Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Brasil Esquema Novo: Flavio Tris

Conheça o talento instigante de Flavio Tris, que faz músicas repletas de imagens que inspiram a compreensão de códigos e símbolos que permeiam a esfera do convívio cotidiano e nos ajudam a identificar o sentido profundo das coisas simples da vida.


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A canção funciona da mesma forma que o mito, faz parte de sua composição. Produz sentido e também transmite informações sobre a fundação da cultura de um povo. Por isso a canção é o tema dessa série. Sua profunda complexidade e polissemia levantam questões de grande importância para o mapeamento de uma trajetória humana que nada tem de linear. Seria supostamente mais fácil datar e nomear, falar sobre as décadas de 60 e 70 no disco de estreia do cantor e compositor Flavio Tris, mas, particularmente (sim, uso vírgulas com certa frequência e estou pouco me importando sobre a atual e patética discussão sobre o uso das mesmas), prefiro colocar o efeito sinestésico da sua música em primeiro plano.

A música de Flavio Tris traduz bem a força sígnica da canção. Com um disco lançado em 2013 (precedido por um EP em 2011), suas composições são repletas de imagens que inspiram a compreensão de códigos e símbolos que permeiam a esfera do convívio cotidiano, suas canções ajudam a identificar o sentido das coisas. Não estou falando da resposta para o sentido da vida, não. Me refiro àquelas pequenas coisas que nos ocupam diariamente, como o conforto de um abraço ou relaxamento de um banho quente – não a sensação de um banho quente, mas o delicado aproveitamento que geralmente fazemos desse tempo de reclusão, seja cantando Sinatra ou, no meu caso, Marcelo Camelo.

Na voz desse interessantíssimo artista é possível sentir ecos de um exímio contador de estórias.

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Quando eu era criança gostava de ouvir os causos que minha avó contava com tanto esmero, parecia que cada palavra que saia da boca dela imediatamente tornava-se cenário na minha frente. Com o compositor em questão acontece a mesma coisa. Claro que as estórias são outras. Enquanto minha avó contava sobre as corriqueiras assombrações das fazendas da velha Bahia, incluindo personagens que de tão ricos em sua gênese ainda hoje me causam espanto, Flávio vai buscar soberbas cenas nas profundezas da palavra. Seu estilo refinado de contador fica evidente nas faixas Sereia da Noite e Asa de São João, enquanto o poético e profundo lado cantador se mostra em músicas como Pra Ver a Voz, Fotografia e Alento Noturno. São diversos os ritmos explorados por ele, mas dois elementos constantemente se fazem mais fortes: sua voz macia e aveludada e sua personalidade na interpretação das letras, que de tão versátil o faz ir do bolero à Tropicália sem o menor problema.

Já faz algum tempo que quero escrever sobre o trabalho de desse talentoso artista, mas nunca consegui, até este momento. Agora, aproveito para me satisfazer escrevendo esse texto sobre o talento de alguém que musicalmente me instiga a pensar sobre os caminhos da música feita por aqui, no poder de síntese da canção, essa força movente presente em nosso espírito. Afinal, a canção é a personagem principal dessa série. Ela e todo o conjunto de fenômenos presentes em sua existência.

O disco, que pode ser baixado gratuitamente no site do Flavio, foi produzido por Alê Siqueira e conta com as participações especiais de Tulipa Ruiz, Filipe Catto, Celso Sim, Juliana Perdigão, Leo Cavalcanti, Luca Raele e Luiz Gabriel Lopes; além dos constantes companheiros Maurício Maas (acordeon e bateria) e Tchelo Nunes (baixo e violino).

Ouça o disco na íntegra:


Jocê Rodrigues

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