defasagem de sentidos

música, cinema e literatura com críticas desconexas e pontualíssimas (a meu ver)

Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo.

a beat generation e o cinema

A Geração Beat foi uma formação de escritores norte-americanos que nas décadas de 40 e 50 quebraram o status quo do american way of life e da escrita erudita acadêmica. Eles revolucionaram a literatura, dando um caráter menos intimista, intelectualóide, e mais “povão” para seus livros. Prezando pelos marginais, junkies e vagabundos, considerados por eles, santos, agora os beatniks também invadiram as telas dos cinemas com várias roupagens e direções distintas. Vale a pena conferir!


Sob liderança dos romancistas Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, a Beat Generation foi uma geração de escritores norte-americanos que se deu início em meados da década de 1940, nos Estados Unidos. Com um método de escrita espontâneo e visceral, os beatniks - com eram chamados pela imprensa - quebraram as regras do status quo norte americano imposto pelo american way of life do pós-guerra extinguindo certos paradigmas e abolindo a regra-mor de que literatura só era escrita por autores com vocabulário erudito e acadêmico, criando uma enorme confusão do sistema literário da época. Eles haviam saído dos becos e ruelas surradas de Nova Iorque e era pra esse mesmo público amaldiçoado pela sociedade - alcoólatras, vagabundos, prostituas e viciados em drogas -, que sua escrita era direcionada, porque segundo eles, esses eram os verdadeiros "santos" e eram eles que deviam ser glorificados, pois era deles, a verdadeira face da América.

Já se passaram 70 anos desde o início dessa revolução literária que nos dias de hoje é considerada o estopim da contracultura estadunidense. De lá pra cá, o mundo mudou bastante, os regimes totalitários caíram, as feministas saíram as ruas reivindicando o que lhes é de direito, e o povo, mesmo não exercendo e nem aparentando vontade de exercício, possui direito sobre o Estado. Porém, as críticas de Allen Ginsberg continuam tão vívidas quanto eram na data de suas publicações, e o espírito aventureiro de Jack Kerouac continua a tomar conta da mente de jovens pelo mundo inteiro, como eu, que decidem cair na estrada com suas mochilas e o espírito de liberdade absoluta pedindo carona por aí.

E foi nessa mesma estrada, que a indústria cinematográfica, assim como os jovens mochileiros, também pegou uma carona, e arrecadou milhões. Três ótimos exemplos, são os filmes "Uivo" de 2010, "Na Estrada" de 2012 e "Big Sur" de 2013, que realizaram com êxito e louvor, a difícil tarefa que é a de transpor um romance literário para à telona sem perder toda sua essência original e o suor derramado ali por seu autor. Honestamente, é de se aplaudir de pé após o fim da sessão.

beats.jpg Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs.

Em "Uivo", dirigido por Jeffrey Friedman e Robert Epstein e estrelado pelo consagrado ator James Franco, que encarna divinamente o poeta Allen Ginsberg, nós podemos testemunhar os acontecimentos principais que envolveram a produção e o lançamento do livro de poemas "Howl" de 1956, a primeira publicação beat e pretexto de sérias controvérsias. Ginsberg, que era homossexual assumido, escreveu grande parte de sua obra sob ponto de vista homoerótico e intimista, fato que - obviamente - chocou a sociedade estadunidense da época, resultando assim no banimento do livro das livrarias e um encontro com o juiz, que decidiria se o livro era ou não indecente e obsceno como constava nas acusações. Com um roteiro baseado no próprio poema "Howl" e em entrevistas posteriores do poeta, o resultado foi uma obra-prima de primeira categoria. Alternando entre os anos de 1955 e o de 1957, com sequências coloridas e em preto e branco, o filme ainda conta com uma excelente animação paralela conforme o poeta declama sua obra, realizada pelo artista plástico Eric Drooker.

Já "Na Estrada" e "Big Sur" são baseados nas duas obras homônimas de Jack Kerouac. O primeiro, dirigido pelo brasileiro Walter Salles, foi um grande sucesso em todos os países onde foi exibido. Concorrente não vencedor do Festival de Cannes, "Na Estrada" foi um blockbuster recheado de estrelas hollywoodianas como Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart e Viggo Mortensen. A história conta a juventude do fracassado escritor Sal Paradise (alter-ego de Kerouac, personagem vivido por Riley), que desiludido com um romance não terminado e a morte do pai, quase desiste de escrever por definitivo. É então que ele conhece o aventureiro Dean Moriarty (Hedlund) e juntos eles botam o pé na estrada em viagem pela América por cinco vezes no período de três anos. Realizando experimentações com drogas, orgias, grandes bebedeiras na tentativa de fugir das regras impostas pelo tempo em que vivem. O resultado é um escritor cheio de ideias com um livro pronto da na cabeça, fãs da obra satisfeitos com a fidelidade do roteiro(que particularmente considero duvidosa) e um grande sucesso cinematográfico de verão.

E por fim, "Big Sur", o novo filho pródigo do cinema beatnik. Realizado independentemente, o projeto demorou três anos para conseguir ficar pronto, e finalmente estreou em Janeiro passado no Festival de Sundance, sendo ovacionado pelos presentes na sessão. Dirigido pelo aclamado cineasta independente Michael Polish, conta com Jean-Marc Barr na pele de Jack Dulouz (Kerouac com outro pseudônimo) e Josh Lucas na pele de Cody Pomeray (Dean Moriarty, u-ha!). "Big Sur" conta a história de um escritor em seus quarenta anos, que começa a sentir o peso da idade e dos excessos da juventude, tendo ainda um problema com álcool de bônus, que decide tirar uma folga do mundo e se esconder nas montanhas costeiras da Califórnia em uma pequena cabana sem energia elétrica. Lá ele passa por sérias crises existenciais e de abstinência, quase que fatais, que resultam no princípio da sua decadência. A previsão de estréia do filme é para Junho/Julho desse ano, fiquemos atentos para mais notícias.

beats 2.png Sam Riley como Sal Paradise, James Franco como Allen Ginsberg, Josh Lucas e Jean-Marc Barr como Cody Pomeray e Jack Dulouz.

Uma coisa é certa, a aura dos beatniks continua forte até os dias de hoje, seja nos livros, ou no cinema, uma das mais bem-sucedidas e revolucionárias gerações de literatura contemporânea está novamente na boca do povo, na cabeça das pessoas e principalmente, na cabeça dos brasileiros. Assim como os livros "Laranja Mecânica" e "Clube da Luta" se transformaram em filmes clássicos (pra citar os livros mais contemporâneos) os filmes beatniks não fugiram a fórmula. Uma nova geração de loucos, rebeldes, santos e místicos está surgindo, graças à sétima arte.


Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo. .
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