Jocê Rodrigues

Escritor e editor

A Memória dos Olhos

Vultos do Passado na Arte Presente de Estela Sandrini (parte 1)


Teca_Sandrini_Foto_Juliano_Sandrini.jpg Estela Sandrini. Foto de Juliano Sandrini.

Ato I: O Ateliê

São três da tarde de uma ensolarada segunda-feira e o ritmo de trabalho é intenso no pequeno e charmoso ateliê situado no Tarumã, bairro de Curitiba. O céu azul contrasta com a construção branca. Nas portas de vidro corrediças, a inscrição adesivada apresenta nome e função: “Atelier Estela Sandrini”. Simples, direto e sem floreio além do afrancesamento. O que acontece ali dentro dispensa enfeite de forma e de fonte ― coisa que se usa quando o conteúdo não sustenta o peso da proposta. Ali, tudo cabe. Vida, arte, direito e arquitetura se alinham como os planetas fazem em torno do sol.

Ao entrar, a primeira coisa que se nota é a grande e pesada prensa de gravura em metal que divide espaço com telas, tintas, pincéis e prateleiras apinhadas de livros de arte. Ao lado do gigante de ferro, Estela Sandrini, de 75 anos, conversa com Jussara Age, de 66, sobre a melhor cor a ser usada na pintura em que agora trabalha. No momento, são apenas alguns traços que atravessam as diagonais de uma tela de linho.

Por enquanto, o que se vê é cor e desordem numa superfície branca. Ainda falta o primeiro respirar, o primeiro batimento ao ouvido do mundo. Nas maternidades, a criança sinaliza vida quando sofre um choque térmico. Quando isso não acontece de pronto, basta uma manobra ou duas para pôr as coisas nos eixos. Nascer é sempre um negócio complicado, até mesmo para uma obra de arte.

Quando estiver pronta, devidamente criada e amadurecida, ela será exibida em exposições e mostras, até que alguém a compre e pendure na parede da sala ou do escritório, ao alcance dos olhos dos visitantes. Entendidos e curiosos irão sair ao menos um pouco modificados pelo encontro com uma peça que carrega o peso de um nome e de uma história como a dela. Uma história construída em meio a toda sorte de lutas e tribulações.

IMG_7633 Estela Sandrini SD ST 5(43)X109cm óleo s tela BX.jpg Estela Sandrini, sem título, óleo sobre tela, 5(43)X109cm. Foto de Juliano Sandrini.

Enquanto isso, risadas, anedotas e compreensão mútua. O clima do ambiente é embalado pelo pequeno aparelho de som no qual as duas se deleitam com músicas que as ajudam a desenvolver o trabalho para o qual nasceram. De moderno, só as obras dispostas nas mesas e nas paredes. Nada de bluetooth ou conexão com plataformas de streaming. Apenas CD’s são aceitos pelo caprichoso aparelho. Na estante ao lado, dezenas, talvez centenas deles ficam amontoados à espera para servirem de alento e inspiração.

A trilha escolhida para o dia é o fado. Uma voz aveludada e sofrida ecoa pelos quatro cantos. Pelo timbre, chego a pensar que se trata de Ana Moura, mas logo sou informado de que a cantora em questão é Carminho, também revelação da nova geração do estilo. Com voz marcadamente triste, ela dá o ritmo para o emaranhado de pensamento e técnica que correm como água no rio da criação dessas duas mulheres tão diferentes. Elas cantarolam. Não fosse a tinta fresca, daria para dançar e rodopiar.

Estela Sandrini ou Teca, como prefere ser chamada, é uma artista prestigiada, com um currículo invejável de exposições em Madrid, Buenos Aires, Nova York, Washington e várias outras cidades no Brasil e no mundo. Vencedora de diversos prêmios importantes, ocupa lugar privilegiado entre os grandes artistas paranaenses, mas tratou de preservar a humildade. Fala pouco de si mesma. Gosta mesmo é de ouvir, de conhecer. Tem gente que conduz carro, moto, bicicleta. Teca conduz conversas e ideias. E sabe fazer isso como ninguém. Faz perguntas certas, na hora certa. Responde com generosidade e elogia sem falsidade ou interesse.

Devido a uma doença degenerativa que a acompanha desde os nove anos de idade, ela possui apenas 5% da visão do olho direito. A esquerda ela perdeu aos cinquenta. Sua memória então se tornou o fio condutor da sua arte, de sua poética, que atualmente funciona graças aos toques essenciais da amiga.

IMG_6669 Estela Sandrini 2002 Movimento Estrutural 70x200cm Oleo s Tela BX.jpg Estela Sandrini, 2002, Movimento Estrutural, óleo sobre tela, 70x200cm. Foto de Juliano Sandrini.

Alta e esguia, Jussara tem porte de modelo internacional. Talvez até poderia ter sido uma na juventude se assim quisesse. Também tem renome, prêmios e respeito no mundo das artes. Dona de opiniões fortes, não tem medo de as expor quando acha necessário. Quase sempre com um cigarro entre os dedos, é capaz de falar com desenvoltura sobre os temas mais variados. Faz troça dos exageros da high society com acentuada acidez, conta anedotas de jantares e encontros com humor. O carinho que sente pela amiga de vida e de profissão se exibe na dedicação em auxiliar na escolha dos materiais e das cores.

“Esse vermelho é o que está procurando, é o que você mais gosta de usar e que dá mais expressão”, a escuto dizer. Sem hesitar, Estela aceita a sugestão. Sabe da competência daquela que se tornou sua companhia de trabalho ideal na lida diária com o árduo e por vezes desgastante processo criativo.

É a segunda vez que as duas dividem um espaço de trabalho. A primeira foi no ateliê de gravura que era comandado por Jussara. Lá se dedicaram a aprimorar a técnica da pintura a óleo e trabalharam juntas por quase cinco anos. Um período de muito trabalho e lembrado sempre com carinho. “Era uma época boa”, lembra Teca. “As artes visuais estavam valorizadas, a gente trabalhava muito, éramos reconhecidas e fizemos exposições individuais importantes.”

Depois, cada uma seguiu o seu rumo. Jussara foi trabalhar em outro ateliê e Teca passou a pintar em casa, se revezando nos difíceis trabalhos de artista, mãe e esposa. Viver é sempre estar disposto a dar adeus. Nessa época, sua doença havia avançado a ponto de levar a visão do olho esquerdo e prejudicar o pouco que ainda sobrava do outro. “Quando eu perdi boa parte da visão eu passei a pintar como eu via as coisas e comecei a pintar pela memória.”

Anos depois, surgiu o convite para que ela assumisse como presidente e diretora cultural do Museu Oscar Niemeyer (MON), cargo no qual obteve enorme destaque. Enquanto exercia a função, o museu começou a receber as obras apreendidas pela Lava Jato. Também foi uma das responsáveis por levá-las de volta ao convívio do público, resgatando parte da memória artística do país.

Sua gestão se diferenciou por criar uma “política do visitante”, que incluía medidas que facilitaram o acesso de pessoas com deficiências diversas. “De nove mil visitantes, passamos para trinta e seis mil visitantes”, conta. Um número mais que significativo para uma instituição cultural, que em sua época passou a realizar o incrível número de 22 exposições por ano, aproximadamente.

Quando deixou o cargo, Teca sentiu-se desorientada. A dificuldade em enxergar tornou-se um obstáculo a ser batido. Como já contava com espaço próprio para trabalhar, decidiu que era hora de voltar a criar e resolveu chamar a amiga para mais uma experiência de trabalho e convivência.

“Eu preciso de você”, foi a justificativa que usou para fazer o convite. Uma frase que até hoje marca profundamente Jussara, que de início teve receio de ser encarada como uma estranha no ninho.

“No começo eu fiquei temerosa de ser uma invasão”, diz. “Faziam dez anos que a gente não conversava direito e por diversas questões eu tive medo de estar invadindo o espaço da família dela.” Por esse medo, só foi aceitar o convite mais de três meses depois, não antes de perguntar se era isso mesmo que Teca queria. “Se eu não quisesse, eu não tinha te chamado”, foi a resposta tipicamente bem humorada.

Hoje se sente completamente acolhida. Quem a vê em pleno ato de criação percebe logo a concentração, “o embate”, como ela costuma dizer. Embate consigo mesma, com a arte, com o mundo. Uma luta que fica menos penosa quando se tem a companhia certa. “Tem sido muito rica a nossa convivência. O nosso diálogo é extraordinário”, garante. “O artista visual é muito solitário. Normalmente você fica só no seu próprio embate. Essa relação de falar sobre arte, de ter referências. Isso nos retroalimenta, porque é muito difícil você trabalhar sozinha, produzir e não ter essa interlocução com ninguém”.

Por conhecer intimamente o trabalho e as preferências estéticas de Teca, os olhos emprestados de Jussara servem como mapa, responsável por guiar suas mãos nos caminhos que ficam entre passado e presente, sem nunca deixar de buscar o futuro.

IMG_7690 Jussara Age 2017 Ato Geométrico 120x160cm óleo s tela e colagem RED.jpg Jussara Age, 2017, Ato Geométrico, óleo sobre tela e colagem, 120x160cm. Foto de Juliano Sandrini.

Fundação Humanística

Projetado pelo arquiteto e fotógrafo Juliano Sandrini, segundo filho de Teca com o médico Romolo Sandrini Neto, o espaço de dois andares, situado nos fundos da residência da família, foi originalmente concebido em 1999 para servir também de escritório de arquitetura.

“Foi o primeiro projetinho. Eu tinha acabado de sair da faculdade”, explica Juliano. “A forma dele foi projetada para não criar uma sombra no cômodo da casa onde ficava o escritório do meu pai.” Já naquela época, mesmo sem ter pessoas contratadas, o escritório atraía bastante gente. O andar de cima sempre foi recheado de juventude. Amigos e colegas costumavam aparecer para ver Juliano trabalhar e para fuçar no computador.

Seguindo um estilo mais modernista, a arquitetura do lugar é, como diz o próprio Juliano, simples e lógica. Vigas e pilares de concreto, paredes brancas de alvenaria. Deu trabalho. Sem os programas avançados usados hoje em dia, Juliano fazia maquetes, fotografava, alterava uma coisa aqui e outra ali e assim ia dando forma ao sonho de ter um ambiente para desenvolver ideias e realizar projetos.

A iluminação foi estudada em um pequeno livro sobre conforto térmico. A publicação trazia um esquema gráfico detalhado de como funciona a iluminação solar nos solstícios, dependendo dos horários e posição na Terra. O esquema funcionou e nenhuma parte da casa é tomada pelas sombras da construção em nenhum horário. Além disso, da sacada do escritório é possível observar um pôr do sol de tirar o fôlego. Com direito a canto de pássaros e a visão de árvores que dançam ao som da música do vento.

O resultado é um lugar arquitetonicamente sem conflito, sem muita bossa, mas com o preenchido e espaço entre uma edificação e outra. Coisas aprendidas na faculdade e que foram aplicadas com inteligência e bastante estudo. “Valeu a pena fazer. Foi minha primeira obra, gosto muito dela e tenho bastante carinho. Ela é cultural, é pensativa e reflexiva”. Para ele, o espaço continua sendo uma atração, que consegue integrar, sempre com música e pessoas circulando. “As pessoas vão e gostam. Tem cultura e sempre tem muita gente filmando, desenhando. Tem muita história dentro dele, seja na forma dos livros que ele guarda ou das obras penduradas.”

Hoje, o escritório de arquitetura deu lugar ao escritório de Marco Antonio Lima Berberi, advogado, professor de direito, Procurador do Estado do Paraná e genro de Teca, casado com Giovanna, advogada e primeira filha, com quem divide vida e espaço de trabalho. Não coincidentemente, arte é um dos temas centrais do trabalho acadêmico de Marco, que dedicou sua tese de doutorado ao assunto. Batizada de A Arte Após a Morte do Artista: Sucessão Hereditária e Direitos Autorais, a dissertação enriquece o debate sobre a importância da Art Law ao tratar da quase sempre conflituosa relação entre herdeiros de artistas e a sociedade.

“Iniciei o trabalho no espaço em 2011. Dona Teca, como de costume, preocupada comigo, me ofereceu o lugar”, relata Marco, que logo tratou de contribuir com a aura do ambiente ao montar estantes e mais estantes abarrotadas de livros de Direito, Arte, Filosofia e literatura, muita literatura. “O espaço é sensacional, pois além de amplo, proporciona um convívio multidisciplinar. Lá, conversamos sobre vários assuntos, principalmente arte e direito; mas também filosofia, política e, obviamente, amenidades. Foi lá que surgiu a ideia para minha tese de doutorado, inteiramente escrita nesse ambiente maravilhoso. Em resumo, é muito bom trabalhar lá, dividir o espaço com ela e aprender muito sobre a vida.”

Sobre as visitas constantes e o coro de vozes quase sempre presente, Jussara brinca: diz que enxerga o ateliê como uma fundação humanista. Um lugar onde não se fala de coisas, mas de ideias e de experiências. Um laboratório de humanidade, tolerância e conhecimento. “Sempre tem pessoas por aqui e este passa a ser um espaço vivo. Eu me sinto muito bem aqui. Ela diz que eu ajudo ela, mas ela me ajuda mais”, concluiu.

Pequeno no tamanho, mas gigante na abrangência e significado, o ateliê de Teca Sandrini é um mundo. Um mundo em constante evolução, repleto de vida, de cores e de histórias. “Não há lugar melhor que o nosso lar”, diz a célebre frase de O Mágico de Oz. E o pequeno e charmoso ateliê situado no Tarumã, bairro de Curitiba, é o lar de todo mundo. Ou quase isso.


Jocê Rodrigues

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