defasagem de sentidos

música, cinema e literatura com críticas desconexas e pontualíssimas (a meu ver)

Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo.

a primeira bad trip de timothy leary

O Professor Timothy Leary ficou famoso mundialmente por mediar as experimentações com LSD nos EUA por grande parte de sua vida. Tendo lecionado na Universidade de Harvard, Leary foi preso após dar LSD para seus alunos do curso de psicologia como uma "experiência". Se não fosse Leary, metade das estrelas da música dos anos 60 não teriam entrado na louca onda do ácido. E foi uma dessas estrelas, que em 1961, foi o responsável por sua primeira "bad trip".


Em Janeiro de 1961, John F. Kennedy era empossado presidente dos Estados Unidos em Washington. Foi nesse mesmo horário que Jack Kerouac provou pela primeira vez os "cogumelos mágicos" de Timothy Leary, no apartamento de Allen Ginsberg no East Village em Nova Iorque. E tudo se transformou em um belo desastre.

Ginsberg havia inciado sua militância pró-LSD um ano antes ao conhecer Leary e se maravilhar com os resultados dos efeitos do ácido em sua prosa poética. Um amigo leal e companheiro, quis compartilhar a experiência com Kerouac, mesmo a situação não sendo uma das mais favoráveis: Kerouac havia se desligado quase que por completo dos amigos beats, estava começando a viver em isolamento e não possuía nada além de desdém pela nova geração de hippies que emergia. Convencê-lo a tomar a droga não iria ser fácil.

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Tanto Leary quanto Ginsberg possuíam a melhor das intenções. Ambos queriam saber como os efeitos do ácidos alterariam a "prosa espontânea" de Kerouac, certos de que esta evoluíra imensamente uma vez que Kerouac estivesse chapado. Afinal de contas, anos antes, ele havia escrito sobre o efeito da maconha, de anfetaminas e de morfina, qual mal faria uma tentativa sobre o efeito do LSD?

Kerouac chegou ao apartamento de Ginsberg bêbado, como de costume, e chegou chutando o balde. Ofendendo o amigo e a Leary, dizendo coisas como: "Qual é a sua, Dr Leary, andando por aí com essa bicha comunista que é o Ginsberg?" ou "Essas suas drogas podem redimir nossos pecados, que nosso salvador Jesus Cristo, o Filho de Deus desceu e se sacrificou para fazer?". E continuou assim pelo resto da noite. Urrando coisas como: "Eu sou o rei dos beatniks! Eu sou François Villon, poeta-vampiro vagabundo das estradas abertas".

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Após experimentar a droga, Kerouac amansou. E Leary se aproveitou da situação para tentar dialogar melhor com o escritor. Nevava em nova Iorque e eles saíram a rua jogar futebol com bolas de neve e depois bater perna pelo bairro. Conforme as horas se passaram, Kerouac foi ficando cada vez mais introspectivo e calado. Anos depois, Leary explicou que durante a viagem, as raízes católicas e conservadoras de Kerouac vieram à tona em sua mente, o fazendo constatar que não havia lugar para ele nessa nova geração e na contracultura, o que deixou o escritor extremamente deprimido. Ele continuou a beber e a gritar coisas ofensivas após esse leve período introspectivo, o que segundo Leary, causou sua primeira "bad trip".

O pioneiro dos alucinógenos declarou posteriormente que essa "bad trip" causada por Kerouac o fez pensar incessantemente em seu pai, que o abandonara quando criança. Segundo Ginsberg, Leary se deitou em um quarto escuro, em posição fetal e ficou lá, durante horas, tentando ser amparado pelo amigo, que não obteve sucesso na tentativa de ajuda.

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E não acaba aí, dias após, Kerouac enviou um postal para Leary criticando seus métodos e registrando suas opiniões sobre a viagem que teve anteriormente. Leary nunca respondeu o postal de Kerouac. Anos mais tarde, Kerouac afirmou que essa viagem teria causado sérios danos ao seu cérebro, segundo ele, irreversíveis. "Eu não tenho pensado bem, desde então". Leary e Ginsberg continuaram militando pelo ácido e grandes amigos pelo resto de suas vidas.


Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo. .
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