Jocê Rodrigues

Escritor e editor.

A Música e a Alma de Katerina L'Dokova

Com o lançamento da obra de Svetlana Alexiévitch no Brasil, a Bielorrússia tem ganhado destaque. Mas não só de Tchernóbil vive o país dono de uma cultura musical muito rica. A pianista e compositora Katerina L’Dokova, nascida em Minsk e residente em Portugal há dez anos, é responsável por mostrar parte dela para o resto do mundo.


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Delicadeza, essa palavra poderia definir bem o trabalho feito pela curiosa pianista de pele tão clara quanto um dia de verão. Sua música é leve e ao mesmo tempo profunda. Profundidade de rio que vai se alargando, estendendo suas margens, criando braços líquidos que se espalham terra-adentro, irrigando e fazendo brotar afetos em terras férteis.

Mulher múltipla, Katerina é idealizadora e participante de quatro projetos musicais: Singularlugar, Katavento, Mora Dreva e Ledok. No fim de 2016, passou pelo Brasil, para se apresentar em Belo Horizonte e São Paulo. Foi nessa ocasião que conversei com ela sobre sua carreira e sobre o lançamento de LEDOK seu primeiro disco.

Ela é filha única e teve o primeiro contato com a música brasileira mediado por um amigo da mãe (que também é pianista), quando tinha 17 anos. Foi com o disco Jobim, de 1973, que mãe e filha adoraram e passaram a colocar para tocar sempre que recebiam visitas.

“Naquele tempo ainda não tínhamos acesso fácil a internet e na verdade nem foi algo que me preocupava saber quem era o cara que compunha, quais eram os músicos. Fazia-me bem, e era suficiente. Quando fui para Portugal, passado uns 3-4 anos, ouvi esse disco em vários sítios e com acesso fácil à internet procurei mais. Então descobri a discografia. Depois foi a Elis, Maysa, Chico (Buarque), Edu Lobo, Caetano, Djavan, enfim... muita música”, lembra Katerina.

Já os músicos da atualidade brasileira, conheceu por acaso. Primeiro ouviu Alexandre Andrés, que descobriu no youtube ou soundcloud (não se lembra). Depois, LG Lopes, Gustavito (parceiro em uma das músicas do disco), Felipe Joseba e Jennifer Souza. Também gravou o disco Revoada, de Irene Bertachini e Leandro César (ainda sem data de lançamento).

Em suma, Katerina conhece mais música contemporânea brasileira do que muita gente. O que é um fato curioso. Tristemente curioso, aliás. Mas essa já é outra história.

Em seu primeiro trabalho é visível o gosto por ritmos tradicionais em seus arranjos leves e dançantes. A maioria das composições levam os nomes dos ritmos (valsa, chappeloise, mazurka e assim por diante). A dança, inclusive, possui um papel importante em sua vida de compositora.

Quando estava prestes a terminar o curso de piano clássico que fazia na Bielorrússia, a mãe de Katerina foi convidada a dar aulas em Graciosa, uma das ilhas dos Açores. Foi lá que sua paixão pela dança, principalmente as de origem européia, manifestou-se de vez. “Quando era criança, ate tentei ser bailarina. Mas não aguentei muito (risos). Nos açores fiz workshop de dança improvisada, contemporânea e ate andei nas aulas de dança do ventre”, conta a moça que tem apreço especial pela mazurka.

“É a dança que mais gosto. Lenta, se dança a pares. A dança apaixonada... Essas danças normalmente têm música bastante tradicional, gaita de foles, violinos, concertina e tal. Então achei bem escrever no piano”, explica. Também revela que costuma dançar enquanto compõe.

Além de movimento, a música de Katerina também é claridão, é poesia em forma de luz. Mas não luz escaldante, já que ela surge terna, envolvente e com maciez de seda. Feito luz de estrela, guia, dá norte e aconchego sonhador a quem se dedicar a olhar – nesse caso, a ouvir.

Katerina L’Dokova já está novamente em Portugal, mas basta colocar seu disco para tocar e perceber que ainda é possível olhar o céu da sua música e ver uma alva estrela brilhando, incessantemente brilhando, criando uma ponte sobre o mar que nos separa, levando-nos aonde quer que ela esteja.

Ouça LEDOK na íntegra:


Jocê Rodrigues

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