defasagem de sentidos

música, cinema e literatura com críticas desconexas e pontualíssimas (a meu ver)

Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo.

poesia interiorana com ar cosmopolita

Quem consegue fazer poesia e viver disso no Brasil em pleno século XXI? Tirando os novos expoentes editoriais, que são envoltos em enorme marketing e publicam semestralmente um novo livro, aparentemente mais ninguém, certo? Errado! No interior de São Paulo, um novo grupo de poetas deu a cara pra bater e tem ido atrás do seu próprio público. Na cara, coragem e raça, o grupo Poesia dos Minérios, fundado em 2012, tem arduamente escalado os degraus dos exigentes leitores brasileiros.


Quem nunca andou pela Avenida Paulista em São Paulo em um fim de tarde e observou nos dois lados da avenida artistas tentarem arduamente divulgar seu trabalho? Ou foram abordados por humildes poetas e poetisas com seus textos à mão na tentativa de vendê-los por apenas cinco reais? Provavelmente isso já aconteceu com a grande maioria dos leitores, e provavelmente, alguns deram bola e outros não. Faz parte.

A cada semana que passa, um novo grupo de poesia ou grupo teatral aparece no cenário artístico contemporâneo. Qual cenário? O cenário underground ou até mesmo o cenário da Avenida Paulista é o ponto de referência desses jovens artistas que buscam com todas as forças que possuem, divulgar sua arte, da maneira que podem. Mas e quando não existe um cenário e você mora em uma cidadezinha do interior?

Tirando os grandes centros interioranos com pólos universitários, fica bem difícil "fazer arte" e ser reconhecido. É o que acontece com o grupo "Poesia dos Minérios". Formado no início de 2012 por jovens universitários da cidade de Itapeva, no interior de São Paulo, o grupo surgiu da necessidade de criar arte em um ambiente onde a arte é quase inexistente. Crescer em uma cidade sem muitas opções é deveras complicado, principalmente se a dominação de estilos musicais específicos, como o sertanejo universitário, é o que move a cabeça das pessoas do lugar em questão.

Com muito esforço e trabalho árduo, o grupo foi oficialmente criado, contando com 10 membros. Os jovens, que moram em outras cidades, por conta dos estudos, voltam periodicamente para sua terra natal para promover eventos e encontros poéticos. Seja somente entre eles mesmos, ou com um público, como aconteceu em Julho do ano passado, onde eles realizaram a "Noite da Poesia Marginal" em um bar da cidade, e conseguiram movimentar um grande número de pessoas para o evento. Mesmo assim, ainda é pouco, muito pouco.

noite da poesia marginal.jpg Membros do grupo, durante a realização da "Noite da Poesia Marginal", no ano passado.

Com o foco principal em permanecer fazendo arte em sua terra natal, por amor ao lugar onde nasceram, os poetas e poetisas criaram uma página no Facebook onde publicam novos poemas sempre que lhes é possível. Com pouca abrangência, eles tem lutado de todas as maneiras para que mais e mais pessoas possam ler seus escritos e acompanhar o trabalho deles pela internet.

Com os membros vindos de várias vertentes poéticas, o grupo faz uma salada cerebral de poesia. Mesclando poemas clássicos, concretos, haikais e marginais, eles vem publicando incansavelmente no esforço de conseguirem o devido reconhecimento, e particularmente, sei que vão. Decidi publicar dois excelentes poemas aqui, e deixar o link da página do grupo. Gostem ou não, aí está:

poesia dos minérios.png

A página é simples, mas de grande poder poético. http://www.facebook.com/poesiadosminerios

E os poemas:

Ave Contrariedade

O bem e o mal. Fases de uma mistura de mãos dadas dançam a dança fatal faces da eterna loucura.

Um ritmo impreciso de senso e sensação um grito no escuro que causou a refração da luz do bem, pro canto central..

Caídos, Elevados, presos no ciclo são contrarios e completos dos sons do grito e representam as cores do mal.

Exaltados sejam, os caídos! e que jamais esqueçam dos pobres amigos, que vivem no céu, no jardim da criança..

Rebelaram-se, mudaram-se, me disse o portal abriu minha mente e num salto final representou aquilo que me trouxe esperança.

Escrevi o que ditaram-me, escrevi eu não pude escolher o que eu vi, mais eu vi.. bem e mal juntos, no grande vazio vazio que hora qualquer, tornou-se a criação de uma criança boba, a brincar com as mãos.

e brinca demais, a criança.

Joaquim Bührer

No Ponto

regendo a orquestra dos pobres que andam apé don’t hand me down, american woman estou atrasado e com pouco dinheiro muitas buzinas e barulhos de motores ao redor de mim vejo até alguns cavalos - vantagem dos que moram em uvaranas. o sinal abriu e fechou pela décima vez e nada do meu ônibus vir um acabou de passar! mas na direção oposta.. lotado com almas cansadas frustadas com o preço da passagem e o mormaço que emerge. velhas passam por mim em bando indo jogar buraco e comer alguns petiscos. outra lotação de almas – que agonia! o sinal abriu mais uma vez e lá se vai outro ônibus na direção oposta deus! e o operário rei dos proletários ferroviários com seu uniforme da ALL que está ao meu lado não para de falar ao celular “tudo bem, meu amô. compro o leite das crianças” ele não tem um olhar apressado. está satisfeito. hoje tem leite pras crianças. céus, até que fim. o ônibus chegou e é hora de sumir daqui

Arthur Máximo

Guilherme Ziggy

Estudante de Jornalismo, fotógrafo, poeta, exímio mentiroso e craque em cometer falcatruas - tais como convencer meus queridos parceiros de botequim a sempre (sempre) me pagarem mais uma gelada e a pedir emprestado o bilhete único de alguém dois pontos antes do meu. Moro em São Paulo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// @destaque, @obvious //Guilherme Ziggy