defasagem de sentidos

música, cinema e literatura com críticas desconexas e pontualíssimas (a meu ver)

Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo.

especial: o cinema beat - parte um

Foram centenas as adaptações beats às telonas desde 1957 e o lançamento de On The Road, de Jack Kerouac. Nesse especial de quatro artigos, mostraremos os títulos mais importantes e marcantes do cinema beatnik, os fracassos, sucessos e as várias tentativas não concluídas de filmagem. Sente-se na cadeira, firme os pés no chão e se prepare pra uma doida viagem!


Pouco antes da meia-noite de quatro de Setembro de 1957, Jack Kerouac e Joyce Johnson, escritora com quem estava vivendo, saíram do apartamento dela no Upper West Side em Nova Iorque e se dirigiram até uma banca de jornal de esquina da 66 com a Broadway, onde logo menos receberiam um exemplar do The New York Times com a primeira crítica do romance recém-publicado de Jack. A crítica, assinada por Gilbert Millstein, dizia: “On The Road é o segundo romance de Jack Kerouac, sua publicação é um evento histórico, na medida em que o surgimento de uma genuína obra de arte concorre para desvendar o espírito de uma época. (...) É a mais belamente executada, a mais límpida, e se constitui na mais importante manifestação feita até agora pela geração que o próprio Kerouac, anos atrás, batizou de beat e da qual o principal avatar é ele mesmo”. Sob a luz difusa de um poste, Jack e Joyce leem avidamente a crítica e Joyce relembra: “Após ler a resenha, Jack foi dormir no anonimato pela última vez. Quando o telefone nos despertou na manhã seguinte, ele era famoso”. Dez anos após os acontecimentos relatados em On The Road e quinze anos após Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs se conhecerem e formarem o núcleo central dos beats, finalmente os holofotes os atingiram.

Normalmente, o primeiro contato para uma adaptação cinematográfica parte diretamente de algum estúdio de Hollywood, por intermédio de seus diretores sempre interessados em trazer às telas novas tendências. Em 1957, Jack Kerouac não escondia seu enorme interesse em escrever e atuar numa futura adaptação de On The Road para às telonas. Várias lendas e rumores percorrem o submundo literário, sobre o autor ter escrito um roteiro ele mesmo, que 50 anos depois seria usado por Walter Salles para fazer o esboço primário de sua versão de On The Road, não se sabe ao certo até qual ponto isso é verdade. O que é certo é que, em 1957, Kerouac enviou uma carta datilografada e assinada à mão ao astro Marlon Brando, que era por si só a imagem da rebeldia dos anos do macarthismo e oposição ao status quo do cinema, convidando-o – sem cerimônias ou humildade – para comprar os direitos de seu livro e atuar no papel de Dean Moriarty, enquanto ele mesmo atuaria no papel de Sal Paradise. Kerouac não mediu suas palavras: “O que eu quero fazer é refazer o teatro e o cinema na América, dar um traço espontâneo, abolir os pré-conceitos de “situações” e deixar as pessoas delirarem como elas fazem na vida real. (...) Eu estou entediado atualmente e procurando alguma coisa para fazer com esse vazio, enfim, escrever romances está ficando muito fácil, o mesmo com peças, eu escrevo um peça em 24 horas”. Brando nunca respondeu a carta de Kerouac, e a adaptação nunca saiu do papel, frustrando o escritor.

Letter_by_Jack_Kerouac_to_Marlon_Brando_(1957).JPG Último parágrafo da carta de Kerouac a Marlon Brando, onde o autor não mediu suas palavras e nem ao menos cogitou escrever com um pouco mais de humildade.

Em 1959, os cineastas Robert Frank e Alfred Leslie visitam Kerouac atrás de alguma ideia ou escrito do autor que pudesse ser adaptado para a realização de um curta-metragem. Kerouac (que durante os anos de obscuridade escreveu mais de 11 manuscritos que só foram publicados após 1957) rapidamente retirou o roteiro de uma peça teatral escrita anos antes, intitulada “Beat Generation”. Os jovens diretores ficaram extasiados e decidiram usar o terceiro ato da peça como argumento de seu novo projeto cinematográfico. “Pull My Daisy” é rodado em 16 mm, sem financiamento, usando locações autênticas, abusando da espontaneidade de seus diretores e autor. De caráter modesto, ele mescla a essência cinematográfica e a atitude beat. Com a narração em off, Kerouac entrega-se a uma prosa sincopada com um prazer evidente destacando suas linhas entre as imagens de Robert Frank e Alfred Leslie. Na tela, Allen Ginsberg, Gregory Corso e Peter Orlovsky se divertem importunando um padre azarado que dá de cara com eles ao visitar um casal em comum (ele um empregado ferroviário, ela pintora). A história é inspirada em acontecimentos reais, passados na casa de Neal e Carolyn Cassady enquanto Kerouac passava uma temporada com eles, anos antes, na Califórnia. Tirando os envolvidos com o movimento beat e os hipsters nova iorquinos do final da década de 50, o filme não alcançou um grande público e se perdeu na obscuridade das décadas que o precederam. Ele é considerado um marco no cinema independente e possui certa raridade, pois é o único registro com qualidade dos poetas beats ainda jovens, contando com um bônus, que é a bela narração do próprio Kerouac.

aw-Jack-20Kerouac-20120817104735440609-620x349.jpg Jack Kerouac, Lucien Carr e Allen Ginsberg durante as filmagens de “Pull My Daisy”, 1959.

Após o sucesso de vendas de On The Road, Kerouac se viu pressionado a escrever um novo best-seller e publicá-lo o mais rápido possível, devido a grande demanda dos leitores. Em 1958, Kerouac lança pela Groove Press, The Subterraneans. O texto, originalmente escrito em 1952, conta a história do romance de Leo Percepeid, um escritor franco-canadense que morava em São Francisco, e Mardou Fox, uma afrodescendente com sangue Cherokee. O livro vendeu bem, embora um romance inter-racial não agradasse o típico leitor norte-americano – principalmente os conservadores – que declararam guerra aos beats, totalmente apoiados pelo presidente do FBI, J. Edgar Hoover, que em 1961 declarou: “Os beatniks são uma das três maiores ameaças aos Estados Unidos da América”. Em razão de toda essa popularidade e controvérsias, em 1960 o estúdio MGM compra os direitos de adaptação cinematográfica de The Subterraneans, filmando-o e distribuindo-o em 1961, com uma sucessão enorme de mudanças. A mudança mais drástica certamente foi à personagem principal, Mardou Fox, que deixou de ser afrodescendente para se tornar uma francesa branquela, alterando sistematicamente o enredo e sentido da história. O argumento usado pelo estúdio MGM foi simplório, eles alegaram que uma personagem negra tendo um romance com um rapaz branco não seguia os padrões de Hollywood e os padrões sociais da época. A adaptação foi imensamente criticada por Allen Ginsberg, que acreditava que os estúdios estavam fazendo muitas mudanças e pintando uma imagem negativa de uma geração de poetas que havia lutado durante mais de uma década para ser reconhecida e quando finalmente alcançara, estava sendo lentamente modificada pelos grandes estúdios. O filme foi um desastre de bilheteria e perdeu cerca de um milhão de dólares em investimentos de filmagem

subterraneans1.jpg Cena de “The Subterraneans”, onde Leo Percepeid está com sua amante “francesa” Mardou Fox.

Não perca a parte dois na próxima semana!


Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo. .
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