Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Tudo o que você precisa saber sobre Butoh

João Roberto de Souza (João Butoh) é o nome de maior peso na América Latina quando o assunto é Butoh, o estilo de dança criado no pós-guerra por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno. E para esclarecer qualquer dúvida e curiosidade sobre essa arte tão peculiar, nada melhor do que uma entrevista com quem entende do riscado.


_MG_9171.jpg João Butoh por Boaz Zippor

João Roberto de Souza, ou simplesmente João Butoh, é ator, bailarino, coreógrafo, figurinista, professor, mestre de butoh e um criador incansável, que ama o que faz e vive de acordo com o que acredita, transformando vida e arte em uma mesma coisa. Fundador e diretor da Ogawa Butoh Center, onde desenvolve espetáculos autorais de grande beleza e profundidade; reconhecido como um dos grandes nomes do butoh no mundo e o maior expoente na América Latina, João Butoh, em uma entrevista rica em importantes detalhes para a compreensão do estilo, nos conta como foi seu início nas artes, sobre a criação do método Aiar e também nos detalha os acontecimentos históricos que levaram à criação do butoh por Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno. Se você não conhece, ou conhece pouco e ainda não sabe direito do que se trata o butoh, essa entrevista, feita por mim para a edição 01 da revista Vermelho!, poderá elucidar muitos pontos, sanar muitas dúvidas e fazer com que você talvez se apaixone perdidamente por essa expressão artística tão próxima da nossa condição humana.

João, gostaria que você começasse por contar-nos um pouco sobre o surgimento do butoh, os propósitos sobre os quais ele foi erigido.

O surgimento do butoh está ligado diretamente ao fato da história da Segunda Guerra Mundial o qual destruiu as cidades de Hiroshima e Nagasaki por meio do bombardeio pelos americanos com duas bombas nucleares, dando fim a seis meses de intenso bombardeio em 67 outras cidades japonesas. Este fato histórico é recheado de um montante de detalhes que levaram ao detonamento destas armas nucleares.

Em um discurso em rádio nacional em 15 de agosto, o Imperador Hirohito anunciou a rendição ao povo japonês, e esta foi a primeira vez que os japoneses ouviram a voz de seu Imperador. Com a rendição do Japão, assinada em 2 de setembro de 1945 pelo Ministro das Relações Exteriores do Japão Mamoru Shigemitsu a bordo do USS Missouri, o Japão entraria em um período conhecido como Ocupação do Japão, que se seguiu após a guerra, liderado em grande parte pelo General do Exército dos Estados Unidos Douglas MacArthur, a fim de revisar a constituição japonesa e desmilitarizar o Japão. A ocupação americana, com a assistência econômica e política para reconstrução do país, continuou até a década de 1950. As forças aliadas ordenaram ao Japão a abolição da Constituição Meiji e a promulgação da Constituição do Japão, e então renomearam o Império japonês para Japão, em 3 de maio de 1947. O país adotou um sistema político baseado no parlamentarismo, enquanto o Imperador passou a ter um status apenas simbólico.

Paralelo a isso, Tatsumi Hijikata, criava e desenvolvia ações teatrais, performáticas, na década de 40, em pleno período de guerra. Quando o Japão do pós-guerra no período da ocupação sofreu uma invasão cultural por parte do ocidente - o rock and roll, a coca-cola, o vestuário, foi um momento de ruptura ao pensamento de ocidentalização do país. Hijikata e seus seguidores: poetas, artistas plásticos, escritores, arquitetos se lançaram a espaços marginais e pelas ruas do submundo de Tóquio em manifesto que condenava a ocupação americana e a perda dos valores nacionalistas.

Já no final da década de 1950 quando também se findava a ocupação, essa forma marginal de expressão, como era considerada, já era conhecida como Ankoku Butoh, dança das trevas. Hoje simplesmente Butoh. Os sobreviventes do bombardeio sobre Hiroshima e Nagasaki são chamados de hibakusha, uma palavra japonesa que é traduzida literalmente por "pessoas afetadas por bomba". O sofrimento causado pelo bombardeamento foi a raiz do pacifismo japonês do pós-guerra, e foi também uma das pilastras a qual foi construída a estética do butoh. Os corpos decrépitos, a maquiagem melancólica e empalidecida, a ausência dos pelos, tudo lembra os hibakushas e as vítimas desta tragédia.

Você vem trabalhando com esse estilo de dança desde 1983, trabalhava com outros estilos anteriormente?

Sim tenho formação eclética, não uso só o butoh como expressão do corpo, trabalho com teatro de dança e como artista me envolvo em outras técnicas e artes, não só com as artes cênicas, estou sempre procurando aprender novas técnicas não importa em que área de atuação das artes. Relacionada a dança, já passei pelo flamenco, jazz dance, moderno, ballet clássico, folclore. Tenho uma inquietude interior que não me deixa ficar parado nenhum momento do meu dia e noite, estou sempre estudando, pesquisando nas mais diversificadas áreas e vertentes. O que vem obviamente a dar mais suporte para as respostas que eu tenho para apresentar por meio da minha arte.

_MG_9334.jpg João Butoh por Boazz Zippor

De que maneira o butoh entrou na sua vida e o que mudou a partir de então?

Aprendi teatro observando meu pai que foi ator, palhaço de circo e radialista e aprendi a costurar com a minha mãe. Aos 7 anos eu já fazia teatro e dança e produzia meus próprios espetáculos. Acredite, reunia os amigos na rua de casa e fazíamos encenações sobre vários temas, chamávamos de cirquinho e o ingresso era um palito de fósforo. Na escola não era diferente, estava sempre ausente da sala aprontando alguma encenação para festividades cívicas. Sempre fui um bom aluno, mas a arte tirava o meu foco dos estudos convencionais. Não sei se isso foi um problema na escola, mas sei que terminei o ensino médio fazendo exatamente igual ao meu início no Parque Infantil - projeto educacional que se espalhou pelo Estado de São Paulo com concepção pedagógica de educação infantil desenvolvida por Mário de Andrade. Meu período no Parque Infantil da minha cidade me propôs a experiência de experimentação em diversas artes: dança, teatro, música, pintura, etc. Essas experiências colocavam as crianças sempre como protagonistas.

O Teatro e a dança sempre foram meus companheiros inseparáveis, já fazendo Universidade, apresentei uma obra que fez a abertura da exposição “Hiroshima Paz” em Presidente Prudente no início da década de 1980, a cidade recebeu um vasto acervo do Museu da Paz de Hiroshima e dentre vários técnicos que vieram para a montagem, uma senhora japonesa após assistir a apresentação me perguntou onde eu prendera o butoh. Foi o ponto de partida para uma verdadeira ilíada, por sorte havia parentes morando no Japão, a quem recorri e recebi as primeiras informações vercionadas para o português. Fiquei obcecado por isso.

Além de um grande pesquisador você é também criador do método de dança chamado Aiar Butoh, no que ele consiste e como foi desenvolvido?

Essas informações que chegavam por carta, foram alimentando uma imaginação onde as imagens das fotografias induziam as formas corporais dos nossos primeiros trabalhos. Na tentativa de compreender isso, fiz uma viagem histórica a cerca de Kazuo Ohno, após tê-lo visto em um filme ainda no início dos anos 1980 sobre o Festival Internacional de Nancy. A identificação foi instantânea, eu sabia que aquele senhor era Kazuo Ohno. Eu tentei passar pelas mesmas experiências que ele para compreender aquele corpo que eu avistei pela primeira vez com movimento. Estudante de Educação Física da UNESP na época, eu continuava cercado por pessoas que adoravam as artes cênicas, fora e dentro da Universidade. Na mão manuscritos e cartas de incentivo e apoio.

Foi por este motivo que surgiu a necessidade de uma unificação estética para os corpos em cena, mesmo sendo estudantes de educação física, nossas experiências derivavam das mais diferentes áreas e atividades. Eu sou formado em ballet Clássico e foi por meio dele que pensei e desenvolvi este método que nada mais é do que ferramentas corporais para qualificar esteticamente os atores e bailarinos para as obras coreográficas que se desenvolveram desde então.

A estrutura física corporal humana, voltada para este trabalho muscular, visava por meio de jogos buscar a utilização dos meios de expressão do corpo e do movimento para práticas coreográficas. Os exercícios se desenvolveram buscando então vários elementos e ensinamentos de diversas áreas para o desenvolvimento da consciência - trabalho da imagem - força e flexibilidade - mente e corpo - alinhamento - energia dinâmica - coordenação - precisão - concentração - gravidade – respiração, etc.

Kazuo Ohno disse que cada dançarino possui seu próprio Butoh e que é singular em cada pessoa. Michael Sakamoto descreve-o como não apenas uma dança, mas uma maneira holística de performance, um modo de vida. E para você, o que é butoh?

É exatamente isso, essas experimentações receberam o nome de Aiar Butoh. Aiar do tupi guarani que quer dizer – “colher sementes para plantar depois”. Temos além da nossa cultura um outro processo físico corporal a oferecer, esse é o nosso butoh, que vem a ser uma releitura do mesmo, uma vez que trabalhamos sobre a essência deste e respeitamos as nossas verdades interiores, que vem a ser as nossas experiências de vida. Não basta pintar o corpo de branco.

Cada intérprete do butoh o tem como uma verdade única é o que o mestre Kazuo Ohno queria dizer. Ele nos ensinou que a performance, mesmo sendo improvisação, pode ter muita verdade. E é tão valiosa como um espetáculo concebido e trabalhado detalhadamente. Ele fazia isso com mestria, usava toda a sua informação acumulada de uma vida toda.

O Butoh é uma grande parte de mim, que inclui físico, mente e espírito. Perdi o meu nome para a minha dança, ninguém mais me conhece pelo meu nome de batismo e sim por João Butoh.

Você conheceu Kazuo Ohno pessoalmente, certo? Pode nos contar como foi esse encontro?

Eu o conheci por meio da minha professora de figurinos em Berlin na Alemanha, ela havia morado no Japão e o conhecia de lá, quando o mesmo veio se apresentar em Berlin foi ela a sua cicerone. Eu estava hospedado em sua casa. E pude compartilhar de bons momentos.

Ele sempre falou em um volume baixinho e extremamente generoso. Nunca deixou de responder a nenhuma pergunta de ninguém, e muitas vezes em aula falava em seu ouvido pequenas frases que mais parecia um haikai. Tenho uma paixão e admiração por ele que desenvolvi e vou continuar desenvolvendo por toda a minha vida. Uma mescla de respeito e responsabilidade bem grande dentro do meu coração.

_MG_9520.jpg João Butoh por Boaz Zippor

Qual a relação que a dança butoh tem com o expressionismo? O que é devido ao segundo e o que foi expandido pelo primeiro?

O que podemos observar em várias obras cinematográficas alemãs, é que elas têm como regra a maneira exagerada na representação dos atores, um mundo idílico e sombrio da alma que se estende aos cenários e o duelo entre as trevas e a luz, representado pelo contraste e a fotografia recortada. Buscavam a representação interior humana, suas angústias, sonhos e fantasias. Esses elementos tinham maior importância do que os apresentados na realidade objetiva. E podemos ver isso em obras de dois grandes representantes deste período e que influenciaram o mundo na década de 1930 - Robert Wiene e Fritz Lang. Tatsumi Hijikata imputiu em sua estética esta maneira exagerada de representar, trágica, sombria, dramática e subjetiva. A performance propunha uma ruptura com toda a elegância, refinamento e delicadeza da arte tradicional milenar japonesa.

Sabemos também que Hijikata recebeu enorme influência de Antonin Artaud por meio de sua obra literária Le Théâtre et son Double.

_MG_9349a.jpg João Butoh por Boaz Zippor

Você é presidente da Ogawa Butoh Center, como ela surgiu e quais são os trabalhos que são realizados nela hoje?

A Ogawa surgiu na necessidade da criação de uma sede para todo o trabalho que eu já estava realizando há passados 14 anos. Morava na Alemanha e fui convidado a ser Secretario de Cultura em meu município – São Simão - SP, e para não interromper meu processo artístico, e o contato com os estudantes de butoh, transformamos a entidade em natureza jurídica sem fins lucrativos, para que por meio dela conseguíssemos desenvolver projetos artísticos, culturais, educacionais e projetos voltados para o meio ambiente. São Simão é a cidade mais antiga da Região de Ribeirão Preto, foi muito rica até o Século XIX em detrimento ao Ciclo do Café, em 1896 teve a primeira epidemia de febre amarela, ocasionando o início do declínio econômico do município.

A Ogawa desenvolve projetos para a preservação dos casarios, do patrimônio histórico deixado por vários imigrantes de origem alemã, inglesa, americana, japonesa, dentre outras. Projetos de proteção ao meio ambiente sejam para o Morro do Cruzeiro ou a mata ciliar na Prainha do Rio Tamanduá. Trabalhamos com artes cênicas com idosos no Grupo Delirivm Teatro de Dança que está completando 27 anos e com crianças no Grupo Folclórico Zilda Pereira Portugal desde 1997. Além dos eventos que realizamos anualmente, o Butoh Inside Movement Series e o Shakespeare in the Streets – Mostra Internacional de Teatro de Rua.

Sinto como se o butoh pudesse ser considerado um discurso de finitude, mas não como um fim seco, como a cor negra de Kandinsky, mas como a cor branca, que transborda possibilidades. A dança tem essa função de memento mori?

Sim o butoh já teve seu discurso de finitude com a morte de Kazuo Ohno, após 01 de junho de 2010, após a morte do mestre só teremos releituras de butoh. Podemos ver por meio da história da humanidade que a arte é imortal, ela se renova. Kazuo Ohno nos instigou por meio de seus discursos e exemplo de vida, que devemos alimentar a verdade que existe dentro de nós, a verdade essencial da vida, da arte, que transforma o ser humano para algo melhor, é como que se em meio e este memento mori, pudéssemos ter o controle de nossas vidas para que pudéssemos parar o tempo e tivéssemos suficientes oportunidades aqui neste “plano” para concretizar esse aprendizado mesmo com todos os nossos erros como seres humanos. Mas isso não acontece. A arte nos possibilita isso! Como o desenho do ensô, e pintado aberto, nos permitindo uma infinidade de possibilidades, mesmo com imperfeições que é um aspecto essencial e inerente da existência.

Quais outros artistas você acompanha e indica para uma percepção maior do estilo hoje em dia?

Como performance - Carlota Ikeda e sua Companhia Ariadone e Sankai Juku. Como referência Sensei – Koichi Tamano e Yukio Waguri. Não existem muitos praticantes desta arte, todos estão espalhados pelo mundo. Somos captados por essa força, como que se fosse um dom, um chamamento recebido aparentemente como em qualquer outra profissão. O que diferencia uns dos outros é a qualidade do trabalho que desenvolvem e apresentam. Isso é notado principalmente nos festivais internacionais, quando vários intérpretes se encontram e são colocados a apresentarem-se uns com os outros neste formato de panorama, vitrine.

Confira a homenagem de João Butoh a Kazuo Ohno


Jocê Rodrigues

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