Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Brasil Esquema Novo: Thaïs Morell

Thaïs Morell desperta nossas emoções. Sua voz é força que produz sentidos, emissora de signos responsáveis pela construção de belas imagens sobre um Brasil ainda hoje em processo de autodescobrimento e em tortuosa construção.


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Até onde pode nos levar o som? Não, não é uma pergunta retórica, eu realmente gostaria de saber se alguém já chegou tão fundo nessa questão a ponto de esclarecê-la de maneira completa. Pensando melhor, não. Não quero repostas. Melhor mesmo é sentir a questão relutar no fundo do peito. Junto com outras tão importantes quanto: de onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido do ser? Etc.

Eu realmente não busco respostas definitivas, prefiro a quase mística experiência da música. Basta um olhar mais atento sobre o assunto para vermos o quanto ela está ligada à existência humana, sendo parte de grande importância em nossa formação enquanto espécie e seres simbólicos, como já escrevia Ernst Cassirer. A música faz parte de nossa linguagem, não é algo à parte, guardado em uma caixa que abrimos e fechamos sempre que queremos. Antiquado? Talvez. Verdadeiro? Ao menos para mim.

Nessa linha de pensamento, o encontro com o disco “Cancioneira” da curitibana Thaïs Morell, lançado em 2012 pelo selo Sedajazz Records, foi dos mais felizes. A qualidade artística, aliada a uma técnica vocal e violonística impecáveis, faz de sua música um bálsamo.

Já no título do disco há a menção ao posto de alguém que usa a voz para desenhar céus e terras, que fala dos medos e esperanças de um povo, de uma raça, de uma espécie. A distância entre o canto e a fala parece curta quando observada com os óculos errados (como observar um micro organismo com um telescópio, por exemplo), mas a mesma torna-se imensa quando usamos os aparelhos corretos. Não se trata de objetos de medição, nem mesmo de objetos físicos. Me refiro a aparelhos ligados às tecnologias da inteligência, um fantástico conceito criado e discutido pelo filósofo Pierre Lévy em seu livro As Tecnologias da Inteligência (Editora 34, 2010). Do mesmo modo que falamos de tecnologias da inteligência dá pra falar também de tecnologias espirituais, para isso basta lembrarmos, só para citar um exemplo, dos obeliscos do Egito antigo, que tinham como principais funções a captação dos raios do deus sol e transmissão da história e conquistas dos faraós, seus representantes na terra.

Mas, por que estou falando de tecnologias, sejam elas da inteligência ou espirituais? Talvez porque eu tenha perdido o senso crítico e o fio da meada e queira apenas fazer citações, ou, talvez eu esteja tentando de um jeito meio torto falar das profundas significações que fazem girar as engrenagens dessa máquina ontológica que é o homem em um contexto que abarca não somente a experiência puramente auditiva, mostrando que os estímulos musicais também estimulam a ativação de uma grande rede semântica a qual Lévy nomeou de hipertexto.

Ao ouvirmos um som ativamos em nossa mente uma rede de conceitos e modelos que nos fazem identificar o significado desse som, tarefa que é facilitada pelo contexto. Se ouço o som de uma sirene de ambulância consigo de antemão identificar que alguém precisa de cuidados médicos. Se o alarme de incêndio dispara, reajo imediatamente conforme as medidas de segurança para um prédio em chamas, e assim por diante. O contexto é a base do hipertexto, pois é ele o responsável por selecionar os nós que irão emergir em nossa consciência.

Thaïs Morell desperta nossas emoções. Sua voz é força que produz sentidos, emissora de signos responsáveis pela construção de belas imagens sobre um Brasil ainda hoje em processo de autodescobrimento e em tortuosa construção.

Ouça o disco "Cancioneira" na íntegra:


Jocê Rodrigues

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