dedo na garganta.

Há sempre um pouco de nós morando na verborragia do outro.

Thaís Almeida

Eu sou Thaís Almeida. Uma colcha de retalhos costurada pelo tempo. Nunca fui a minha idade, sempre fui minhas experiências. Espero que você se encontre aqui.

Tipo físico ideal, desfile de egos e arrogância - O que isso tem a ver com teatro?

O que se pensa quando alguém vai começar a fazer teatro? O que acontece enquanto alguém faz teatro? Qual é a expectativa que se cria antes de começar a fazer teatro? O que eu tenho pra dizer é teatro? Meu corpo é teatro? Eu preciso ter um tipo "x" para fazer teatro? Pra quem serve o teatro?


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"Não existem 'atletas': todos os homens são atléticos e há que desenvolver as potencialidades de todos, e não só de alguns eleitos que se especializam, enquanto outros ficam relegados a simples espectadores." (BOAL, Augusto, 1977)

Há três anos, interessei-me pelo teatro popular de caráter político, mais precisamente pelo "Teatro do Oprimido" de Augusto Boal. Surgindo esse interesse, comecei a procurar lugares pelo Brasil onde eu pudesse fazer cursos, oficinas ou workshop's pra saber mais sobre o assunto. Encontrei alguns lugares, em especial o CTO (Centro de Teatro do Oprimido) localizado no Rio de Janeiro. Um centro de pesquisa e difusão que desenvolve a metodologia específica do Teatro do Oprimido através de cursos, workshop's, debates e leituras dramáticas. Lembro que fiquei encantada com tudo e busquei por mais informações antes de me dedicar de vez ao estudo da metodologia. Bem nessa época a bibliotecária responsável pela biblioteca em que eu trabalhava, sabendo do meu interesse pelo assunto, me presenteou com uma revista da SBAT, número especial e dedicada à Augusto Boal e seu método. Meu entusiasmo foi rapidamente ferido quando li que o curso não era destinado à atores profissionais ou aqueles que possuíam algum tipo de formação. Tudo bem que eu ainda não era profissional, mas estava em uma escola de formação de atores há quatro anos... Senti acabar ali o meu anseio por algo que eu nem tinha começado a me aventurar. Felizmente segui minhas pesquisas sobre o assunto, tentando entender por que o curso não era destinado à atores com formação e quero compartilhar com vocês o relato bem como a reflexão que essa busca me causou.

Em 2012 deparei-me com um assunto que até então eu conhecia muito pouco: o tal do "physique du rôle". Resumidamente, os franceses usavam essa expressão para denominar alguém que tinha uma aparência física adequada para certo papel. Exemplificando: pra certos diretores de teatro, uma atriz que seja nova, não pode interpretar o papel de uma personagem mais velha, pois seu porte físico - e até sua experiência de vida - não são adequados para o papel. Não importa se a atriz em questão é dedicada e estudiosa na atuação, prefere-se alguém que corresponda ao tipo físico do personagem. Tomei o cuidado de ser redundante na explicação pois quando contestei tal "método" , a devolutiva que obtive foi tão redundante quanto. Em outras palavras: é isso e pronto. A verdade era que eu não via teatro e sim uma eleição em que apenas alguns eram eleitos para desfrutarem dos prazeres do "desenvolvimento das potencialidades", enquanto outros eram deixados de lado com a devolutiva de que o que for que fizessem, estava bom. Por sorte - e por amor ao ofício - as pessoas do exemplo aqui exposto fizeram do "exílio artístico" fonte de criação e motivação para o crescimento. O trabalho foi concluído com sucesso, porém, cheio das cicatrizes.

Outro salto no tempo: 2013. Nesse ano conheci outro tipo de teatro. Diferente do anterior, esse permitia e potencializava todo e qualquer corpo em cena. Sem eleições. Todos podiam ser o que quisessem independente do seu "physique". Mas como nem sempre o que reluz é ouro, tive o desgosto de conhecer nesse meio pessoas equivocadas enquanto seu "chamado artístico". Confundindo-o com arrogância. Tudo era lindo: o engajamento político - artístico, a dança, o corpo, a beleza, a voz, as intenções, a "predestinação" de ser artista desde o berço... Tudo era podre e não chegava 1% ao seu destino fundamental: o público.

O que existe em comum em ambos os exemplos? Infelizmente e ainda, são esses os tipos de pessoas que encontramos em salas de aula de teatro. Pessoas que promovem a briga de egos e depois um desfile dos mesmos, só que, inflamados, distante de qualquer "causa", distante de qualquer "público". Quando parei pra analisar essas duas situações, enfim, descobri o porque do método de Augusto Boal não ser destinado à atores profissionais ou em formação, porque o método dele, diferente deste, semeia a igualdade e a libertação. Não elege um ou dois, mas faz com que TODOS sejam protagonistas. Não esquece o público mas o transforma de passivo para ativo, fazendo dele o principal gatilho para o teatro acontecer no palco. Sei bem que de lá pra cá muita coisa tem mudado que bons multiplicadores/artistas/educadores estão entrando em salas de aula e transformando o pensamento dos alunos enquanto a funcionalidade do teatro, mas também sei bem que os equivocados e resistentes ainda estão por aí, inflamando e ferindo egos, causando traumas e cooperando para uma visão vazia e nada potencializadora em relação ao teatro. Pregando que as artes cênicas servem pra qualquer função supérflua quando na verdade o teatro é MAIS! É um instrumento poderoso na voz das pessoas quando bem multiplicado.

Felizmente minha decepção com o possível aprofundamento no estudos com o teatro popular e político teve um bonito fim. Precisei de todas essas experiências para formar conclusões que hoje, junto com meus estudos, felizmente mudaram minha visão em relação ao teatro como mero entretenimento. Sobre o triste método do porte físico ideal para certos papéis e dos "equivocados e resistentes" , digo para que tomem cuidado. Tal método e seus "pregadores" são na verdade dissipadores de uma opressão interna que, quando não cuidada, te bloqueia por muito tempo. Não existe isso. Não existe "corpo certo" ou "corpo errado". Seu corpo é seu templo! É seu. Não importa se você é branco, negro, gordo, magro, de cabelo liso ou cacheado, alto, baixo, leve ou pesado, se tem olhos claros ou escuros, sorriso perfeito ou não. NÃO IMPORTA NADA. Importa sua disposição para experienciar e sua dedicação. Importa você partilhar o que te libertou e não fazer disso bomba pro teu ego. Não é provar para os outros é provar para si mesmo e mostrar que é possível. Que seu corpo é escada e não obstáculo.

Pra finalizar deixo com vocês uma citação de Augusto Boal que, junto com minhas experiências e conclusões, fez com que se clareassem a função do teatro na sociedade, e é essa mesma clareza que desejo à você que me lê.

"Primeiro NÃO: não aos "atores sagrados" preparados desde crianças para o seu sacerdócio; mas SIM ás técnicas que ajudem qualquer pessoa a utilizar o teatro como meio válido de comunicação. (...) SIM à arte de representar como manifestação possível para todos os homens (...) qualquer pessoa pode começar a fazer teatro quando sentir necessidade disso. (...) A alfabetização teatral é necessária porque é uma forma de comunicação muito poderosa e útil nas transformações sociais. (...) há que utilizar todas as formas possíveis para promover a libertação; (...) NÃO aos 'atores sagrados'. Não estou contra os profissionais. Mas estou contra o fato de as representações se limitarem a profissionais! Todos devem representar! (BOAL, 1977, p.77)


Thaís Almeida

Eu sou Thaís Almeida. Uma colcha de retalhos costurada pelo tempo. Nunca fui a minha idade, sempre fui minhas experiências. Espero que você se encontre aqui. .
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