Jocê Rodrigues

Escritor e editor.

De Uma Estrela Para Outra

A cantora e compositora campo-grandense Thamires Tannous acaba de lançar o seu primeiro disco, “Canto para Aldebarã”, com produção e arranjos de Dante Ozzetti e um tempero pra lá de especial.


Thamires_por_ Mariana Caldas.jpg Foto por Mariana Caldas

Aldebarã é a estrela alfa da constelação de Touro, sendo essa a sua estrela mais brilhante. Trata-se de uma estrela gigante vermelha com cerca de 45 vezes o diâmetro do Sol e que está situada a aproximadamente 65 anos-luz de nós. Além de estar entre as 15 estrelas mais brilhantes do céu, essa estrela carrega consigo diversos significados importantes dados por inúmeros povos, dos antigos babilônios aos hindus. Seu nome vem de uma palavra árabe (al-dabarān) que significa “aquele que segue”, assim nomeada porque seu aparente movimento no céu noturno parece seguir o aglomerado estelar aberto das plêiades (também conhecidas como Sete Irmãs ou Sete-Estrelo).

Calma, você não se enganou de artigo, é sobre música que estou falando: o que de forma alguma me impede de falar de outras mil coisas junto a ela. O que acontece é que para mim seria impossível falar de Canto para Aldebarã (Borandá), primeiro disco da cantora e compositora Thamires Tannous, sem me embrenhar na riqueza e na polissemia que o seu título proporciona. A começar pela tônica árabe que ele carrega, derivada da raiz de seu nome. A ousadia é grande e o seu desenvolvimento e execução em nada dificultam uma plena fruição do trabalho, que começa já com um inflamado solo de derbake, executado pelo percussionista libanês William Bordokan, que se encarrega de toda cama percussiva do disco, tocando também daff, maktoum e bandir. A música Canto para Aldebarã é uma ponte de prosódia que nos faz atravessar o continente e opera também um certo escambo, levando, por exemplo, frevo suave e trazendo temperos rítmicos árabes: Marco Polo tropical a reinventar a Rota da Seda.

Músicas como Gramática do Mar, Delicadeza, Terra de Sonhos e Mar de Ló reforçam o aspecto cultural híbrido dado ao álbum. Vale dizer que uso o conceito de hibridez como apontado por Néstor García Canclini em seu excelente livro Culturas Híbridas (Edusp, 2006), de uma forma em que não estão excluídas contradições e singularidades. O som envolve, surpreende pela sutileza e pela acuidade. O resultado de tanto primor é um disco que pode agradar tanto aos ouvidos mais tranquilos quanto aos mais exigentes – a sua potência é includente, nunca o oposto.

Parece que o que ouvimos é o canto de uma estrela para outra, um balançar de voz que não se dá conta ou não se importa com os 65 anos-luz que a separa de seu destino. Atemporal, portanto. Não é a chegada que importa, é o caminho; o percurso lento e prazeroso que se desenha enquanto o som caminha. Que me importa o fato de que o som não se propaga no espaço? Usemos a imaginação, oras! Não há limites para ela, ela tudo pode. Qualquer canto é imortal e por isso não deve temer o tempo. Deve apenas soar e ser.

Mariana Caldas.jpg Foto por Mariana Caldas

Thamires Tannous, sob a batuta do premiado e conceituado Dante Ozzetti – responsável pelos formidáveis arranjos –, dá um toque feminino a esse trajeto (a metáfora da viagem persiste), torna-o suave e faz nossos ouvidos dançarem, seduzidos como dervixes rodopiantes em um poema de Rumi:

“Vem,

Te direi em segredo

Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar

E os grãos de areia do deserto Giram desnorteados.

Cada átomo

Feliz ou miserável,

Gira apaixonado

Em torno do sol."

Participam do disco, além do próprio Dante, outros nomes de peso como Toninho Ferragutti, Ricardo Herz, Sérgio Reze e Ivan Vilela. As letras também trazem parcerias importantes da cantora com Estrela Leminski, Tiago Torres da Silva, Kleber Albuquerque e Luiz Tatit. Canto para Aldebarã pode ser baixado gratuitamente no site da cantora e também pode ser comprado na loja virtual da Borandá.

Ouça o disco na íntegra:


Jocê Rodrigues

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