desassossego.

Feminismo, psicologia, psicanálise, existencialismo, cinema, cerveja e alguma coisa a mais.

Gisele Gonçalves

A Luta para Ser

Mesmo após as maravilhosas descobertas da Ciência, Medicina, Psicologia e das promessas de felicidade, a Pós-Modernidade mantém ainda o ser humano um prisioneiro de si mesmo?


Em O Estrangeiro de Albert Camus, o personagem Mersault é um homem simples, que leva a vida sem muitas crenças ou ambições. Mersault despreza os valores impostos pela sociedade e por isso se distancia dos demais. Aos olhos da sociedade, o personagem possui características suficientes para lhe transformar num estrangeiro no mundo em que vive. No prefácio de seu livro, Camus defende seu protagonista “o herói do meu livro é condenado porque não joga o jogo. Sob este aspecto, ele é estrangeiro para a sociedade em que vive; ele vaga na borda, nos subúrbios de uma vida privada, solitária e sensual”. Não pretendo aqui analisar todo livro, mas refletir sobre a maneira do personagem sentir a vida, ou seja, Mersault desprezava os sentimentos e valores mais exaltados pela sociedade e não escondia isso, como o próprio Camus afirmou, Mersault era incapaz de mentir ou fingir algo para ser "bem visto" pela sociedade.

mat6.jpg

Outro livro que expressa bem o que quero dizer, é Metamorfose de Kafka. O herói dessa história é o típico homem moderno, classe média, vazio e que leva uma vida rotineira de vendedor. Até que num determinado dia, o personagem acorda não mais como um ser humano e sim como uma barata. O homem que perdeu seus planos, tornou-se um parasita, sujo e repugnante. Seria possível um exemplo melhor do que esse para demonstrar o que acontece quando renunciamos nossas potencialidades?

Você há de concordar comigo que o momento em que vivemos nos diz muito sobre o que devemos desejar, como se a vida fosse uma simples receita de bolo: devemos completar um curso superior, arrumar um emprego, apaixonar-se, casar, etc,etc. Você pode então me dizer " ah, mas agora as pessoas compreendem melhor, os pais e a sociedade não fazem tanto mais essas exigências". O problema é muito mais profundo: as pessoas muitas vezes não acreditam em si mesmas, acreditam que não vale a pena lutarem pelos seus verdadeiros objetivos pessoais, possuem pouca convicção, sabe? É como li uma vez "Sou apenas uma coleção de espelhos refletindo o que os outros esperam de mim".

images.jpg

Eu lhe pergunto: Mesmo após as maravilhosas descobertas da Ciência, Medicina, Psicologia e as promessas de felicidade, a Pós-Modernidade mantém ainda o ser humano um prisioneiro de si mesmo? O ponto onde eu quero chegar é: a URGÊNCIA que todos nós temos em reencontramos a nós mesmos. Herman Hesse disse: "A vida de todo ser humano é um caminho em direção à si mesmo"

O que isso significa? Significa que temos que vencer nossa insegurança, explorar nossas potencialidades e nossa energia que se encontra dentro de nós mesmos. Antes que você me diga, eu lhe respondo: não, isso não é fácil, muito pelo contrário. Todo mundo enfrenta uma luta com si mesmo e a lista é infinita: complexos, medos, fobias, depressão, solidão e vazio. Mas, no momento em que nos reencontramos, vamos nos erguemos aos pouquinhos,e assim podemos seguir nosso caminho de forma livre e autoconsciente.

O que é fácil perceber é que muitas pessoas se perdem ao longo do caminho. Nossa sociedade é tão instável e devido a isso, as pessoas tendem a agarrarem-se à autoridades e dogmas estabelecidos como: a segurança diante do caos. A sensação, em muitos casos, é de nos sentirmos incapazes de tolerar tantas incertezas. Sem dúvida, o amor, a religião e os ideais fazem parte dos grandes "suportes" que o ser humano encontra e quando não encontra o terror da solidão é insuportável.

A filosofia pode ser uma fuga da realidade, assim como a Ciência, religião e o amor. Todas são ilusões, sim, ilusões que criamos. Nós sustentamos a ilusão de que a pessoa que amamos tem o que nos falta, definimos a religião para supor que a vida tem significado, o artista, escritor e o músico se entregam à arte como fuga da realidade e exploram a criatividade como uma forma de aprofundamento da consciência. Cada um encontra seu caminho.

download.jpg

Se eu quiser falar com Deus Tenho que ficar a sós. Tenho que apagar a luz. Tenho que calar a voz. Tenho que encontrar a paz. Tenho que folgar os nós. Dos sapatos, da gravata. Dos desejos, dos receios. Tenho que esquecer a data. Tenho que perder a conta. Tenho que ter mãos vazias. Ter a alma e o corpo nus. Se eu quiser falar com Deus. Tenho que aceitar a dor. Tenho que comer o pão. Que o diabo amassou. Tenho que virar um cão. Tenho que lamber o chão. Dos palácios, dos castelos. Suntuosos do meu sonho. Tenho que me ver tristonho. Tenho que me achar medonho. E apesar de um mal tamanho. Alegrar meu coração. Se eu quiser falar com Deus. Tenho que me aventurar. Tenho que subir aos céus. Sem cordas pra segura. Tenho que dizer adeus. Dar as costas, caminhar. Decidido, pela estrada. Que ao findar vai dar em nada. Nada, nada, nada, nada. Nada, nada, nada, nada. Nada, nada, nada, nada. Do que eu pensava encontrar. - Gilberto Gil

Creio que a resposta para toda essa questão é nada menos do que CORAGEM. Coragem para ser autêntico, para conquistar nossa liberdade, explorar nossas potencialidades, confiar em nós mesmos, e o mais importante: criar. Sim, porque chega um momento da vida em que o mais importante não é se conhecer, mas criar-se. A coragem seja a do soldado que arrisca a própria vida ou da criança que precisa ir sozinha à escola, significa a força para deixar o que é familiar e seguro.

"Cada homem é um ponto singularissímo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais " Herman Hesse- Demian.


version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Gisele Gonçalves