defasagem de sentidos

música, cinema e literatura com críticas desconexas e pontualíssimas (a meu ver)

Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo.

Rimbaud - Jack Kerouac

Se Jack Kerouac não tivesse literalmente "se matado de beber" em 1969, hoje ele completaria 91 anos. O líder da Beat Generation viveu os excessos e escreveu sobre eles como ninguém mais conseguiu desde então. Para celebrar sua memória, nada melhor que um de seus poemas mais célebres e profundos. "Rimbaud" de 1960.


Arthur! On t’appela pas Jean! Nascido em 1854 praguejando em Charle- ville abrindo portanto caminho para o abominável assassinato de Ardennes – Não se admira que seu pai tenha partido! Então aos 8 anos você entrou pra escola – Pequeno Grande Latinista, quem diria! Em outubro de 1869 Rimbaud está escrevendo poesia em greco-francês – Sem passagem

foge de trem pra Paris, o miraculoso guarda-freios mexicano o joga pra fora do trem veloz, pro Céu, onde ele não mais viaja porque o Céu está em todo lugar – Apesar de tudo as bichas velhas intervêm – Rimbaud sem mais Rimbaud treina na verdejante Guarda Nacional, orgulhoso, marchando na poeira com seus heróis – desejando ardentemente ser violentado, sonhando com a Garota definitiva. – Cidades são bombardeadas enquanto ele olha & olha & chupa seu lábio degenerado & olha com olhos cinzentos para a França Sitiada –

André Gill foi o precursor de André Gide – Longas caminhadas lendo poemas entre os Montes de Feno de Genet – O Voyant nasceu, o vidente enlouquecido faz seu primeiro Manifesto dá cores às vogais & às consoantes curiosos cuidados, fica sujeito à influência de velhas Bichas Francesas que o acusam de constipação do cérebro e diarreia da boca – Verlaine o convoca pra Paris com menos aprumo do que quando expulsou garotas pra Abissínia – “Merde!”, grita Rimbaud nos salões de Verlaine – Fofocam em Paris – a mulher de Verlaine está com ciúmes de um garoto que não sossega o rabo em canto algum – Amor manda dinheiro de Bruxelas – Mamãe Rimbaud odeia a impertinência de Madame Verlaine – Por essa época já se suspeita que o Degenerado Arthur seja um poeta – Uivando no porão Rimbaud escreve Uma estação no inferno, Sua mãe estremece – Verlaine manda dinheiro & tiros Pra Rimbaud – Rimbaud vai à polícia & apresenta sua inocência como a inocência pálida de seu divino e feminino Jesus – Pobre Verlaine, 2 anos no xadrez, mas poderia ter levado uma faca no coração

Iluminatións! Stuttgart! Estudo de línguas! A pé Rimbaud viaja & olha através dos passos alpinos para a Itália, procurando trevos da sorte, coelhos Reinos Encantados & a sua frente nada menos que o velho Canalleto e a morte do sol sobre velhos casarões venezianos – Rimbaud estuda línguas – ouve a respeito dos Alleghanes, do Brooklyn, das últimas Pragas Americanas – A irmã que mais amava morre – Viena! Ele olha pras confeitarias & acaricia velhos cachorros! Assim espero! Esse gato muito louco se alista no Exército Holandês & viaja pra Java de navio comandando moscas à meia-noite na proa, sozinho, ninguém ouve seu Comando a não ser o brilho dos peixes no mar – Agosto não é época de se ficar em Java – Visando o Egito, ele é mais uma vez preso na Itália por isso volta pra casa pra poltrona profunda mas em seguida vai de novo pra Chipre pra dirigir um bando de tra- balhadores numa pedreira – com o que se parece esse Último Rimbaud? – Poeira de pedras & costas negras & picaretas & gente tossindo, o sonho surge na mente africana do francês, – Inválidos dos Trópicos são sempre amados – O Mar Vermelho em junho, os tremores na costa da Arábia – Harar, Harar, o mágico entreposto de comércio – Aden, Aden, Sul de Bedouin – Ogaden, Ogaden, jamais conhecido – (Nesse tempo Verlaine está sentado em frente a cognacs em Paris imaginando com o que o Arthur se parece agora & como estão desoladas suas sobrancelhas porque eles acreditavam na beleza juvenil das sobrancelhas – Quem se interessa? Que espécie de Franceses são esses? Rimbaud, bata em minha cabeça com aquela pedra! Um Rimbaud sério compõe artigos elegantes & eruditos para Sociedades Geográficas Nacionais & depois das guerras comanda Harari a Garota (Ha Ha!) de volta a Abissínia, & ela era jovem, tinha olhos negros, lábios grossos, cabelo encaracolado, & seios de um marrom polido com bicos de bronze & pequenas pulseiras em seus braços & juntava suas mãos sobre o ventre & tinha os ombros tão largos quanto os de Arthur & orelhas pequenas – Uma garota de alguma casta, em Bronzeville –

Rimbaud também conheceu Polinésias esguias com longos cabelos revolvidos & seios pequenos & pés grandes

Finalmente ele começa a contrabandear armas em Tajoura viajando em caravanas, louco, com um cinturão de ouro amarrado na cintura – Ludibriado pelo Rei Menelik! O Xá de Shoa! Os ruídos desses nomes na mente ruidosa de um francês!

Cairo para o verão, vento amargo de limão & beijos no parque empoeirado onde garotas sentam de pernas cruzadas – ao entardecer pensando em nada –

Harar! Harar! Levado de maca para Zeyla lamentando o dia em que nasceu – o barco retorna ao castelo de giz Marseille mais triste que o tempo, que o sonho, mais triste que a água – Carcinoma, Rimbaud é devorado pela doença de viver demais – Amputaram sua linda perna – Ele morre nos braços de Isabelle sua irmã & antes de subir ao Céu manda seus francos para Djami, Djami o garoto Harari seu servo fiel 8 anos no Inferno Africano do Francês & tudo resulta em nada, como

Dostoiévski, Beethoven ou Da Vinci – Portanto, poetas, descansem um pouco & calem-se: Nada jamais surgiu do nada.

1960 Jack Kerouac

jk.jpg Jack Kerouac em meados da década de 50.

Feliz aniversário, Jack!


Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo. .
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