Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Brasil Esquema Novo: Ully Costa

Repleto de elementos afros e indígenas o primeiro disco solo da Cantora Ully Costa tem uma aura que se harmoniza com o momento atual da música brasileira.


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O primeiro disco solo de Ully Costa pode ser interpretado como uma afirmação e interrogação pessoal de identidade. Já no título dele temos o desafio de identificação: “Quem Sou Eu”, com ou sem interrogação? Os dois, afirma a cantora que já está há mais de 11 anos à frente do grupo Sandália de Prata. Essa afirmação ou interrogação (dependendo de onde e de como se olha e se lê) parece participar da formação não só de um indivíduo enquanto habitante de um território, mas também desse território em si. A voz como elemento condutor do DNA de todo um povo, que canta as belezas naturais e espirituais com força e elegância.

Repleto de elementos afros e indígenas o trabalho tem uma aura que se harmoniza com o momento atual da música brasileira. Os traços de sua passagem sonora são cores e reflexos de fenômenos naturais, como o trovão, a chuva ou o vento. Na linguagem do disco um toque de Ilê, como se estivéssemos participando de suas festividades, como convidados e agentes do sagrado. O fluxo da canção repleta dessa energia d’África atravessa o corpo de forma horizontal, sem construir uma hierarquia das emoções. O nivelamento do espírito com o corpo através do canto não é um acontecimento novo por aqui, é verdade, mas pouco se fala sobre esse fenômeno. Não se trata da tão discutida e, a meu ver, pretensiosa morte da canção, pelo contrário; esse nivelamento mostra o quanto as complexas conexões que formam a canção enquanto movimento do espírito estão presentes na contemporaneidade e que ela, a canção, está longe de ser uma manifestação agonizante e ultrapassada (viva e pulsante em figuras como Sérgio Santos, César Lacerda, Kristoff Silva, Pablo Castro, Thiago Amud, entre tantos outros).

O disco de Ully Costa traz em si uma intensidade quase metafísica, talvez pelo tema das religiões de matriz africana ser recorrente. Um trabalho capaz de acrescentar muito a esse debate, embora eu prefira usufruir de seu lirismo e beleza sem objetificar, afinal, não é ciência o que estou a fazer. Longe disso. Não há uma proposta formal, apenas um exercício de perceber a música atual, a palavra e seus adornos sonoros como corpos capturados pela lente de uma câmera que grava em plano sequência. Meu intuito é justamente não interromper o fluxo de interação entre obra e receptor com apontamentos que não sejam de cunho singular, que não partam da minha experiência de habitação da obra. Cada ouvinte é um mundo, um universo em movimento para o qual cada nota pode soar inteiramente diferente.

Ully Costa - cred Gabriel Matarazzo - 3.JPG Foto de Gabriel Matarazzo

Um mergulho no outro: eis a beleza de “Quem Sou Eu”. A origem do nome não poderia ser mais emblemático: surgiu da canção de mesmo nome do antológico Krishnanda, de Pedro Santos. Uma imersão em uma narrativa que de várias formas conta sobre a formação de um ser. O outro que constrói a mim mesmo através do olhar e do toque. De fato, quem nos constrói Ully Costa são seus parceiros compositores para os quais empresta voz. A imagem (letra, o elemento visível) que só se manifesta de maneira efetiva no som (voz, elemento invisível). Há gigante beleza nesse movimento. Beleza de aprendizado e ensinamento manifestos em sua potente voz.

A direção musical é de Leonardo Mendes o disco ainda é recheado de participações especiais de nome de peso como Yaniel Matos, Curumin e Zé Nigro (na ótima Olhos D’Água), Jorginho Neto, DJ KL Jay, Marcelo Pretto, entre outros. Para quem quiser conferir, “Quem Eu Sou” pode ser baixado gratuitamente no site da cantora.

Ouça o disco na íntegra:


Jocê Rodrigues

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