, da Legião Urbana). A exemplo de Leonid Mozgovoy – ator russo que interpretou de maneira prodigiosa Hitler e Lênin, dois grandes símbolos de forças politicamente opostas em teoria, na Tetralogia do Poder, do cineasta russo Alexander Sokurov –, o intérprete vira casa ampla, habitável às mais variadas formas de consciência, espaço de circulação do micro e do macro e, assim como o excepcional Mozgovoy, a casa erguida de poéticas na voz e no corpo de Kristoff não tem forma simplista e utilitária, assemelhando-se mais com fenômenos visuais como a Casa Battló, do arquiteto catalão Antoni Gaudí, com suas cores e traços fluidos. Uma habitação que está além do funcionalismo histérico que muita gente ainda insiste em atribuir ao fazer musical, que vai de encontro à beleza e durabilidade quase impossíveis em tempos tão rápidos e rasos.

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Para além das fronteiras convencionais, o disco tem sido apresentado como uma sessão de cinema, onde o público se senta e faz uma audição coletiva do disco na íntegra, um modo de fazer com que as pessoas parem e realmente prestem atenção no que estão ouvindo. Outra curiosidade é que o disco é dividido em lado A e lado B, como em um vinil. Basta ao ouvinte prestar atenção e saberá o porquê dessa divisão. “Deriva”, disco sensível e desafiador, fruto de uma mente versátil e arrojada, que instiga o ouvinte ao mergulho através da combinação de arranjos inteligentes e letras de bom gosto.

Ouça o disco na íntegra:


Jocê Rodrigues

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