Jocê Rodrigues

Escritor e editor

Olhe Bem Para as Montanhas

O fotógrafo polonês Artur Stanisz nos presenteia com imagens incrivelmente sensíveis de suas viagens por regiões como Patagônia, Colúmbia Britânica e Yukon. São mais que imagens: são mosaicos que nos dizem muito sobre o olhar.


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Não se trata de falar apenas de uma série fotográfica sobre as mais belas montanhas capturadas pela lente de uma câmera. É também sobre o ato de ver, de sentir e de se conectar com a beleza de uma paisagem que reflete muito mais que formações rochosas, mas também o nosso estado de espírito.

Assim como as montanhas, nossas paisagens emocionais são moldadas pelos ventos, pelas chuvas, deslizamentos, enfim, por diversas condições climáticas a quais somos expostos no decorrer da vida. Essas paisagens podem ser deslumbrantes e cobertas de raios de sol, assim como também podem ser mais obscuras, cobertas de sombras, sem nunca perder o poder de encantamento que carregam em si. Estão em constante e lenta mudança. Um passo de cada vez, sem pressa. Um ritmo que não dá pra acompanhar com os olhos apressados que herdamos na contemporaneidade. É preciso paciência. Como no amor, é preciso paciência, pausa, vírgula e reticência.

É o senso de finitude que nos faz congelar quando estamos diante da imensidão silenciosa de uma força impossível de ser vista por um único ângulo. É como o canto das sereias, envolvendo os sentidos e nos retirando da realidade vulgar. A diferença é que não é trágico o fim. Ao invés de afogamentos, profundos mergulhos em mundos naturalmente perfeitos – sim, no plural, já que são muitos os biomas que podem ser encontrados em regiões montanhosas.

O fotógrafo polonês Artur Stanisz nos presenteia com imagens incrivelmente sensíveis de suas viagens por regiões como Patagônia, Colúmbia Britânica e Yukon. São mais que imagens: são mosaicos que nos dizem muito sobre o olhar.

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É importante saber enxergar, exercer a potência da visão da maneira mais plena possível e, para muitos, a sensibilidade é parte importante do processo. A visão é condicionada pelo social, por nossas experiências e também por nossa disponibilidade para olhar, claro (sem contar que nossa memória afetiva conta e muito na hora de apreciar uma paisagem ou as estrelas do céu).

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PS: O título do artigo foi inspirado no nome do terceiro disco do cantor, compositor e instrumentista mineiro Alexandre Andrés lançado nesse ano, o Olhe Bem as Montanhas, um trabalho de muito requinte, com letras do poeta Bernardo Maranhão, que combina como ninguém o lirismo oriental com a poética brasileira. Outra dica, também musical, é o disco recém-lançado do cantor e compositor Bernardo Puhler (vocalista e compositor do grupo Músicas do Espinhaço), chamado O Alumbramento de um Guará Negro numa Noite Escura (disponível para download gratuito aqui), que, entre outros temas, explora o lado subjetivo e íntimo de quem tem gosto em caminhar por cenários magníficos e carregados de encanto e mistério. Enfim, dois discos que nos proporcionam o mergulho do qual falei mais acima e uma chance única para quem quer se embrenhar por caminhos sonoros tão estonteantes quanto os visuais captados por Artur Stanizs.


Jocê Rodrigues

Escritor e editor .
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