delírio poético

Porque escrever é o melhor remédio

Paulo Henrique Reis

Rabisque, enlouqueça, invente.

O caminho dos versos na contemporaneidade

Em um mundo dominado pela prosa e pelo romance de grandes narrativas, o gênero lírico procura se restabelecer entre os saraus urbanos e na web, para mostrar o potencial dos versos como forma de interpretação da vida.


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A busca pela estabilidade psicológica é um dos objetivos principais da vida contemporânea para quem mora na cidade grande. Somos imersos num turbilhão de estímulos que são externos a nós e nos confrontam de tal maneira que a ideia de controle de si mesmo/a é difundida desde a mais tenra idade, tanto em ambientes primários de socialização, como a família e a escola, como em espaços coletivos onde entramos em contato com desconhecidos, como transporte público, boates, shoppings, cinemas, teatros. Postura, regras, padrões, leis, tudo isso parece influir em nós como verdadeiras prisões da individualidade.

A importância de se escrever em versos na contemporaneidade, tanto para o campo literário como para o público alvo, se dá a partir das novas maneiras de se produzir memória sobre o tempo presente. As referências sobre política, música, cinema, ciência e outras áreas do saber causam impacto direto e indireto no lirismo de uma obra (ou de um artigo como este para o formato da web) e de como ela está sendo escrita.

Quem é blogueiro/a, escritor/a e/ou organizador/a de saraus públicos vê em seus textos e nos de seus pares uma extensão direta das angústias e anseios que nascem no meio urbano, principalmente entre o público jovem. Partindo do pressuposto que a cada dia se mostra um mundo totalmente novo, nesse mar de dúvidas e instabilidades – emocional, mental, profissional, familiar – que são geradas pelas experiências da cidade, cada poema, cada conto, cada análise sobre o cotidiano representa ao mesmo tempo uma fuga da realidade técnica/normativa e uma resposta aos problemas e dilemas do dia-a-dia. O gênero lírico pode e deve ser usado para explicar as relações complexas que permeiam o tecido social na rotina das metrópoles, principalmente na era das novas formas de se relacionar que se consolidaram com as novas tecnologias. A proposta contemporânea é resgatar o valor da poesia frente ao romance, fazendo dela um instrumento tão importante quanto este último, que possa gerar emancipação pessoal e possibilidade de refletir sobre as questões que fazem parte dos processos de urbanização desenfreada.

Henri Matisse por Cartier Bresson 1944.jpgHenri Matisse fotografado por Cartier Bresson, 1944.

Nessa lógica da transformação constante, assim como no rio de Heráclito, nós nunca “entramos” duas vezes no mesmo contexto. A reconfiguração da sociedade metropolitana é continuamente seguida, pessoas vêm e vão a todo o momento em todos os lugares, criam e desfazem relações num piscar de olhos, principalmente na era da tecnologia da informação. Em qualquer espaço que se ocupe, é cobrada uma reação a determinada circunstância. Sendo assim, nesse emaranhado de possibilidades que as sociedades pós-industriais nos oferecem, a ausência de um único estilo dominante se nota claramente entre poetas e poetisas urbanas. Entendendo os versos e as estrofes como traduções (ou tentativa de traduções) de sentimentos e ideias advindos do cotidiano, a necessidade de utilizar estilos clássicos – sonetos, elegias – mesclados com um estilo livre de escrita, a fim de retratar os diferentes modos de percepção das contingências ao nosso redor, é importante para se aprofundar e entender as negociações diárias. A finalidade consiste em escrever algo que o/a jovem inserido/a nessa fugacidade de (in)certezas se identifique, e veja que, mesmo com todas as dificuldades encontradas em meio a fumaças, ruídos e outros transtornos urbanos, ainda é possível achar poesia dentro do caos.

larentree-interior-1925-27-oleostela-88x115-col-pedrotassinarifilho-sp1.jpgLa rentrée, óleo sobre tela de Anita Malfatti, 1925-27.

Mestiçagem

Prosa e poesia

Escrita e voz

Notas e batuques

Sombras e penumbras

Montanhas e planícies

Não quero escolher,

Pego tudo e faço um fragmento de felicidade.

Paulo Henrique Reis


Paulo Henrique Reis

Rabisque, enlouqueça, invente. .
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