Jocê Rodrigues

Escritor e editor.

A Excelência Estética de Yoann Lemoine

Que o chamado Pop Barroco está muito bem representado por grandes artistas como Antony and The Johnsons, Bon Iver, Arcade Fire e Feist é inegável, mas Yoann Lemoine, o homem por trás do Woodkid, parece querer ir além e aposta pesado em sua competência nas artes audiovisuais.


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Yoann Lemoine é um fotógrafo, diretor, designer, cantor e compositor francês que vem dando o que falar, principalmente pela qualidade visual e profundidade estética de seus trabalhos. Ele já dirigiu videoclipes de artistas como Lana Del Rey, Taylor Swift, Lolita Lempicka, Kate Perry e Woodkid (projeto musical capitaneado pelo próprio desde 2011 e que teve seu disco de estreia, batizado de The Golden Age, lançado em 2013). Em todos eles é notável a sensibilidade com que trata a fotografia, transformando a luz em um elemento de grande peso simbólico, fruto da influência direta dos diretores Terrence Malick e Wes Anderson.

Os seus conceitos visuais denunciam uma sensibilidade aguda, de cunho reflexivo, que se faz tangível e transborda até mesmo na aparente simplicidade de seu trabalho como fotógrafo, mas que tem a capacidade de revelar significados ocultos nos ambientes capturados, algo a ser dito e que está nas entrelinhas, escondido, ou melhor, sutilmente sugerido na luz.

Lux et Catarsis

Considero a existência de uma profunda poética da luz no trabalho de Yoann Lemoine e ela se estende pelas diversas mídias trabalhadas por ele com uma força ontológica que inspira considerações quase espirituais reveladas através da combinação sutil entre efeitos sonoros em arranjos apoteóticos e acontecimentos visuais que provocam emoções como euforia e êxtase.

É quase impossível não sentir-se inclinado a decifrar os códigos e símbolos que se mostram nos climas conspiratórios de vídeos como Iron – que foi o pontapé inicial do Woodkid –, I Love You, Run Boy Run e Born to Die (Lana Del Rey). Através de enredos minimalistas e do uso de simbologias, o criativo e inquieto diretor-artista absorve a atenção e também proporciona o prazer da contemplação, remontando ao conceito clássico de arte apoiado na ideia do belo e, muitas vezes, do grandioso. Aliás, esse conceito de grandiosidade é o fio condutor do Woodkid, seu trabalho musical que até o momento rendeu o disco The Golden Age, onde Lemoine põe em prática a unificação de suas habilidades musicais e visuais com maestria e complexa dramaticidade, apoiada nos arranjos executados pela Paris National Orchestra. Por seus caminhos – construídos com muita inspiração, vontade e refinamento –, guia ouvintes e espectadores com segurança, exibindo sempre grande sensibilidade e eloquência.

Sua relação com a música não pode ser separada do video, é algo orgânico. São os meios que se utiliza para falar de si, de suas experiências, dos problemas relacionados à transição da infância e da juventude rumo ao amadurecimento (fortemente presentes nas produções audiovisuais e sonoras do Woodkid) e da própria experiência de construir um discurso que seja pessoal e plural ao mesmo tempo, capaz de inspirar e impulsionar novas buscas e descobertas. Unido à sonoridade e à proposta visual do Woodkid está o significado dele, o que ele representa para o seu criador.

Segundo o próprio Yoann, The Golden Age foi concebido de forma a juntar fragmentos de imagens e histórias sobre as suas passagens e transições de formação, quase de maneira psicanalítica ou arqueológica. Acompanha a edição especial do disco um livreto com textos escritos pelo próprio artista com a ajuda de seu primo, com belíssimas ilustrações da artista Jillian Tamaki. Montado para assemelhar-se a uma bíblia, o livro traz histórias originais que complementam as letras do disco e são também complementados por elas, tudo com muito bom gosto e a ousadia de quem sabe muito bem o que está fazendo.

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Se o Woodkid parece ter data de validade, já que o cantor declarou em uma entrevista ao site Charts in France que há uma possibilidade do projeto musical encerrar suas atividades, é certo que os apreciadores das suas habilidades artísticas não ficarão desamparados, pois o rapaz está empenhado em escrever um filme para o cinema e com certeza ainda vai dar muito mais o que falar.

*Publicado originalmente na edição 02 da revista Vermelho!


Jocê Rodrigues

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