dedo na garganta.

Há sempre um pouco de nós morando na verborragia do outro.

Thaís Almeida

Eu sou Thaís Almeida. Uma colcha de retalhos costurada pelo tempo. Nunca fui a minha idade, sempre fui minhas experiências. Espero que você se encontre aqui.

A Poesia do Velho Centro: Preservação e Ressignificação da Memória e das Emoções

A paisagem dura e concreta traz em si o imaginário do urbano. Traz o imaginário da memória, do passado, de tantas histórias que pairam. (...) E o que parecia concreto se desforma, transforma e reforma-se. O visível some e o oculto aparece. Ou não. Ou quase. - Carlos Doles (Ator e Diretor)


11090831_538268342977982_5513685447695642851_o.jpg

"A arte de escrever histórias consiste em conseguir retirar do pouco que se compreendeu da vida, tudo o resto." Italo Calvino

Na terça-feira, feriado de Tiradentes, viajei até Sorocaba para ver teatro e rever bons amigos. Gosto daquela cidade desde criança. Mesmo quando não adentrava por suas ruas e apenas passava pela estrada que beirava a cidade, eu avistava seus arranhas-céus, colocava o dedo no vidro do carro como se estivesse os tocando e dizia: "Eu ainda vou morar aqui." E morei mesmo. Quatorze anos depois retornei a cidade de mala e cuia e por ali fiquei durante um ano, adentrando seus espaços, conhecendo histórias, pessoas e vivenciando momentos que hoje eu guardo na caixinha da saudade. Nessa última parte - a da caixa da saudade - estão alguns espaços do velho centro de Sorocaba por onde caminhei e vivi momentos pra lá de especiais com bons amigos. Em manhãs, tardes, noites e nas madrugadas, principalmente! Passei a amar aquele velho centro por isso e também pela riqueza de transeuntes que por ali passavam.

A peça começou na Praça Frei Baraúna e lá formaram-se grupos de espectadores, divididos por quatro cores. Cada grupo percorreu espaços diferentes, mas em vários momentos os grupos se encontravam nas cenas, ora todos juntos, ora em pares. Cada grupo foi conduzido por histórias e atores diferentes que faziam do ambiente urbano o seu "site specific". Italo Calvino em suas Cidades Invisíveis e a Odisseia de Homero, foram as obras que o grupo usou como modelo de ação para as experimentações nas ruas e as criações das cenas. E foi exatamente o que presenciei: uma viagem cheia de aventuras extraordinárias e uma narrativa recheada de peripécias ou ocorrências singulares. A grande diferença é que essa Odisseia tratava daqueles transeuntes que mencionei no último parágrafo, tratava das minhas inquietações pessoais e - por que não? - universais, tratava dos espaços elegidos para a preservação da memória sorocabana, tratava da nossa relação com "pessoas invisíveis" e com os espaços que até então poderiam ser invisíveis também.

11054429_532553696882780_5972084496881836745_o.jpg

Mais do que colorir, a Trupé de Teatro, preservou a memória do Velho Centro através de histórias e emoções. Enriqueceram a preservação trazendo a poesia e a mítica para ressignificar os espaços elegidos, e isso meus senhores, foi a mais bonita forma de engajamento político - que também esteve presente nas cenas - que já presenciei nesses meus anos com teatro. Uma poesia que não me distraía, mas abria meus olhos. Uma fuga do mundo sem sair dele. Poesia escondida na camada grossa da vida. Nesse sentido, a Trupé de Teatro definiu uma atitude de resistência de outra natureza, que me fez lembrar de uma citação da Silvia Fernandes, em seu artigo "Experiências do Real No Teatro" publicado na revista Sala Preta em 2013: "Abrir brechas no simbólico para permitir que a matéria do teatro e do contexto social, especialmente o corpo do artista e o espaço da cidade, estejam implicados no processo crítico é um modo inédito de renovar a tradição de combate e engajamento."

"Da Aurora de um Novo Dia ou de um Velho Tempo Tecido em Banho-Maria" deu a mesma liberdade concedida aos seus criadores, ao público, que pode construir aquele espaço urbano através de suas emoções. Quando colocamos nossa emoção em "algo" este algo se eterniza e nunca mais passamos a ver o "algo" com os mesmos olhos de outrora. É assim com nossas músicas favoritas, com objetos que significam muito pra nós, com pessoas que amamos - ou não - e até mesmo com pessoas que não conhecemos mas nos tocam, porque nossas emoções estão ali, naquelas histórias que fizeram com que colocássemos algo de dentro de nós, nelas. Por isso, o Velho Centro de Sorocaba, nunca mais será o mesmo pra mim e para as pessoas que puderam partilhar dessa Odisseia de um Velho Centro Invisível.

Aquele trajeto que percorremos já me era muito especial e ficou ainda mais, porque através das minhas emoções eu pude construir pela segunda vez o espaço urbano. Esse, com muito mais poesia e muito mais histórias. Se, pisar por aquelas ruas já me era nostálgico, agora além de nostálgico é poético, é atento e aberto as mais variadas possibilidades. Encontro neste trabalho da Trupé de Teatro, formas incríveis de valorização e educação patrimonial através dos espaços e recursos cênicos por eles elegidos para complementar a narrativa, encontro a ponte de acesso para as pessoas que sempre ficaram à margem desses patrimônios e que na verdade sãos as que mais deveriam desfrutar deles.E quando falo em patrimônio não digo apenas dos grandes prédios, mas das ruas e das praças que esperam por nós para serem modificadas, através do nosso olhar e de nossas intervenções.

11112906_534847149986768_1178753948579440177_o.jpg

Voltei amando ainda mais Sorocaba, amando ainda mais as pessoas que por lá eu conheci. Voltei amando. Voltei grata. Voltei encontrando na arte - mais uma vez - a ferramenta para a valorização de questões que são importantes, mas muitas vezes esquecidas. Voltei descobrindo uma outra forma de questionamento, que não era direta, mas nem por isso deixava de ser certeira. Voltei mais crente que as pessoas, as questões e os espaços, precisam de nós. Artistas de olhos, ouvidos, corações, mentes e poros abertos, para que tornemos em manifestação artística suas histórias e que as mesmas atravessem outras pessoas, como naquela terça atravessavam as ruas por meio de carros, bêbados, moradores de rua, meros passantes, comércios fechados... Como me atravessava e atravessava toda aquela gente que mesmo com a possibilidade de chuva intensa, não desistiu de trazer o seu olhar ao Velho Centro de Sorocaba.

Vida longa a essa sensibilidade da Trupé de Teatro que é sempre acompanhada com muita determinação e competência com o fazer teatral!

Fotos: Adriano Sobral | Vídeo: Thiago Consiglio


Thaís Almeida

Eu sou Thaís Almeida. Uma colcha de retalhos costurada pelo tempo. Nunca fui a minha idade, sempre fui minhas experiências. Espero que você se encontre aqui. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @destaque, @obvious //Thaís Almeida