desassossego.

Feminismo, psicologia, psicanálise, existencialismo, cinema, cerveja e alguma coisa a mais.

Gisele Gonçalves

Viver, sofrer e sobreviver: O que não nos mata, nos fortalece

“A todos com quem realmente me importo, desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de autoconfiança e a desgraça dos derrotados.”.


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Para entender o que Nietzsche queria dizer podemos escalar sua montanha preferida nos Alpes Suíços. Ao chegarmos no topo da montanha a vista é maravilhosa, o ar é puro, a nossa sensação é de total bem-estar e ficamos deslumbrados com tanta beleza. A partir daí entendemos porque Nietzsche gostava tanto de montanhas. Era do ápice que contemplava-se a vista mais bonita. Mas para chegar até lá, existem muitos obstáculos ao longo do caminho. Pedras, solos íngremes, é preciso fazer um grande esforço físico para subir e em certos momentos o desgaste é tão grande que dá até vontade de desistir. Nietzsche metaforicamente falava da existência humana como sendo uma caminhada. Ao escalarmos montanhas tínhamos uma clara compreensão do que é a vida.

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Nietzsche, não era do tipo que "atira-se do prédio", aceitando a derrota definitiva. Assim como outros pensadores existencialistas, Nietzsche não acreditava na felicidade eterna ou em uma vida sem sofrimento e nem escrevia para tentar amenizar nossas dores. Pelo contrário, acreditava que sem a angústia e a dor não há realizações humanas. Nossa cultura hoje parece nos ensinar a evitar falar de nossas falhas e dores. Em uma era de tecnologia, consumo exacerbado e busca constante por tudo que oferece prazer, por tudo que é fácil, confortável, rápido e que exige menos esforço, o vazio, o sofrimento e a falta de sentido da vida se tornam aspectos difíceis de serem vividos e aceitos. Nossos ombros suportam o mundo, a solidão, a dor e a angústia porque fazem parte da nossa condição enquanto seres humanos. Quando estamos cansados de sofrer, começamos a lutar contra o sofrimento, procurando formas de aliviá-lo, somos obrigados a esforçarmos para achar um caminho melhor, reconhecemos nossas vulnerabilidades, limites e adquirimos autoconhecimento. A angústia passa a ser vista não como algo depressivo e paralisador, mas sim como um impulso para a vida, para a percepção da nossa existência, do nosso despertar, da nossa possibilidade de nascer e renascer. Saímos do comodismo e procuramos outros modos de pensar e agir. Durante todo nosso caminho, passamos pela dor de renunciar algo que gostamos, mas esquecemos que toda perda nos liga a outros ganhos. É esse sofrimento que nos oferece uma oportunidade de mudança, ainda que seja algo doloroso, não há renovação, crescimento e libertação sem dor. Se nós optarmos pelo prazer do crescimento, podemos nos prepararmos para sofrer. Só assim adquirimos autoconhecimento e nos sentimos mais sábios e seguros, não temendo o encontro com nós mesmos e nos preparando para os inúmeros e inevitáveis momentos de solidão que a vida nos reserva.

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Em 8 de março de 1884 Nietzsche revela a seu amigo: " (...) tive que buscar dentro de mim coragem, pois de todos os lados só vinha desânimo: a coragem de carregar meu pensamento. " A filosofia de Nietzsche é consequência de sua própria vida. Perdeu o pai aos 5 anos de idade. Contraiu sífilis e muitas outras doenças durante toda sua vida, por isso mudava de cidade regularmente em busca de ar puro e bem-estar. Foi um filósofo só, não foi compreendido pela maioria de seus colegas e suas obras só foram reconhecidas depois de sua morte. Com o tempo Nietzsche teve um colapso nervoso, pensou ser Napoleão, Deus e Buda. Ficou internado em um sanatório e morreu depois de um tempo, aos 56 anos de idade.

Sua vida foi uma luta longa e heroica consigo mesmo. Assim como o filósofo, não basta a nós sofrermos, é necessário aprendermos a reagirmos diante dos nossos sofrimentos. Eles são desagradáveis mas podemos reinterpretá-los de uma maneira mais construtiva, eles podem nos obrigar a superamos e a recomeçarmos de uma maneira diferente, assim levamos a vida de forma mais leve. Como os alpinistas ao subir uma montanha, somos desafiados a superar nossas dificuldades, afinal, todos nós temos fases ruins na vida. Lutemos fortemente e fiquemos prontos para a vida. O essencial é viver.


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