delírio poético

Porque escrever é o melhor remédio

Paulo Henrique Reis

Rabisque, enlouqueça, invente.

Arte africana e pós-colonialismo

Mesmo numa realidade onde as barreiras culturais entre nações estejam mais flexíveis, a polarização tradicional/moderno é solidificada pelo Ocidente em relação aos países africanos.


arte africana.jpg

Muitos historiadores da arte e críticos ligados ao pós-colonialismo e arte africana vêm discutindo sobre a questão da “autenticidade”, termo empregado pelos consumidores (ocidentais) de pinturas, esculturas e demais artigos culturais com origem nos países da África. Autores e artistas provenientes do continente africano (como K. Anthony Appiah) denunciam em suas manifestações escritas como que determinadas organizações, personalidades influentes do campo da arte, mecenas e a imprensa contribuem para a cristalização da dicotomia tradicional/moderno.

Cristalização essa que é utilizada para construir narrativas que mantenham as sociedades africanas estáticas no espaço e no tempo, como se a transformação e mudança da estética e das maneiras de pensar o mundo fossem características relativas apenas ao Ocidente - que dita as regras do jogo pelas suas relações de poder -, ao passo que aos países do continente africano restariam a reprodução de uma arte “tribal e arcaica”. A pesquisadora Sidney Kasfir nos dá uma série de exemplos para mostrar que o consumo de uma arte que não seja “autenticamente” africana não se dá nas mesmas proporções em contraste com objetos que possuem “autenticidade” (clique aqui para ler o artigo na íntegra). Certos grupos africanos envolvidos na confecção de pinturas, esculturas e colares para sua comercialização acabaram entrando nessa lógica de autêntico/não autêntico para atender as demandas turísticas, que optam por comprar itens que sejam “efetivamente africanos”. O desenvolvimento cultural acaba sendo mimetizado pelos essencialismos que o Ocidente procura.

artafrica.jpgMissangas à venda num mercado de Nairobi, 1991. Fotografia: Sidney Kasfir.

As produções etnográficas filmadas (e ouso dizer que nas escritas se procede de igual maneira) também acabam por privilegiar ritos e festividades das sociedades africanas que possam ser enquadradas nos termos de tradicionais, utilizando-se de toda sorte de cortes e abandonos de qualquer resquício de contato com a “ocidentalização”, que quebraria automaticamente o conceito trabalhado por eles de tradição:

"Em 1978, em Ibadan, assisti à forma como um grupo perfeitamente idôneo de cineastas alemães eliminou sistematicamente as T-shirts com imagens de Jimmy Cliff, os relógios de pulso e outros objetos de plástico de uma cena de multidão yoruba numa festividade egungun. Pretendiam apagar as marcas de ocidentalização de cultura yoruba, reescrevendo a respectiva etnografia, numa tentativa de reinventar um passado livre da intervenção ocidental - um tempo e um espaço puros e intemporais, um universo yoruba ‘autêntico'." (KASFIR, p. 9)

artafrica2.jpgArtesãos vendendo as suas peças à African Heritage Gallery, Nairobi, 1987 (em primeiro plano: cestos núbios; baskets, no meio: cabaças de leite maasai decoradas). Fotografia: Sidney Kasfir.

A ideia do pós-colonialismo pelo Ocidente é vista de forma negativa por pesquisadores ligados ao movimento contra-colonial, pois ela é utilizada para expandir o domínio das interpretações dos países “desenvolvidos” sobre os países de “terceiro mundo”, e não se preocupa em deixar o colonialismo para trás. A vanguarda intelectual dos países africanos está vinculada à influência das universidades a que é alocada e dos consumidores europeus, que exigem padrões ocidentais. Resta aos defensores da diversidade artística o papel de levantar uma voz uníssona contra as violências simbólicas que insistem em continuar, para que haja uma produção sem a necessidade de esconder-se em rótulos e identidades construídas a partir de uma visão hierárquica e eurocêntrica.


Paulo Henrique Reis

Rabisque, enlouqueça, invente. .
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/artes e ideias// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Paulo Henrique Reis